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oqu'éque ali se esconde
Peter O'Sagae
Dobras da Leitura
Nalgum lugar lique Alice no País das Maravilhas “é o mais estranho e fascinante livro para crianças jamais escrito”. Com ligeiro estupor, fiquei estoupeirado! Que grandefeito ao livro, pois não, se jamais escrito, quem haveria de ser o leitor apto a comentá-lo? Por sorte, o susto esvaiu-se muito mais ligeiro, ao lembrar-me de que realmente alguém pudera escrever tal livro, e alguns outros mais:
Lewis Carroll. Manuscritas e ilustradas originalmente pelo próprio autor, as páginas de Alice's Adventures under Ground foram presenteadas a menina Alice, da família Liddell, anos antes de sua primeira publicação, em 1865. Assim temos, ou melhor, podemos ter em mãos um livro certamente comentável, o que poderia ser o mesmo que dizer “altamente comestível”. Afinal, de que valeria um livro sem doçura, ou doses de loucura?
Contudo, o elemento estranho e fascinante que ali se esconde pode ter outra qualidade, para alguns leitores, não todos, é verdade. E há boatos espalhados nos botes da teoria de que os livros de Alice vieram afastando-se do telescópio da criança, abaixo do microscópio do leitor adulto. E o qüiproquó da história é:
“só assim é, se lhe apareceu assado”.
Vejamos, por certo, que um ovo só se parece com um espeto, quando, e somente quando, a crítica quer. E muitas vezes consegue, brejeiramente ou não, impondo a qualquer obra um tipo de leitura que bem pode ser chamada de ‘decodificação mecanicista’, em que o menor indício é logo senha para algo a ser francamente compreendido e revelado. Mas, sabe como é, uma corrida de comitê:
um grupo de comentaristas molhados, dentro de uma espécie de círculo
traçado no chão (a forma não tem muita importância, explica-nos o Dodô). Não precisa haver nenhum “Um, dois, três e já!” pois todos começam a correr quando querem e param também à vontade, de modo que não é nada fácil saber quando a leitura termina. E à qual conclusão se quis secar... Do lago dos livros de Alice, ora, já foram pescadas diversas interpretações alegóricas, vez e outra, com o anzol social, trazendo à tona uma botina biográfica ou extratextos históricos e histéricos, sem comprovação por referências concretas — mas quase sempre a puxada psicanalítica é a que mais puxa. O eminente perigo é iminente, nada sublime. “Tudo pode ser suposto, quando se parte do princípio do sentido oculto das representações”, escreve Sebastião Uchoa Leite, no estudo introdutório que antecede
sua tradução da obra. “É realmente medonha”, murmurou Alice, “a mania que essas criaturas têm de discutir. É de enlouquecer qualquer um!”
No entanto, alguns outros críticos, conscientes da armadilha que é o estudo da intencionalidade de uma obra, e mais criativos talvez, esboçam uma aproximação do trabalho de Lewis Carroll através do que o próprio texto tem a oferecer em sua superfície.
Porque menos enlouquecidas do que uma Lebre de Março, são as apropriações de certas referências e estruturas lingüísticas — e a conseqüente desapropriação de seus sentidos originais, a partir de um conjunto de expressões populares e idiomáticas inglesas, das nursery rhymes e outras cantigas tradicionais, dos poemas encontrados nas velhas cartilhas e outros de alguns célebres escritores da época vitoriana.
Ao ritmo da intertextualidade, impõe-se um jogo que abriga e obriga as palavras à transformação.
E, instaurando uma nova proposição da ordem, seu efeito só poderia ser — cosmético!
Assim, surgindo do caos, a potência imagética da palavra desdobra-se tríplice entre suas qualidades materiais (sonoras e gráficas) e seu poder de invocar visões.
A densidade plástica da palavra, em metamorfoses sonoras, é artesanal e sorrateiramente trabalhada pelas paronomásias, vulgares troca-trilhos em trocadilhos, até mesmo consideradas “indignas de um estilo escorreito”
(Pignatari, 1974: 108).
A semelhança fônica e/ou mórfica talvez seja o espinho da fala ou aspecto mais difícil de manter entre as rosas e os rasos de uma língua à outra.
Mas, sem falhas em sua formação acadêmica, a velha Falsa Tartaruga é quem mais parece entender do riscado:
teve lá suas aulas de Belas Tretas e Estrilo, além de Estudos Histéricos dos fatos antigos e modernos, etc.
No original em inglês, o exemplo mais-que-perfeito parece mesmo ser a correspondência sonora
entre as palavras [tail] e [tale], de modo anatomicamente ajuizado pelo modo como o
conto do rato torna-se seu próprio rabo.
Como calda escorrendo pela página, o poema-cauda alonga-se diante do olhar
do leitor-expectador do livro de Alice, ao mesmo tempo em que se configura o longo conto ante à percepção da
ouvinte Alice. Ocorre um “isomorfismo olho/ouvido”
(Pignatari, 1974: 82),
ou seja, uma dupla paranomásia de plasticidade sonora e visual.
