as Professoras também lêem a Capa
O Ursinho Apavorado
de Keith Faulkner
il. Jonathan Lambert
trad. Vitor Kaiser
Cia. das Letrinhas, 2000
* Um exercício proposto às professoras-cursistas, durante a disciplina de Literatura Infantil,
é o registro da leitura que realizam a partir da capa de um livro, antes de formular uma situação de leitura para seus alunos – anotando
as dúvidas, hipóteses e expectativas.
Geovana Dahmer-Marquezi
Professora de Educação Infantil, em de Luzerna SC
e aluna do Curso de Pedagogia
UNOESC - Joaçaba, 2002
O livro “O Ursinho Apavorado” logo me reportou a uma situação vivenciada durante a minha infância (relatada durante a leitura da capa). Ela também sugere vários elementos para a sua leitura, uma situação que está acontecendo e que, juntamente com o título, permitem o leitor fazer uma leitura prévia e simples mas também mais aprofundada.
O livro traz na capa um ursinho deitado numa cama, todo amarelinho, assustado, olhando para uma sombra ou talvez um vulto acinzentado, que aparece à esquerda da capa. O título aparece na parte superior da capa, à direita, como se estivesse solto. A palavra "apavorado" está grafada de forma irregular com letras que parecem ter sido escritas por alguém assustado, trêmulo e com muito medo. A capa sugere, pelos elementos que ali aparecem, que se trata de um quarto, talvez do Ursinho, que está deitado na cama...
Há uma harmonia nas cores escolhidas pelo ilustrador, dando destaque ao personagem principal da história, o ursinho, em tons de amarelo e laranja. As cores de fundo usadas na capa (matizes de azul, verde e branco), podem evocar as paredes ou papel de parede do quarto de uma criança.
O Ursinho está todo encolhido na cama, com o olhar voltado para a parede, ou talvez para a janela, ou quem sabe ainda, para a porta do quarto. Está com um olhar apavorado, com os olhos arregalados e as sobrancelhas arqueadas. As orelhas estão abaixadas. As pernas estão encolhidas e até a própria cama dá a impressão de haver encolhido, também de medo, ou quem sabe, para proteger o ursinho. Ele oculta embaixo das cobertas a sua boca, lembrando bem uma das condutas características de uma pessoa que está passando por uma situação de pânico, de muito medo: permanecer imóvel, quieta, com a respiração contida. Esta postura corporal é típica de quem tenta desesperadamente proteger-se, desejando conscientemente desaparecer, não ser percebida ou fugir de uma situação de perigo.
O grande vulto ou sombra acinzentada parece ter a forma de um lobo peludo, a boca escancarada e com dentes afiados. Será que ele quer pegar o Ursinho? Parece também lembrar a sombra de uma árvore ou de algum arbusto projetada, talvez, pela luz da lua ou do sol na parede ou cortina do quarto.
(Esta cena me faz lembrar de um episódio semelhante ocorrido na minha infância quando pensei haver na janela de meu quarto, uma pessoa tentando entrar para me assustar. Minha mãe, tentando descobrir quem queria invadir o meu quarto, verificou que se tratava de uma árvore que, tendo os seus galhos e folhas balançados pelo vento, projetava através da luz do sol, uma sombra semelhante a uma pessoa na janela. A minha imaginação encarregou-se do restante!).
Perguntei então à capa: por que um ursinho estaria tão apavorado na cama? São os ursos que causam medo e pavor às pessoas e aos animais nas histórias como também na vida real. Será talvez por ser ele um Ursinho, um filhote, imaturo, ainda não consciente e sabedor da sua condição, do seu poder, do seu instinto, estando longe de quem possa protegê-lo?
Mas, se observarmos bem, verificaremos que a coloração amarela do pêlo do Ursinho, não condiz com a cor da pelugem de nenhuma espécie de ursos na natureza. Examinando as suas patas, temos a impressão de que se trata de um ursinho de pano, de pelúcia Seria este o quarto de uma criança e não do Ursinho?
Algo que realmente me chama a atenção é o vulto, ou sombra, acinzentado e não muito nítido. E quase ao pé da cama encontra-se a frase ou subtítulo: "Um livro de dobraduras não muito apavorante". Podemos supor que o livro é endereçado para o público infantil, talvez para crianças da faixa etária dos 0 aos 5 anos.
O fato de o livro intitular-se o "O Ursinho (pequeno, indefeso... este que as crianças pequeninas usam para dormir, para sentirem-se protegidas na escuridão da noite, estando sozinhas no quarto, onde muitos vultos, monstros, lobos e bruxas se materializarem...) Apavorado”, nos dá a impressão da história ter como alvo principal, o público infantil. Um livro com suspense mas com um final feliz, para não assustar demais as criancinhas, tal e qual o Ursinho, no diminutivo! Resta-nos agora, conferir a história!
Resumo
O Ursinho acordou assustado no meio da noite com um som horrível. O que poderia ser? Um leão faminto querendo pegar o Ursinho? Um gorila furioso? Um elefante enorme em disparada? Um rinoceronte muito mal-humorado?
O Ursinho chamava, chamava, cada vez mais alto e... nada do papai aparecer. Resolveu ir até o quarto de seus pais para saber porque ele não veio socorrê-lo. Para sua surpresa, descobriu que os sons que ouvia não eram de nenhum monstro mas era simplesmente o seu papai... roncando!!!
Apreciação do livro
RRRAAAG!... CHUIII!... ARRRAAAG... CHUIII! Esse estranho ruído onomatopéico atravessa o livro da primeira à última página. Grafado em negrito, é ele que tira o sono, acorda e deixa apavorado o Ursinho, ao mesmo tempo em que deixa curioso o leitor: o que poderá ser este som?
