Georgina Martins Uma maré de desejos il. Cris Eich Ática, 2005 Porque o pensamento é feito ondas, Sergiana entrega-se a elas: quer conhecer o mar, quer ver a mãe voltar para a casa, tomar banho de chuveiro elétrico, uma latinha de goiabada bem vermelha e um beijo de Luciano. Tantos desejos, como escolher um só para escrever a redação que a professora pede? Tem que ser um só! Enquanto pensa e repensa, a menina vai se lembrando de sua vida, dos dias que deixou para trás no sertão pernambucano do Buíque e chegou ao Rio de Janeiro. Ali, tão perto, tão longe do mar... Como se escreve Leblon? E bronzeador? Sergiana mora na Favela da Maré. Mas, se maré tem tudo a ver com mar, por que o mar não tá tão perto? Das coisas de que mais gosta, a companhia do Luciano. Às vezes, os dois dão um passeio pela Rua Teixeira Ribeiro, a mais bonita da favela. Mas também podia acontecer de sair tiroteio por lá e toca correr, esconder-se. Era preciso ficar esperto para escapar das balas! E ela até pensou como eram diferentes essas balas daquelas que os meninos vendem nos cruzamentos. Ah, isso ela viu na televisão... Como também viu, na novela, uma moça com os cabelos bem parecidos com os dela. E a moça tomava banho de rio, molhava-se inteira, e os cabelos ficavam lindos, flutuando nas águas. E é mesmo num flutuar de imagens, lembranças, sonhos, esperanças, que a escritora Georgina Martins mergulha os fios de sua novela singela. Domina na prosa a focalização interna, o discurso livre do pensamento da menina Sergiana vazando por sobre a voz do narrador. E revelam-se assim as muitas cores que a cor da ternura tem. Sem avaliações, sem rancores, sem circunscrever o olhar do leitor. Georgina escreve sem preconceitos, panfleto ou espetáculo. Sergiana é criança como qualquer outra criança. Em seu lugar, num contexto de privações, é certo, mas descobrindo a vida de braços abertos. Na mesma maré de desejos, os desenhos do tímido Luciano, seu companheiro de tantas conversas, sua primeira paixão. O menino faz o mar, faz Sergiana esvoaçando. Parecia até que o vento estava batendo nos cabelos dela. Ela se achou linda no desenho de Luciano, parecia até a princesa Caralâmpia. E porque no desenho a gente pode pôr tudo do jeito que a gente quer, a Maré inteira recebe praia, prédios, praças... E será, no rodopio do lápis, que os desejos ganharão contornos de projetos: de transformação, de realização: "Você sabia que eu vou ser escritora?" Com toda literatura, pés na coragem e enfeites de vaga-lume. |
| |||
|