* 1.ed. 1932, arte: J. U. Campos

* on-line: www.lobato.com.br



Viagem ao céu
pela torneirinha
de asneiras
Valéria Cristina da Silva *


Voz e trangressão

Fez muito bem Narizinho quando veementemente impediu o Doutor Caramujo de matar o papagaio para dar voz à sua boneca. O Sítio não seria o mesmo se, em vez de pílula falante, Emília tivesse recebido a falinha extraída do bicho. Papagaios são repetidores monótonos da voz alheia, representam a linguagem previsível, despida de imaginação e surpresas. É bem verdade que Narizinho não se revoltou em nome da qualidade da fala, antes se manifestou por razões humanitárias: ela, “que não admitia que se matasse nem formiga”, berrou: “— Não quero! Prefiro que Emília fique muda toda a vida a sacrificar uma ave que não tem culpa de coisa nenhuma” e não pestanejou em usar a força para fazer valer sua vontade sagrada de proprietária da boneca. Mas, quando declara preferir a mudez de Emília, termina por fazer uma escolha pelo “estado poético”, aquele definido por Edgar Morin em A fonte da poesia:

“utiliza mais a conotação, a analogia, a metáfora, ou seja, esse halo de significações que circunda cada palavra, cada enunciado e que ensaia traduzir a verdade da subjetividade.”(MORIN, 1998, p.35)

Apesar de não conhecer as conseqüências de sua opção, Narizinho, criança que é, atreve-se a rejeitar o “procedimento” do cirurgião que faria sua boneca falar como falam os papagaios.
Emília, então, recebe a famosa pílula falante resgatada da barriga de um sapo estufado. Assim, com um horrível gosto de sapo na boca, põe-se a falar desatinada, horas seguidas, “amaciando” sua nova condição de boneca falante. Narizinho, perplexa, chega a duvidar da conveniência de sua escolha quando, extenuada com o jorro falador, pede uma diminuição da dosagem da pílula. Nesse momento, Lobato nos oferece o delicioso diagnóstico do Doutor Caramujo: “Isto é fala recolhida, tem que ser botada para fora.”
Narizinho novamente faz uma escolha quando declara: “Melhor que seja assim!”, reconhecendo que o Sítio carecia de uma voz que pudesse subverter a ordem estabelecida pela voz adulta, por demais sabida. E conclui: “As idéias de vovó e tia Nastácia a respeito de tudo são tão sabidas que a gente já as adivinha antes que elas abram a boca. As idéias de Emília hão de ser sempre novidades.”
A boneca transforma-se em Emília quando adquire voz. É ela quem vai imprimir crítica, poesia, transgressão ao universo do Sítio, com seu gênio asneirento por natureza. Ávida por exercer a linguagem que começa a dominar, Emília nos faz lembrar um verso do poeta Manoel de Barros: “As coisas que não têm nome são mais pronunciadas por crianças”. Porque Emília, por não abrir mão de exercer a dimensão transgressora da linguagem, em muito se aproxima da visão inaugural que a criança e o poeta têm do mundo, a poesia povoa sua expressão da maneira como Johan Huizinga a concebe:

Ela está para além da seriedade, naquele plano mais primitivo e originário a que pertencem a criança, o animal, o selvagem e o visionário, na região do sonho, do encantamento, do êxtase, do riso. Para compreender a poesia precisamos ser capazes de envergar a alma da criança como se fosse uma capa mágica [...] (HUIZINGA, 1971, p. 134)

Segundo Jaqueline Held (1980), o uso da linguagem pelo gosto de brincar com as palavras tem origem nas condições segundo as quais a criança, mergulhada num banho de linguagem adulta, vai pouco a pouco se apropriando dessa linguagem. O contato primeiro com as palavras se dá envolto no encantamento lúdico, no prazer de repetir, saborear e experimentar incansavelmente os sons e sua articulação, ao mesmo tempo em que retoma e recria significados diferentes e inesperados. Lobato introduz esse sabor através da fala de Emília, considerando que a infância é o lugar do jogo verbal, desenvolvendo um texto repleto de oralidade sem resvalar na simplificação, cumprindo o sentido estético a que toda literatura se destina.
A própria recusa do autor em se valer de uma escrita simplificada, de não priorizar palavras conhecidas e cotidianas revela seu apreço e sensibilidade em relação à natureza da apropriação da linguagem pela criança, que se nutre também do contato com o patrimônio lingüístico que ultrapassa seu domínio. De acordo com Jaqueline Held:

Fora mesmo do tipo de motivação que constitui o envolvimento pelo ritmo, encontramos o problema capital do gosto da criança por algumas palavras desconhecidas ou mal conhecidas, que lhe agradarão justamente, em alguns casos, por sua própria dificuldade: sua extensão, ou seu aspecto estranho, extravagante. Privar a criança dessas palavras desconhecidas seria privá-la de material essencial de brinquedo e de sonho. (HELD, 1980, p. 207)

O verbo asneirar

“A poesia põe a linguagem em estado de emergência.”

Roland Barthes

Em Viagem ao céu, nem São Jorge escapa do rebuliço de linguagem que Emília promove ao ouvir e retrucar do seu jeito surpreendente as explicações científicas que Pedrinho dava ao olhar a Terra lá de cima. Após uma das interferências de Emília todos riram, menos o santo que não entendeu e, ao que parece, continuou sem entender, mesmo com o cochicho de Narizinho advertindo que a torneirinha estava aberta. “—Que torneirinha?” — indaga o santo ainda atônito.
Entra em cena, então, o verbo asneirar. Praticado com gosto pela boneca, traduz o impulso de imprevisibilidade que tira da linha da linguagem comum os diálogos entre os personagens viajantes. Sobre o seu significado é Narizinho quem ensaia uma explicação, ainda na conversa com São Jorge: “A Emília gosta de usar termos de sua invenção e às vezes saem coisas bem boas”.
Tão boas que a invenção contagia os falantes ao redor quando passam a incorporar ao vocabulário algumas expressões da boneca. É assim quando Dona Benta, intrigada ao ouvir a todo o momento a palavra batatal, resolve perguntar de onde vem e ouve de Pedrinho:

“É a Emília, vovó. Essas coisas vêm do ar, como os resfriados. Parece que a gente enjoa das velhas palavras e precisa de novas — e vai inventando. Batatal quer dizer ótimo, otimíssimo, bisótimo. Mas se a gente diz “Isto é ótimo”, fica sem força. Parece que essa palavra está muito gasta. E Emília então diz: “Isto é batatal ou batatalino” e a gente arregala o olho”.

Em Viagem ao céu, é Pedrinho quem abastece a turma de informações e explicações baseadas em dados científicos e racionais. Para entender o sumiço do Dr. Livingstone, recorre aos ensinamentos de Dona Benta e discorre sobre a gravidade deixando São Jorge admirado diante dos conhecimentos sobre mecânica que o menino demonstra. Assim que Pedrinho conclui, a partir de toda argumentação, Emília arremata: “Também acho” e é então alvo do desdém de Pedrinho: “... mas que base você tem para achar?” A resposta de Emília soa familiar aos ouvidos de quem vive cercado de crianças porque evoca o desejo, acima do pensamento prático, da normatização e da previsibilidade: “Acho com base no meu desejo de achar.”
Logo após Emília confessa outro desejo: de que Dr. Livingstone permaneça perdido para sempre no espaço. Sua má vontade com o sabugo advém de motivos que em muito se aproximam do jeito de ser e estar da infância: “É sério demais. Não brinca. Não faz o que eu mando...”. Assim se declarando, Emília expressa menos autoritarismo do que característica da criança que deseja ser senhora do seu brincar. Walter Benjamin, quando analisa a relação da criança com as bonecas, diz algo muito próximo do desabafo de Emília: “para a criança que brinca, a sua boneca é ora grande, ora pequena, e certamente pequena com mais freqüência, pois se trata de um ser subordinado”.

