 |
4º Concurso FNLIJ Leia Comigo
Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil - 2005
1º lugar - Categoria Relato Ficcional
Linha a linha, Yolanda entrelaça
Peter O'Sagae*
De sua voz, a janela fora aberta ao toque. Eu ainda estava à beira do texto quando sobressaltei num espanto. Jamais experimentara a velha vertigem de quem se deixa inesperadamente arremessar a novos espaços, sempre incertos e tão extensos para o exato exame de seus limites: que assim fosse, do papel passei olhos para a paisagem que começava elevar-se por entre letras e intervalos brancos. Desgarrei o livro e mirei atenção naquele vazio das coisas que ela contava e preenchia.
Houve um tempo, escutei apenas, em que minha janela se abria... E um chalé despontou diante e mal clareado. No alto do teto, um ovo azul, de louça e grande, num equilíbrio de quase se quebrar. Pois era então sobre o ovo bem arranjado que um costumeiro pombo branco pousava. Desejei pensar perguntas de menino descrente, mas Yolanda linha a linha seguia.
— Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar.
Eu era criança, e achei essa ilusão maravilhosa.
Recordo como se o pintor de assombramentos, o monsenhor Magritte, novamente se achegasse dos bancos escolares pintando à nitidez da fantasia um sonho de olhos acordados. Afinal, também ele fora criança e escaparia por alguma janela de sua antiga sala de aula, sem atinar que, de quando em vez, pudesse voltar com o enigmático cachimbo que paira no ar. Ou que fizesse igualar céu e ovo de louça para a alegria de ver um invisível pouso de pássaro. Certo é que, naquele tempo, não filosofava idéias. Da admiração, resultou outra sorte de sumiço, e já não podia sentir-me completamente feliz como Cecília acabara de confessar: Yolanda seguia... Alheio, fiquei sem acompanhar de perto o que deveria emergir através do segundo parágrafo. Realmente perdi partes do texto, durante anos, na troca por uma imagem única.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Yolanda lia textos com grande intimidade. E os alunos notavam. Professoras de até então outras pareceram ditar frases sem música, sem sombra ou imagem, sem rumo das idéias. Os textos têm pois um andamento lá escondido, quase secreto. No tanto mais de seis anos, a escola ensinou a repetir tal qual cada ponto final soando solavanco. Ai de nós, na vista temida de Teresa Brava, não déssemos aquela entonação virada à derrapagem em uma pergunta. E a exclamação, dias longe de cedo que aprendêramos exagerar, nunca exclamou Cristina Marcha Lenta. Sem dar por nós, dormíamos.
Linha a linha, Yolanda fazia de todo texto tecido contrário, rico em detalhes. Que saltasse uma vírgula aqui outra ali, talvez fosse, na função de fazer falar o texto. Contava com estilo, quem ensinou, tanto confundia sua voz na voz do autor. E alterava compassos, e lembro hoje e ouço bem as pausas. Dava justiça ao tempo entre as palavras, como se pudesse separá-las à mão sem desenredar a história.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Houve uma vez em que a janela de nossas leituras se abriu para um intacto mulungu coberto de arribações nos ramos da literatura de Graciliano. Deixando atrás a porteira que um título apresenta, sobre-andávamos o chão seco do texto na cata de alguma palavra mais conhecida. Yolanda não tresvariava, colhia impressões da dificuldade entre os alunos, provavelmente o sertão ia pegar fogo. Quando a descoberta da árvore se fez, demos a entender que ali plantada arrancharia bandos de penas e bicos.
— Essas excomungadas levam o resto da água: querem é matar nosso gado!
Sinha Vitória falaria assim e imediatamente franzi a testa. Porque desfeito e refeito em cerzidos ziguezagues da leitura de Yolanda, o texto duplicou adentro seu espaço para aconchegar o leitor com a áspera beleza de suas frases. No entanto, a idéia de céu limpo tolhia-me os olhos naquela claridade de mau agouro. Cabisbaixei e vi apenas correr a sombra das arribações na face tosca da terra. Espiei os quatro cantos, uns minutos voltado para o norte, coçando o queixo.
