Raymond Smullyan Alice no país dos enigmas trad. Vera Ribeiro il. Greer Fitting Jorge Zahar Editor, 2000 Para quem sente saudades do País das Maravilhas, o livro de Raymond Smullyan é um convite e tanto, com suas doses bem dosadas de desafio e, claro, divertimento - em doze capítulos. Alice no país dos enigmas foi publicado em 1982, comemorando os 150 anos de nascimento de Lewis Carroll, de um modo convincentemente carrolliano: personagens que agem e falam como os originais, envolvendo Alice e o leitor em problemas de natureza lógica, trocadilhos e despistes metalingüísticos, e bons truques mágico-metafísicos. Imagine um dia fresco de verão: e o Rei pede à Rainha de Copas para preparar algumas tortas saborosas. Mas, como fazer essas tortas, se a geléia (que é a melhor parte!) foi roubada? Quem roubou? Os suspeitos são a Lebre de Março, o Chapeleiro Louco e o Leirão. Todos três imediatamente vão a julgamento: quem roubou a geléia, ora essa, foi a Lebre de Março, o Chapeleiro Louco ou o Leirão. Como descobrir? (Essa e as outras soluções dos 88 enigmas estão no final do livro.) Por fim, encontram a geléia -- mas também roubaram a farinha, o açúcar, o sal, a assadeira, o livro de receitas, a manteiga, os ovos... e a pimenta!!! Outros personagens são levados à corte e cada suspeito sempre faz sua declaração e assim começam as confusões no País das Maravilhas. Depois, Alice passeia com a Duquesa que lhe abraça e finca o queixo pontudo no ombro da menina, segredando: metade das criaturas daqui são loucas! Resta descobrir quem... e assim, com o Grifo, a Falsa Tartaruga e o Rei vai se passando a mesma coisa: adivinhar, descobrir, decifrar -- como promete a quarta de capa -- problemas lógicos matemáticos, adivinhações deliciosas, charadas mirabolantes, enigmas diabólicos, desafios tentadores. E mesmo que você não tenha talento ou paciência, o que vale nessa leitura é também avançar páginas e alcançar a segunda parte do livro: A Lógica do Espelho. Alice é posta à prova pela Rainha Vermelha e a Rainha Branca, em uma verdadeira aula de malabarismos matemágicos. Isso mesmo, matemágicos pois o que importa não são os números, mas exatamente o abracadabra de cada palavra na enunciação do problema. "Você sempre deve contar tudo, porque tudo conta." A menina também encontra os gêmeos fofuchos Tweedledee e Tweedledum... sem o nome bordado em seus colarinhos, como já aconteceu no outro livro. Então, quem é quem? É preciso lembrar que nem tudo que é parecido será, fatalmente, similar! E Humpty Dumpty está de volta, sentado no mesmo lugar do mesmíssimo muro. Deliciosamente, paradoxos Humpty Dumpty oferece a Alice: perguntas que não têm resposta (porém, dão o que pensar) e, por isso, descobrimos o lado mais bonito dessa coisa: não termos respostas para tudo, mas enovelar o pensamento para descobrí-las ;-) Humpty Dumpty é um dos argumentadores mais argutos que conheço, diz o Rei Vermelho, é capaz de convercer praticamente qualquer um de praticamente qualquer coisa, quando se dispõe a fazê-lo! Por fim, as aventuras de Alice enredam-se no grande enigma da filosofia moderna e na teoria dos 'mundos possíveis', retomando atentamente a passagem do livro de Carroll em que o Rei Vermelho dorme e sonha. Sonha com uma menina chamada Alice e, caso acorde, Alice deixaria de existir, puff!, feito a chama de uma vela. Agora, ficamos sabendo que o Rei Vermelho também encontrou Alice dormindo... e, sonhando com ele, de tal modo que, acordando, era o rei que era uma vez feito vela! E, você já sonhou que você é um sonho? Como diz Smullyan, "Este livro, tal como as Aventuras de Alice no País das Maravilhas e Através do espelho, é realmente para leitores de todas as idades. Não quero dizer com isso que todo ele seja para qualquer idade, mas que, tomando uma idade qualquer, parte dele é para essa idade." |
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