Luz em pó

Escrever nem uma coisa Nem outra –
A fim de dizer todas
Ou, pelo menos, nenhumas.
Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar –
Tanto quanto escurecer acende
os vaga-lumes.

Manoel de Barros


Em Marte, os três aventureiros se puseram a observar o ambiente confrontando-o com as informações que haviam recebido de Dona Benta, principalmente procuravam vestígios de vida, mais: desejavam se certificar da existência de marcianos. Entretanto, de nada adiantava a busca porque só Emília tinha olhos de ver. “Os habitantes de Marte eram invisíveis para os olhos dos meninos, mas visibilíssimos para os olhos de Emília.”
Nessa passagem, Lobato encontra brilhantemente um caminho de mostrar que Emília é porta-voz do “estado poético” do Sítio. Não só sua voz, mas também seu olhar é aquele que desvenda, que abre as portas para um mundo onde tudo é possível. Antes mesmo do início da viagem à lua, Emília já estava devidamente eleita a “olhadeira oficial” pela sua reconhecida capacidade de ver além, pela sua fama de possuir uns olhos verdadeiramente mágicos.
Fazendo com que Narizinho e Pedrinho só pudessem “ver” pelos olhos de Emília, Lobato se permite mergulhar na fantasia para descrever os habitantes de Marte, lugar mítico por excelência, desvencilhando-se do compromisso de tratar racionalmente do assunto, mesmo porque em seu tempo até mesmo para os cientistas o planeta Marte era um ilustre desconhecido.
O estado que Emília manifesta em Marte nos envia a Rimbaud em sua Carta do vidente: “Digo que temos que ser videntes, de nos tornar videntes. O poeta faz-se vidente por um longo, imenso e ponderado desregulamento de todos os sentidos.”
Sempre guiados por Emília, Pedrinho e Narizinho não sentiam medo e percorreram o planeta como se estivessem na casa da sogra pois a boneca já havia inclusive aprendido a linguagem dos marcianos. Ver e ouvir eram a maior das garantias, e das galantezas.
O encontro com o anjinho nos brinda com momentos de pura poesia. Lá pelas tantas, Emília aparece com uma bala, coisa completamente improvável naquele ambiente celeste, dá ao anjinho e justifica: “— Desconfiei que ia encontrar alguém por aqui que merecesse uma bala e por prevenção vim com esta no bolso.” Não se trata de querer, desejar, pedir, solicitar, mas de merecer uma bala. Nesse trecho da viagem, é explícita a visão infantil em sua essência e Lobato, mestre em dar voz à infância, o faz com requinte através de uma boneca.
É da condição de boneca que se vale Emília para explorar o planeta desconhecido sem correr os riscos que se adivinhavam na empreitada: “— Se eles me pegarem e me comerem, não faz mal. Não sinto dor, sou boneca.” A primeira providência de Emília foi a de verificar se os marcianos poderiam vê-los e, nesse ponto, Lobato nos coloca de frente para uma aspiração infantil por excelência: o poder da invisibilidade. Para Jaqueline Held, o desejo recorrente de se tornar invisível revela-se um tema complexo, portador de múltiplas possibilidades:

Fraca e frágil com relação ao adulto, perpetuamente ameaçada, dependente, a criança sente a invisibilidade como arma defensiva, como proteção que a abriga (ela, ou a personagem ficcional com a qual se assimila) dos possíveis ataques. A invisibilidade, contra-poder que aniquila o adulto todo-poderoso. (HELD, 1980, p.133)

