O texto é obviamente motivado pela Bienal do Livro (que ocorre a cada dois anos, como diria o Conselheiro Acácio, que não disse, mas poderia muito bem ter dito que sua mãe nasceu analfabeta), e, especialmente, por um trecho da fala do presidente da República, que não lê muito, parece, mas foi o primeiro a abrir uma bienal de livro (leia a íntegra do discurso do presidente na Bienal do Livro de São Paulo).
Colho a citação da coluna de Dora Kramer (O Estado de S. Paulo de 17.04.2004):
“A leitura, para a criança, é o mesmo que uma esteira para as pessoas de nossa idade. Muita gente coloca até uma esteira no quarto, muitas vezes coloca até na beira da cama, pensando: amanhã vou levantar e começar a andar na esteira. Mas todo dia se levanta com uma preguiça desgramada e vai ficando para o dia seguinte. Isso é como um livro para uma criança que não adquiriu no tempo certo o gosto pela leitura”.
Seu comentário: “A definição acima é de autoria do presidente da República, cuja opinião a respeito do hábito da leitura – comparando-o com um esforço físico tido como tedioso pela maioria – mais desanima que incentiva”.
Pode ser que a comparação (não há definição alguma aí) não incentive a leitura. Mas eu não sei se os que acabam andando em suas esteiras o fazem porque os médicos lhes dizem que isso é um prazer, ou se o fazem convencidos de que se trata de uma necessidade: andar ou enfartar.
A impressão é que Kramer se alinha ao discurso segundo o qual a leitura é um prazer. Pior, deve ser um prazer (as mulheres lúcidas sabem como foi terrível uma injunção que pesou sobre elas durante um certo tempo: a obrigação do orgasmo. Que Foucault, criticando Sade, dizia que se tratava de um discurso que tendia a transformar os corpos em máquinas; portanto, não se tratava de liberação, mas de outra forma de submissão).
Sempre achei que esse discurso do prazer da leitura é um equívoco. Se for verdade que a escola, por exemplo, deve produzir leitores (eu acho que deve), não o fará baseada na tese do prazer – livros coloridos, salas especiais – mas na do trabalho. Também não gostei do slogan da Globo que, no intervalo de transmissões de futebol, punha no ar atletas que liam – pelo menos era o que parecia – e que terminavam sua participação dizendo que “ler também é um exercício”. A despeito de associações específicas, que podem valer para um publicitário (ou até serem interessantes para um analista de textos), já que se tratava de atletas, a que eu fazia era exatamente com exercício escolar – a pior coisa que pode haver na escola.
Explico: o exercício é sempre uma simulação Até por isso, o meio-campo Didi, que era obviamente um sábio, dizia que “treino é treino, jogo é jogo” – o que justificava seu eventual mau desempenho nos treinos e diminuía o valor de eventual bom desempenho de seus concorrentes. Nos jogos, como se sabe, ele fazia muita diferença. A escola deveria praticar, não exercitar. A diferença poderia ser resumida assim: tudo o que se faz na escola e que serve só para a escola deveria ser eliminado. Suponho que isso deveria ser claro.
Voltando à leitura: associar leitura a prazer pode até ser relevante em casos nos quais o trabalho está associado ou acaba sendo associado ao prazer, que é o que ocorre quando se gosta do que se faz, trabalha-se no que se gosta ou se aprendeu a gostar. Há quem goste de atividades físicas, por exemplo. Em geral, trata-se de pessoa que pratica atividades físicas. Muita gente adora correr jogando futebol, e conheço gente que viciou, no bem sentido, em caminhadas.
Mas ler não é necessariamente um prazer. Muito menos deve ser. Ler, especialmente na escola, é um trabalho, ou, para ficar no termo usado acima, é uma prática. Que deve ser realizada por todos. Se os praticantes vierem a gostar do que fazem, ótimo. Se não, paciência. Desde que trabalhem, que leiam, que cumpram com as obrigações.
Ainda acredito que ler – que classifico logo abaixo de escrever – é a melhor maneira de aprender, o que deve ser entendido tanto como vir a saber o que se desconhecia, quanto de manter a cabeça em condições efetivas de aprender mais e sempre. É que as múltiplas atividades mentais que os textos exigem (uns mais que outros, claro) mantêm o cérebro ativo.
A escola, e outras agências educacionais, deveriam ter claro que ler é um trabalho. Acredito, inclusive, que é muito mais fácil que se chegue a situações em que ler é um prazer se o acesso mais ou menos organizado á leitura for realizado na forma de trabalho. Que o prazer não seja uma condição, mas, eventualmente, um efeito.
A despeito de estar de novo praticamente sozinho, acho que Lula erra menos nessa comparação do que em outras que tem fornecido.
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Littera, do latim, letra, carta