as Professoras também lêem a Capa
Panela de arroz
de Luís Camargo
Ática, 2000
Da teoria à prática: na disciplina de Literatura Infantil e Juvenil,
o registro de leitura, junto à análise de um livro, é o primeiro exercício para o mergulho dentro
do livro a fim de conhecer a história e as principais características de linguagem de um texto.
Somente depois, iniciamos o planejamento da ação pedagógica.
Luciana Ramalho Santana
Aluna do Curso de Letras
Universidade Anhemi Morumbi
São Paulo, maio de 2004
Procurando na biblioteca da escola em que trabalho, encontrei diversos livros... porém, nenhum deles chamou minha atenção. Como precisava realizar rapidamente esta busca [para o trabalho na disciplina de Literatura Infantil, em meu curso de Letras], resolvi selecionar dois — Bule de café e Panela de arroz, ambos de Luís Camargo, orientando-me pelo nome do autor.
Ao ler as histórias, confesso que não gostei de nenhuma delas mas, depois de mostrá-las ao professor e reler várias vezes, passei a amar o livro de Luís Camargo, Panela de arroz.
O livro nos conta a história de Maneco Caneco Chapéu de Funil que encontra uma casa no formato de uma panela. Ao chegar em frente, tenta entrar mas não consegue porque a porta está fechada. Completando uma parlenda, consegue fazê-la abrir... Depois da primeira, Maneco encontra outras portas e só conseguirá passar após responder algumas adivinhas. Quando ele termina de abrir todas as portas, o arroz começa a ser preparado; quando fica pronto, Maneco Caneco o come e vai embora cantando.
Para realizar este trabalho, foram necessárias várias leituras. Na primeira leitura, busquei conhecer a história e, à primeira vista, não gostei... Na segunda leitura, as adivinhas foram o que mais me encantou; na terceira, já comecei a gostar — e, enfim, pela quarta e quinta vez que li o livro, já estava encontrando recursos interessantíssimos na narrativa e daí, em diante, iniciei o trabalho disciplinando minha leitura: uma vez que lia procurava identificar as marcas de intertextualidade; outra, buscava analisar as ilustrações, o título e a capa do livro; pela última vez, encontrei a figura de linguagem predominante.
A análise do livro será feita, então, na seguinte ordem: marcas de intertextualidade, ilustrações, figuras de linguagem e como todos estes aspectos se consolidam no texto e são resgatados através da interação com o leitor e/ou ouvinte.
Panela de arroz possui marcas de intertextualidade com a parlenda, as adivinhas, a receita; é usado o recurso da repetição, o que nos aproxima da estrutura do conto, em especial o conto acumulativo ou lengalenga. Como traço típico do folclore, a obra apresenta marcas de oralidade. Podemos ainda observar que a trama permite ao leitor evocar o Mito de Édipo.
No que se refere a parlenda, temos a citação da brincadeira “um, dois, feijão com arroz”, logo de saída, quando Maneco tenta abrir a primeira porta da casa. Dando apenas o início da parlenda tradicional, bem conhecidas pelas crianças, o autor permite ao leitor respondê-la junto com Maneco, quase que automaticamente — e continuá-la. Tal parlenda já aparece indicada pelo próprio número na porta da casa: 12 que, em um primeiro momento, lemos ‘doze’ e, após reconhecermos a parlenda, simplesmente podemos ler como ‘um, dois’. O mais mágico dessa parlenda é que nos dá a idéia de que, em uma panela de arroz, bem cabe esse tipo de brincadeira.
Com as adivinhas, a intertextualidade é marcada pelo resgate de alguns enigmas populares, como: “O que é, o que é: tem dente, mas não morde?”. As adivinhas, que o autor escolheu, causam um certo ar de brincadeira, provocando o leitor para continuar ler/ouvir a história e adivinhar as perguntas. É também através das respostas dadas à seqüência de adivinhas que se chega à recompensa: abrir as portas da casa-panela e conhecer os ingredientes para o preparo do arroz.
Assim, vamos adentrando em outro jogo intertextual: a receita — pois, o que é que vem depois do nome do prato a ser preparado? Os ingredientes, é claro. Posteriormente, vem o modo de preparo, que é marcado pelas várias vezes que o arroz olha para o relógio e diz: “Tá na hora de tomar banho” ou “Tá na hora de fritar” — lavar o arroz, fritar, temperar, cozinhar e servir: são os passos que devem ser seguidos, cada qual em seu tempo certo.
Quanto à técnica das repetições, já dissemos que o autor faz uso delas intertextualizando a estrutura dos contos. Na primeira parte do livro, enquanto Maneco Caneco vai entrando no interior da panela de arroz e respondendo às adivinhas, Luís Camargo separa as cenas e introduz novas ações sempre do mesmo jeito, com a mesma frase-feita: “A porta não tinha trinco nem fechadura, mas estava trancada e não abria”. Os elementos reiterados (cenas, situações, frases e fórmulas) são típicos do conto tradicional e encantam a criança. São as repetições que a faz dizer sozinha a frase de tanto ouvi-la — e, quando não a ouve, ela automaticamente espera uma mudança no rumo da história (o que acontece de fato).