Como era que Yolanda tinha dito? O feito dela tornava ao espírito de Fabiano que éramos e logo a significação aparecia. Matutando, a gente via que a leitura era assim, mesmo que o texto nos largasse tiradas embaraçosas. Percebi o que ela queria dizer, ri encantado com a aprendizagem. Àquela hora o mulungu do bebedouro, sem folhas e sem flores, uma garrancharia pelada, enfeitava-se de penas.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Porque é preciso aprender a olhar, a professora da professora abriu uma janela para ela com a vertigem do texto próprio de Guimarães. Eram lições de Dona Nilce com a palavra côncava dos sentidos. E procurei, partindo do Urubuquaquá até o Pinhém, a entremanhã rendada linha a linha que Yolanda lia, anos antes. Motivo que leitura não se faz por procuração, fosse a vida em idêntico rumo, onde se esconde não logro, logo suspeito o recanto limpo e fundo, entre desbarrancados, tão sumido que parecia a gente estar vendo ali em sonho.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Tão essenciais, as pausas de Yolanda, eram surpreendentes, quanto espontâneas. Emprestavam o tom inesperado às frases banais, expunham fácil o intricado palavra a palavra. E bem lembro e ouço as pausas, a voz nunca sem qualquer quê extravagante. De costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranqüilas. Oscilava pouco o corpo, durante a leitura. Vezes eu via: ela pegava um pássaro invisível entre o polegar e o dedo indicador, os três demais abertos em asa. Marcava a cadência no desenho de um oito pelo ar, enumerava os compassos em dois pequenos saltos breves e imaginários. E muito só.
Nossas aulas eram na parte da manhã, o que não impedia o tempo de toldar-se outro. À luz rara de um candeeiro, líamos um conto machadiano. Contava eu treze anos, e então me inteirava hóspede na casa assobradada de certo escrivão Meneses, no Rio de Janeiro de uma antiga noite de Natal.
Logo, vi assomar à porta do texto o vulto de Yolanda.
— Os olhos dela não eram bem negros, mas escuros; o nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar interrogativo.
Assim era ela. Quando em quando, Yolanda deitava olhos uma entrelinha fora do conto para adivinhar a reação dos alunos. Creio que deu por mim embebido na sua pessoa. Ela talvez soubesse, noutras leituras, que acabava uma narração ou uma explicação, eu inventava uma pergunta só para ouvir-lhe a palavra. Discreta, seguia o fluxo do conto. E não saía daquela posição, que me enchia de gosto...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Yolanda entrelaçou significados para toda minha vida. Calma, ela seguia o texto... irrompi à janela aberta por sobre um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Ao desmanchar a primeira imagem, contornei a palavra arabesco nos seus volteios de rabiscos, rama e aragem. Daí que a literatura à leitura da voz começava soar eterno esboço, o texto recompondo-se linha a linha em garatujas de outra qualidade e bem-querer.
Peter O’Sagae estuda LIJ há mais de 15 anos e atualmente dedica-se ao Doutorado em Letras. Aprendeu a adentrar textos literários, entrelaçando leitura&escuta, vida e imaginação, com Yolanda K. Matsuda, homenageada neste relato.
As caixas com o acervo selecionado pela FNLIJ fizeram um pouso breve aqui em casa
e seguem diferentes caminhos até o leitor.
Através de Lígia Pin, metade busca as mãos dos voluntários da Associação Viva
e Deixe Viver, de São Paulo, no trabalho de contar e ler histórias para crianças nos
hospitais. Outra metade, pelas mãos do coordenador pedagógico
João Batista de Freitas, vai se dividindo pela cidade de Embu:
as obras de literatura infantil para a biblioteca da Escola Municipal
'Suely Maria Hipólito de Oliveira',
e outros livros de literatura juvenil, informativos e de interesse geral, para
a Biblioteca Zuma Luma, da Favela do Inferninho, no jardim Valo Verde.
|
 |