Shel Silverstein

A árvore generosa

Cosac Naïfy, 2006


a lição da Árvore


Socorro Acioli *


Não há nada mais urgente nesse mundo do que uma epidemia incurável de generosidade, essa virtude tão rara e necessária, que nos ensina a viver com a certeza de que a doar amor é o único caminho para ser feliz. A generosidade é bem diferente da caridade sem afeto, o que não serve mais e o que não fará falta, sem olhar nos olhos de quem recebe. Ser generoso é mais, é enxergar a própria alegria no sorriso do outro.
Generosa de verdade é a macieira, personagem principal do livro infantil A árvore generosa, escrito e ilustrado pelo americano Shel Silverstein, traduzido por Fernando Sabino e lançado pela Editora Cosac Naify. O texto original não é recente, já está na 12º edição. Foi publicado pela primeira vez em 1964 — um dos anos em que o Brasil mais precisou de atitudes generosas — mas só algum tempo depois foi traduzido para o português. Agora chega às livrarias em edição bem cuidada, como são todos os livros da Cosac Naify, uma editora que definitivamente conquistou o seu espaço no mercado da literatura infanto-juvenil brasileira.
Voltando ao texto, ele fala da amizade entre um menino e uma árvore, da infância à velhice de cada um. A árvore vai suprindo as necessidades do menino: a vontade de brincar, de comer, de ganhar dinheiro, de viajar, de ter uma casa e, por fim, de descansar. É sempre a árvore que doa o que tem de melhor e, com isso, fica feliz. Já o menino, de tanto querer, não consegue encontrar de fato o que poderia garantir a sua felicidade.
Durante a infância, o garoto não precisava de mais nada além do que podia ser e viver estando perto da árvore. Mas a medida em que suas necessidades aumentavam, ele sumia, afastava-se de sua macieira, precisando sofrer um pouco para constatar que a árvore poderia, de maneiras diferentes, ajudá-lo a solucionar os seus problemas de adulto. (Onde está a árvore de cada um de nós? Por que teimamos em viver sempre tão afastados da infância?)
O menino cresce, envelhece, mas o narrador continua a ver a cena do mesmo ângulo — ao lado da árvore — e não deixa de chamá-lo de menino até a última página.
Tentar arriscar qualquer definição para este texto é um esforço em vão. É preciso sentir as palavras, tocar o papel e ser tocado do pelas surpresas do texto. A árvore generosa fala da vida de cada um de maneira diferente a medida em que o leitor vai abrindo as suas metáforas, que são inúmeras. O leitor infantil poderá compreender o texto acompanhando o desenrolar dos fatos a partir do ponto de vista do menino, aquele que ficou no começo da história e que nunca deveria ter crescido. Ao adulto que estará por perto, caberá a tarefa de lançar perguntas e despertar a reflexão sobre a o que é ser generoso. Sim, a hora é essa. Para tornar real o sonho de uma epidemia de generosidade é preciso começar com as crianças.
O adulto poderá iniciar a conversa dizendo que este livro bonito, todo ilustrado, só existe nas mãos do leitor graças a uma árvore generosa que em algum lugar do mundo, deixou-se morrer para transformar-se em papel e depois, em um livro para crianças. E se não existissem árvores generosas? E se não existissem homens generosos para plantar de novo as árvores que tombaram? Assim pode ser que a criança sinta a generosidade nas próprias mãos.
Ainda sobre a materialidade do livro, as ilustrações e a diagramação estão em perfeita harmonia com os momentos de emoção do texto. As frases mais fortes aparecem solitárias, no meio da página branca, tendo a árvore como companhia, fazendo com que toda atenção seja concentrada em orações simples e belíssimas.
Generosidade de verdade é dar de coração aquilo que nos é mais valioso. É emprestar o brinquedo novo para o amigo, visitar o colega doente e ficar em casa com ele em dia de sol, é dar um sorriso para o menino que pede esmola no sinal. Pais e educadores têm inúmeros desafios, mas talvez o maior deles seja o exemplo diário da generosidade, essa virtude rara, que faz tanta falta nesse mundo tão egoísta.


* Socorro Acioli é mestre em literatura infantil pela UFCE
e Editora Adjunta da Fundação Demócrito Rocha.


Dobras da Leitura
Ano VII - N.º 32 - abr. 2006
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