Este livro também me permitiu fazer uma evocação ao mito de Édipo, lembrando que nesta antiga narrativa a esfinge diz ao herói: “Decifra-me ou devoro-te”. Já aqui, se Maneco Caneco decifra, poderá ‘devorar’ uma panela de arroz.
Quanto às ilustrações, compreendemos que elas promovem a aproximação do leitor com a história, convidando-o, através do olhar, a participar dela. Também sintetizando a narrativa, as ilustrações são as grandes responsáveis para a interação com o leitor.
Logo na primeira ilustração, aparece a casa com os números 1-2 na porta e, ao lado, está escrito “Casa do Arroz” de maneira pontilhada, o que nos permite fazer alusão aos favos de arroz, além de lembrar os jogos de completar imagens percorrendo uma linda pontilhada. Essa imagem mostra ainda Maneco Caneco com a mão na barriga, indicando que ele está com fome.
Na seqüência de três páginas, em que Maneco bate palmas, depois bate na porta e finalmente empurra-a para tentar abri-la, as ilustrações vão se aproximando cada vez mais dos olhos do leitor. Luís Camargo empregou o recurso visual do “zoom in”, bem próprio do cinema. E é como se a agonia de Maneco fosse tanta em tentar abrir a porta que a imagem, em aproximação gradativa, nos remetesse ao mesmo sentimento. Tal aproximação de foco parece ainda demonstrar a grandeza da porta que não se abre e, ao mesmo tempo, a impotência de Maneco diante dela — é como se o leitor, estando cada vez mais próximo, quisesse ou pudesse ajudar Maneco a empurrar a porta. Quando a porta pronuncia “um, dois” e Maneco responde “feijão com arroz”, a imagem já toma conta de toda dupla-página, como se ela convidasse o leitor a responder junto com ele.
Vamos observar que o balão de fala (recurso gráfico das histórias em quadrinhos), quando Maneco Caneco Chapéu de Funil responde “feijão com arroz”, não vemos escrito um texto verbal, mas sim o desenho de um grão de feijão segurando a mão de um arrozinho, indicando a imagem ‘real’ que se pode fazer na cabeça do leitor. Este procedimento se repetirá com outras figuras, o que reanima o mundo imaginário da criança, onde tudo é permitido e mais afeito ao “pé da letra”, ou “pé da imagem”.
Após abrir todas as portas, o narrador deixa as ações de Maneco Caneco um pouco de lado e nos conta os passos que o arroz segue para ficar pronto — como se o Maneco ficasse agora na companhia do próprio leitor para assistir o “espetáculo” do preparo. Aqui já é possível reler a capa do livro, onde a ilustração mostra um arroz com chapéu de mestre-cuca caminhando na direção da casa-panela; temos evidentemente o título, Panela de Arroz — ou seja, a casa é dele, do arroz, de quem cozinha para suas visitas (como o Maneco Caneco). O arroz é o dono da casa e, se a casa é do arroz, ele mesmo se preparará para servir sua visita.
A ilustração da última página resume todo o livro: vemos metade da panela; pouco mais ao fundo, a palavra “arroz” toda pontilhada e, ao lado, o processo de preparo do arroz, como se tivesse sido apresentado um fim. O número da casa (lido como 1-2), presente também na cena, permite-nos imaginar o que Maneco Caneco sai cantando... “Um dois, feijão com arroz” .
Neste livro, a figura de linguagem mais explorada pelo autor é a onomatopéia — que comparece, na maior parte das páginas, acompanhando as ilustrações. Isto remete o leitor à sonoridade produzida junto às ações de Maneco Caneco: “BLIM,BLEM!”, “TOC,TOC!”, às suas sensações vividas pelo boneco diante de algumas situações, como “Ê... È!” ou “Ã...Á!” (são espécies de enunciados concretos, que expressam doses de espanto e surpresa ainda não traduzidos em uma palavra verbal), aos sons emitidos pelo próprio Leitão Leitor: “Roc! Roc!”, “Poccop”, como se fosse um cavalo a carregar Maneco.
No momento em que o arroz está sendo preparado, as onomatopéias sugerem o som dos temperos quando caem no óleo quente e da água fervendo, cozinhando o arroz: “roz”, “ar”.
As expressões que acompanham a ilustração de Maneco diante do prato de arroz, convidam o leitor a sentir também o sabor do arroz: “HUM!”, “Bão!”, como se fosse dando água na boca de Maneco e causando a mesma sensação no leitor.
Enfim, um livro riquíssimo para se trabalhar literatura com as crianças!