Kate DiCamillo A história de Despereaux trad. Luiza Aparecida Santos il. Timothy Basil Ering Martins Fontes, 2005 Era abril, quando Despereaux nasceu e um fraco, mas constante sol varava as janelas do castelo: um fino fio dourado conseguiu atravessar um buraquinho na parede e chegar ao pequeno camundongo. Ele, o último filho do casal Tilling, nascia pequeno demais, orelhudo e, para o espanto de toda família, vinha ao mundo de olhos inteiramente abertos! Bem se via e todos pensavam que seria um camundongozinho doentio, sem muita graça, incapaz de se defender... É fato que Despereaux sobreviveu, espirrando sempre, pois não, com um lenço preso à pata, com suas orelhas enormes. Por isso, ouvia sons que nenhum outro camundongo prestava atenção... Para desgosto geral, seus modos não eram nada convencionais para um filhote de camundongo. Despereaux não se desesperava por lascas de comida, nem mesmo lhe apetecia roer páginas, cola e tinta dos livros da biblioteca. Porque roendo, estragaria a história de uma bela donzela e seu bravo cavaleiro. Assim, fisgado à leitura, o pequeno camundongo se encantava, sem saber que, um dia, ele também precisaria ser valente! E era uma vez... A história de Despereaux que conta o que aconteceu com um camundongo, uma princesa, um pouco de sopa e um carretel de linha. Mas também é a história de um rato ofuscado pela luz chamado Chiaroscuro que vivia no temível calabouço sob o castelo. E é a história de Migalha Sementeira, uma triste menina com orelhas em forma de couve-flor que sonha, um dia, ser princesa... É uma história tecida num labirinto de muitas outras histórias de amor, de coragem e aventura, de vingança e perdão, de um pouco de esperança na vida de tantos personagens que se encontrarão nos paços iluminados e nas profundezas sombrias daquele castelo. “Histórias são luz.”, ensina Gregório, o carcereiro do calabouço. “A luz é preciosa num mundo tão escuro.” Por isso, é necessário começar do começo, fazer alguma luz ante os olhos do leitor. O livro de Kate DiCamillo sussurra no ouvido da gente fios que nos salvam da escuridão. Seu estilo possui frescor e é ágil como cinema de desenho animado, colocando em cena personagens que são únicas, além do tempo e magicamente atuais. Sua obra pode ser considerada como um moderno conto de fadas que, em 2002, recebeu o Newberry Medal Book, o principal prêmio de literatura para crianças e jovens dos Estados Unidos. Talvez, por aqui, o pequeno leitor brasileiro estranhe a extensão pra mais de duzentas e vinte e duas páginas. Mas, a leitura é certeira: o texto é composto por um campo lexical exato para a compreensão de uma criança de nove, dez, onze anos. Ou até menos, se a leitura for compartilhada... Em diversos momentos, a narradora instituída por DiCamillo dirige a palavra ao leitor e tal estratégia muito facilita a apreensão de idéias e dos encaixes entre as diversas partes da história de Despereaux. E a tradução resultou simplória, com cinco ou oito pequenos deslizes no fluxo ou trocando palavras, mas nada que comprometa nosso divertimento. No trabalho com as ilustrações, Timothy Basil Ering evoca os principais encontros entre os personagens da história e emprega delicadamente o grafite de ponta fina e macia. Suas imagens intercalam-se ao texto e muito lembram as gravuras típicas da Idade de Ouro da Ilustração, em requadros margeados pelo branco da página em que, abaixo, inscreve-se uma legenda. |
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