Anna Claudia Ramos Sempre por perto il. Gil Neto Cortez, 2006 Como um espelho d'água que ondula imagens dentro da gente, a vida de Clara multiplica-se reveladora de sua intimidade. Fazia sol, quando ela entrou na sala enorme do apartamento da avó. Agora, completamente vazia, outras cenas ocupam o lugar dos móveis que não mais existem. A memória, límpida, no entanto inunda seu corpo e ela deixa-se beijar por quem realmente foi, em sua complexidade suave e apaixonada. Amores sinceros por meninos e por meninas não seriam apenas fantasias, mas a sua experiência. Foi preciso muita coragem para contar e adolescer sob o carinho e a confiança da mãe, que jamais dividiu seu segredo com outra pessoa. Clara amava Luna. A gente se beijou outro dia e foi tão forte. Mas Luna, em dupla órbita, também amava Lígia... Quando o amor faz sofrer, a gente precisa tomar uma atitude. E ser forte, como Clara em seus caminhos, para não amar ninguém mais pela metade. Outras cenas e outras paixões em flashback povoam a mente de Clara adulta e o ambiente daquela sala vazia. E assim, em sua novela pêndula do presente ao passado, Anna Claudia Ramos registra as dificuldades e as conquistas que permeiam a construção de uma identidade sexual particular. Com a mesma energia que sai pelos poros, na vida de Clara, os sentimentos da adolescência despertam divididos entre as representações e os desejos do mundo masculino e do feminino. Por isso, o grande esforço de integrar a felicidade à aprendizagem de saber crescer e respeitar-se, antes de tudo, a fim de vencer qualquer preconceito, violência ou polêmica. A narração escapa aos julgamentos, e algumas situações passam a ser descritas e comentadas em linguagem direta. As cenas não insinuam, mas ensejam o desejo. Persistem apenas as vozes da discriminação somente a reverberarem interiormente na personagem. Ninguém ensina a ser diferente, descobre-se: e é exatamente a isso que Clara se propõem, revelando sua imagem para si e para o mundo. Tranqüila. Sem pressa. |
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