Ver sem ser vista, eis a chave para garantir a viagem livre dos perigos de um ambiente desconhecido, além de representar uma diversão à parte. Tanto que Emília volta com a cara mais alegre e exclama: “— Estamos salvos! Os marcianos não nos podem ver.” Narrando as experiências que fez para comprovar sua hipótese, expõe o tanto de brincadeira que animou a aventura, pregando peças nos marcianos que levavam sustos mas não podiam ver quem os causava.
Apesar de muito impressionados com as explicações científicas de Dona Benta sobre a Via Láctea, quando lá chegaram através do fiunnn do pó de pirlimpimpim, ansiavam pelo aspecto fantástico que a viagem poderia proporcionar e entendiam que a visão da boneca representava a via de realização desse desejo, nela a vertigem, o desconcertante, a festa da linguagem abrindo portas de possibilidades infinitas. “Não quiseram saber daquela Via Láctea dos astrônomos — quiseram a Via Láctea da Emília, muito mais interessante.”
Meu contato com a literatura de Lobato não se deu na infância, cujo ambiente se abastecia não com os livros impressos, mas com as histórias que minha mãe contava e recontava, repetindo a tarefa de tantas mulheres a quem compete o “fazer dormir” e o agasalho dos filhos. Voltando a esse tempo, e agora com os olhos da leitora que me tornei, considero o poder que as Narrativas têm de nos colocar a bordo, de movimentar nossa vida interior, de abrir as portas que nos levam ao lugar do sonho e apontar um caminho de aprender. Caminho que Câmara Cascudo (2000) em belas palavras sintetizou: “Para todos nós é o primeiro leite intelectual”.
Apesar de tardia, minha leitura de Lobato não escapou dos sobressaltos, encantamento e deleite, pelo contrário acompanha-me desde então a figura da canastra da Emília, pelo jogo de contrários que ela evoca quando, ao mesmo tempo em que se quer lugar de acumular guardados, se coloca também como recinto do provisório, sempre à espera de novas e inesperadas aquisições. O trabalho diário com crianças propicia desenvolver uma escuta que, por afetiva e atenta, nos torna testemunhas de momentos de explícitas experimentações da linguagem, quando uma delas reinventa um significado ou uma maneira inesperada de pronunciar, nesse momento é a palavra mágica que está em cena, situação que Lobato tão bem soube tirar proveito em sua literatura.
Para finalizar, não poderíamos deixar de lado o magnífico conceito de crocotó. Por sua utilidade em ocasiões em que tropeçamos em coisas que brotam, é preciso definir para que você, leitor, não mais se lamente pelo fato de “faltar palavras”, queixa muito comum no dia-a-dia. E o faremos em grande estilo. Com a palavra, Emília:

— Crocotó é uma coisa que a gente não sabe o que é. Crocotó é tudo que sai para fora de qualquer coisa lisa. O seu nariz, por exemplo, é um crocotó da sua cara – mas como sabemos que nariz é nariz, não dizemos crocotó. Mas se nunca tivéssemos visto o seu nariz, nem soubéssemos o que é nariz, então poderíamos dizer que o seu nariz era um crocotó...



* Valéria Cristina da Silva
Professora do 1º segmento do ensino fundamental do Colégio Pedro II, Rio de Janeiro.
Pós-graduação em Literatura Infanto-Juvenil pela UFF, mestranda em Educação na UFF.



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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


BARROS, Manoel. O guardador de águas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1982. :: BENJAMIN, Walter. Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação. São Paulo: Ed. Duas Cidades. 2002. :: CASCUDO, Câmara. Contos tradicionais do Brasil. Rio de Janeiro: Ediouro, 2000. :: HELD, Jaqueline. O imaginário no poder: as crianças e a literatura fantástica. São Paulo: Summus. 1980. :: HUIZINGA, Johan. Homo ludens. São Paulo: Perspectiva. 1971. :: LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho. São Paulo: Brasiliense. 1958. :: ______. Viagem ao céu. São Paulo: Brasiliense. 1952. :: MORIN, Edgar. Amor, poesia, sabedoria. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998. :: RIMBAUD, Arthur. Uma estadia no inferno. Poemas escolhidos; A carta do vidente. São Paulo: Martin Claret. 2002. :: ZUMTHOR, Paul. A Letra e a voz. São Paulo: Companhia das Letras. 2001.

Dobras da Leitura
Ano VII - N.º 34 - jun. 2006
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