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A vida não espera,
Glória se encanta... nas alturas
Sabe uma brincadeira de crianças quando é interrompida? Ou porque começou a chover, ou porque estava na hora de ir embora, ou de dormir, ou porque chega alguma coisa que atrapalha... E a decepção que isso provoca nas crianças? É muito triste! É desolador! É como a partida de uma amiga, que não dá tempo de despedidas, de repente. Vai... sem avisar e sem ser avisada.
Foi assim com a Glória Radino, subitamente, na maturidade de uma profissional cheia de projetos, de sonhos... Os sonhos ficaram para nos reanimar, como cúmplices de sua trajetória. Generosidade e coragem são duas características que marcaram a personalidade de Glória. Esposa, mãe, professora, psicóloga, pesquisadora, escritora e amiga dedicada aos conhecidos e aos estranhos, aos corpos sem identidade, prostrados em leitos de hospitais.
A vida não espera; ela nos surpreende, seja pela doença, seja pela morte. Glória Radino dedicou boa parte de sua vida a contar histórias para crianças e adultos hospitalizados, em enfermarias, leitos e UTIs. Empenhou-se em combater a loucura e em afastar o fantasma da morte. Ela foi uma das criadoras e coordenadoras do Projeto Murucututu, de contação de histórias em dois hospitais da cidade de Assis, SP. Conseguiu transformar a atividade em projeto de Extensão, realizado pelo Departamento de Psicologia Clínica da UNESP, de Assis; foi vencedora do 4º Concurso Leia Comigo 2005, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil – FNLIJ e estava com o Murucututu prestes a virar um livro, com relatos de experiências, fundamentações teóricas e muitas histórias contadas pelos integrantes do grupo... Estava terminando o doutorado, com muitos planos de pesquisa e trabalho nas áreas de literatura e psicanálise. Juntamente com outras colegas de trabalho, levava o Murucututu para além das paredes brancas dos hospitais, para as praças da cidade onde morava e de outras cidades por onde passou, como o Rio de Janeiro, onde a encontrei.
Glória conhecia as estradas tortas da humanidade, que marcam o sofrimento e a loucura: a perda, a separação, o medo, o desamparo, a raiva, a solidão... E sabia como ajudar as pessoas a transformar a dor em outro sentimento menos penoso. Ela sabia ajudar as pessoas a se redescobrirem, a ver/ouvir/sentir/provar/fazer arte, num processo sublimatório fundamental para a reconstituição de um sujeito.
Se acreditamos, como Guimarães Rosa, que as pessoas não morrem, se encantam, Glória Radino se encantou. De tantas histórias que contou, deixou-nos uma muito linda: a de si própria. Uma história de quem reanimou vidas, formou seguidores e propagou a palavra como instrumento de realização de desejo e de luta. Com sua escuta, Glória soube acolher a angústia do outro e mostrar caminhos para aliviar a alma dos que sofrem. A história de Glória é como um conto de fadas, ela agora está nas alturas, na memória de quem teve o privilégio de conhecê-la.
Ninfa Parreiras
Rio de Janeiro, 6 de março de 2006
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