Em sua versão original manuscrita, o escritor inglês teve caprichos de ir retorcendo
o vasto rabo e o último verso aparecer em curva, obrigando o leitor a virogirar o livro...
Nas edições impressas, não todas snif, o gracejo da invenção carrolliana é apresentado sinuosamente
em linhas e tamanhos tipográficos que vão, pouco a pouco, diminuindo até o fim.
Mas por que não é assim que vem, em certos livros publicados por aí?
Seja lá como for, outra mania que Lewis Carroll não esconde, ao lidar com a plástica
da palavra, é o uso de portmanteaux, ou palavras-valise. Como diria o Dodô, a melhor maneira de explicar isso
é mostrá-lo. Com dois exemplos, quase os mesmos, mas diferentes em duas traduções.
Para Sebastião Uchoa Leite, a professora da Falsa Tartaruga
no seu tempo de escolar era uma verdadeira Torturuga. “Mas por que Torturuga, se ela
era uma tartaruga?”, perguntou Alice. “Nós a chamávamos de Torturuga porque
aprender com ela era uma tortura”, respondeu irritada a Falsa Tartaruga.
“Na verdade você é bem obtusa, hein?” (1977: 108). Para Nicolau
Sevcenko,
tratava-se de uma Tetrarruga “porque, sendo uma tartaruga velha, tinha quatro
rugas no pescoço, é lógico” (1988: 91). No entanto, uma palavra nossa conhecida
também pode revelar-se uma portmanteaux, se assim quisermos que [aveia]
comporte “ave” e “eia”. Sopa?
Dentro da segunda história, Alice através do espelho e o que Alice encontrou lá,
escrita em 1872, Lewis Carrol inclui um poema chamado
Jaguadarte (tradução de
Augusto de Campos). Entre outras coisas, Alice encontra o poema e contempla, intrigada,
suas linhas como se escritas em alguma língua que não conhece. Isso porque as letras,
palavras e frases que estampam o texto estão todas invertidas – plasticamente espelhadas – e
é esta mesma visão que o leitor tem. Até que lhe ocorre uma idéia luminosa: como se trata
de um livro do Espelho, colocando-o diante de outro espelho, as palavras ficarão
na ordem certa outra vez. Então, poderá ler:
| Era briluz. As lesmolisas touvasRoldavam e relviam nos gramilvos.
Estavam mimsicais as pintalouvasE os momirratos davam grilvos. |
Ora, são dois níveis de distorção: primeiramente, ótica; depois, porta-mantimentosa. E agora
a cena parece ser facilmente bucólica para decifrar as palavras intrincadas... Persistindo
a dúvida, favor consultar o muito habilidoso Humpty Dumpty ;-)
o ovo ajuda Alice a sacar-rolhas do signo-ficante de cada palavra.
Ele realmente se parece com um espeto desperto.
Subindo a página pela escada dos parágrafos,
você mesmo pode ver-e-ficar que meu texto fez menção a certa e
terceira qualidade da palavra: evocar e convocar imagens à mente leitora. Isso, Pound
chamou fanopéia, sinceramente, e já vai bem avastada uma basta discussão sobre o tema...
Porque acreditamos gostar da fantasia dirigida por uma cabeça alheia,
tal Gatinho de Cheshire que ninguém ousa decapitar, temos por costume dizer então que
a literatura nos faz viajar e nos sentimos felizes, por isso. Mas...
Fora as imagens que Alice viu, em todas as suas dulcaloucas aventurosas,
são as imagens que Alice fatalmente não viu, ou que invoca sobre si mesma,
que são das mais surpreendentes. Que outra personagem poderia dizer:
“Só queria saber o que aconteceu comigo. Quando eu lia contos de fadas,
pensava que essas coisas jamais aconteceiam, e cá estou eu metida numa dessas histórias!
Deve haver algum livro escrito sobre mim, deve haver!”
Alice sabe que não deve, nem poderia, se confundir com as personagens tradicionais,
que jamais vira transformando-se tanto quanto ela, atravessando o País das Maravilhas.
E muito tímida sentiu-se, imagem diminuída, face à temida pergunta da Lagarta:
Quem é você? “Eu... eu... nem eu mesmo sei, senhora, nesse momento...”
Tempos depois, do outro lado do Espelho, lique a dúvida era:
“E agora, quem sou eu? Eu quero me lembrar, se puder.” Qual imagem sem passado,
ela precisa lembrar-se quem era, a qualquer instante, para não esquecer quem não foi.
O que é que Alice esconde?
Igualmente ambígua, tudo e nada, afirmação e negação,
ilusão e palavra deceptiva, signo e anti-signo, a anti-personagem assemelha-se a boneca
que a criança destrói na ânsia de descobrir o "dentro" ou o "avesso", e experimenta a
decepção de se defrontar com o vazio do "dentro", verdadeira gargalhada irônica que
aponta com o dedo o sonho louco do "fora", enganosa vestimenta de um nada.
(Segolin, 1978: 102)
“Estou decidida a me lembrar.”
“É inútil”, responderá a ela Tweedledum páginas adiante.
Parte de um sonho, parte de uma imagem de um sonho à beira do
esquecimento. “Você sabe muito bem que você não é real.”
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