A cor de fundo de todas as páginas deste livro de dobraduras, com exceção da capa e contracapa é preta, afinal, a história se passa no meio da noite, na maior escuridão, como salienta o narrador. O fundo preto permite deixar em evidência as dobraduras dos animais que apavoram o Ursinho e que aparecem a cada página.
Na primeira página, a ilustração permite verificar o susto que o Ursinho leva, ao despertar com aquele horrível som, levando o personagem principal a imaginar a quem possa pertencê-lo. Os monstruosos animais estão na imaginação do ursinho muito bravos, enormes, querendo pegá-lo, com um olhar amedrontador. Imaginar e chamar é o que o Ursinho mais faz durante toda a história!
O tamanho das dobraduras do livro tem o mesmo tamanho, ou seja, assumem a mesma dimensão do medo, do pavor do Ursinho. Assim, está lá a dobradura do leão faminto de juba imensa, do gorilão furioso de braços compridos e olhinhos vermelhos... e o Ursinho encolhidinho na cama. Penso que o enredo da história e a proposta do livro de dobraduras foi um casamento que deu certo (percebe-se aqui claramente o “diálogo entre o escritor e o ilustrador e destes com o leitor) porque os animais crescem “literalmente” dentro do livro! Assim como crescem no decorrer da história, os clamores do Ursinho.
Primeiramente ele chama: “PAPAI!” com uma vozinha fraca (talvez tivesse chamado muito baixinho e ele não ouviu). Resolve então chamar “PAPAI!” com voz um pouco mais forte. (e nada do seu pai aparecer!). Resolve então gritar “PAPAI!” (mas novamente não veio ninguém). O Ursinho berra o mais alto que pôde: “PAPAI!” (mas ainda assim seu pai não veio). Desesperado ele urra: “PAPAI!” (mas o barulho horrível não pára!)
Essa seqüência de chamados do Ursinho, não atendidos e a forma como são grafados em fonte cada vez maiores, caixa alta e em negrito vão provocando no leitor uma expectativa, curiosidade e até um “quezinho” de irritação: como pode o filho chamar e chamar o seu pai numa situação como essa, e não ser atendido? A intenção do narrador é criar um suspense crescente para o desfecho que virá à seguir: o Ursinho desce da cama: aqui a curiosidade, perplexidade pelo fato de permanecer sozinho falam mais alto do que o medo: o medo já não era mais tão grande, a curiosidade por saber o que havia acontecido com seu pai desviou o foco de atenção do Ursinho. Porém, ele desce sem fazer barulho e vai até o quarto de seus pais, abrindo a porta com cuidado. Ele traz consigo a coberta verde (que antes o protegia) e a abandona no meio do caminho (outro sinal de que o medo já não assume as mesmas proporções de antes) e arrasta consigo o travesseiro. O ruído onomatopéico atravessa o quarto do urso e vai até o quarto dos seus pais (sai de uma porta para entrar na outra) E o ursinho se pergunta: Onde estaria papai, para salvá-lo do monstro?
Na última página, o leitor “abre” a porta do quarto do casal, juntamente com o ursinho: tudo é um convite para desvendar o mistério. Para surpresa de ambos (Ursinho e leitor) lá está o seu Ursão roncando e a Dona Ursa com rolinhos (bóbis) na cabeça, deitada ao lado, com cara de sono, ou melhor, com olheiras por não conseguir dormir. O leitor diverte-se ao ver que ela está com um tampão de algodão nos ouvidos. Também, pudera! Durma-se com um barulho desses!!!
O ursinho olha ternamente para o seu pai e sente-se aliviado pelas duas respostas que obteve de uma só vez: não era um monstro, o estranho ruído era o seu pai roncando e, por isso, não o ouviu e não foi ao seu socorro.
As ilustrações do livro, pelo fato de serem dobraduras, falam muito e por sí mesmas: arrisco até a dizer (embora não tenha feito a experiência), que mesmo sem o texto a história pode facilmente ser compreendida!
Outro fato interessante para mim enquanto leitora, é que nos dois momentos: leitura da capa e leitura do livro, pude evocar experiências semelhantes às vividas pelo personagem da história: a “sombra” projetada na parede (conforme já contei durante a leitura de capa) e o ronco assustador de alguém de minha família (que me levou até o quarto de minha irmã para pedir ajuda e afastar o “monstro que estava dentro da nossa casa”!).
Depois do estudo, fiquei a pensar: como é fácil sermos injustos com um livro. Logo que fiz a leitura da capa, não tive curiosidade em abri-lo... li o livro e tive instantaneamente, aversão pela história. Achei sem graça, óbvia e as dobraduras, esteticamente feias. Foi com o estudo mais apurado da história, de percepção dos elementos trazidos pelo ilustrador e pelo narrador que me permiti ser cativada por ela. Penso que aqui cai bem o ditado popular: “Não se ama o que não se conhece”. Porque foi a partir do momento que mergulhei no livro que consegui perceber a conexão das dobraduras dos animais com o texto e com a ansiedade crescente do Ursinho (elas não poderiam se mostrar bonitinhas, mas sim assustadoras, tal qual o medo do personagem. Ai! Isso agora me parece tão evidente!) O grande charme do livro são as ilustrações: as diferentes posições do Ursinho na cama, a boca, braços, ou patas dos ferozes animais, quase tocando, agarrando o Ursinho ou subindo em sua cama — e o final da história, as expressões fisionômicas do Ursinho e da mãe dele. Sem dúvida, agora vejo este livro com outros olhos! Será que é isso que acontece quando uma pessoa ama determinado livro e outra odeia? Será que muitas vezes não precisamos dar um pouquinho de nós mesmos, “investir” tempo e os sentidos na sua leitura?