4º Concurso FNLIJ Leia Comigo
Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil  -  2005

1º lugar - Categoria Relato Real




Para que
serve um sorriso?

Glória Radino*


O pequeno episódio que vou lhes narrar pode parecer totalmente banal, à primeira vista. Porém, serviu como agente transformador e decisivo no trabalho que realizo. Este fato aconteceu com Sofia, uma jovem estudante do curso de Psicologia que faz parte de um grupo que, diariamente, dirige-se à UTI de um hospital para contar histórias aos pacientes. Como os outros estudantes, Sofia percorre os leitos do hospital, diferentemente dos antigos contadores, que se reuniam em volta da fogueira, à noite e transmitiam histórias de geração a geração, com o objetivo de distrair e instruir seus ouvintes.
As histórias são narradas em uma Unidade de Tratamento Intensivo, que comporta oito leitos e abriga pacientes que necessitam de cuidados especiais. São pacientes de idades variadas, portadores de diversas doenças ou em recuperação pós-cirúrgica. Alguns, infelizmente não retornam. Estão ali para morrer.
Embora contar histórias seja algo extremamente prazeroso, este trabalho na UTI, em muitos momentos, torna-se árduo. Seu retorno é muito subjetivo e, como nosso objetivo é contar a todos os que ali estão, muitos pacientes encontram-se em estado de coma. Muitas vezes, não sabemos se a história contada pôde ser ouvida ou não. Em outros momentos, pedimos licença para narrar um conto, sem saber se a pessoa quer ouvi-lo. Porém, percebemos mudanças nos que escutam. Pequenos gestos, a respiração ou os batimentos cardíacos que se aceleram ou mesmo, um pequeno sorriso já é o bastante para nos dar força e retornar na próxima vez.
No primeiro dia de seu trabalho na UTI, Sofia estava muito nervosa. Era um ambiente estranho, frio, em que os funcionários mal notavam sua presença e corriam de um lado para o outro, pois suas ações têm que ser rápidas e precisas. Sofia contou histórias para alguns pacientes conscientes e também para os que se encontravam inconscientes ou em estado de coma. Diante de uma senhora inconsciente e com um tubo respiratório, sentiu-se aflita, mas mesmo assim, contou a história Catarina Quebra-Nozes, de Joseph Jacobs1. História de emoção e suspense em que a heroína tem o desafio de cuidar de um príncipe muito doente, à beira da morte, porque ninguém conseguia descobrir o seu mal. O desafio também era mortal, pois muitos que velaram durante a noite desapareciam. História de aventuras, em que o príncipe levanta-se e parte para o encantamento e a realização de desejos. Entregue aos prazeres no baile das fadas, o príncipe retorna exaurido. Catarina enfrenta sua missão quebrando os feitiços e devolvendo a saúde ao príncipe. Sofia conta essa história à senhora que, como o príncipe de sua narração, encontra-se muito mal, inconsciente e, quem sabe, à espera de sua morte. Sua grande aflição era não saber se a história contada, com tanto amor, fora ouvida ou não.
Olhava para o corpo diante de si, impregnada pelos sons estranhos que ecoavam das máquinas presentes na UTI. Não via ninguém. Sentiu-se contagiada pelo olhar daqueles que trabalham no local e via um cadáver sob o signo da preservação da vida. Ficava dividida e não sabia se olhava para o que um dia fora uma mulher, ou para a máquina ao seu lado. Corpo feminino que perdeu sua sexualidade e despersonalizou-se. Corpo asséptico que se misturou aos odores semelhantes a desinfetantes que exalam do ambiente. Irreconhecível aos seus familiares, não possuía mais nome, nem desejo, apenas registros transmitidos por monitores que revelavam os batimentos cardíacos, a pressão arterial e a freqüência respiratória. Eram sinais de que ali ainda havia vida.
O que Sofia não sabia era que, no momento em que contava história para aquela paciente, era observada. Um grupo de jovens estudantes do Curso de Enfermagem, que fazia estágio no local, começou a admirar aquela estranha cena. Algo inédito que não pudera ser visto em nenhum livro de Medicina até então. Para eles, era uma pequena menina, a Sofia, que sentava ao lado de uma pessoa em estado de coma, quase morta, voltava-se para ela e lhe contava uma história. História bonita, com suspense e emoção. No desenrolar da narrativa, as estudantes não conseguiam desgrudar seus olhos daquela cena e começaram a perceber uma pequena transformação naquela paciente, até então totalmente amorfa. Viram seu rosto mudar. Algumas contrações musculares sugeriam-lhe um sorriso. Mas, será que aquilo é um sorriso? Perguntavam-se. Um pouco atônitas, questionavam se aquele insignificante gesto corporal, seria um só riso.
Foram embora com essa dúvida. Em classe, discutiram muito entre elas o ocorrido. A discussão girava sobre a expressão do rosto da paciente e, se aquilo era um sorriso. Sem dúvidas, no final da discussão, concluíram que aquilo fora um sorriso. Nunca saberemos se a paciente sorriu, mas aquela indagação mudou definitivamente a formação daquelas estudantes, caso um dia retornem à UTI.
Embora árduo, o trabalho de Sofia foi transformador. De um corpo morto, frio e amorfo, pôde brotar vida. Uma história narrada serviu para aquecer corpos e fazer nascer uma alma. A história de Sofia provocou um desvio de olhar, da máquina para o rosto. Não importa mais se a paciente sorriu ou não, aquilo era um sorriso. Afinal, quem define o que é um sorriso? Quem contrai o rosto ou quem assiste? Quem vê o primeiro sorriso de um bebê, senão sua mãe?
Continuaremos a contar histórias na UTI. A voz, o olhar, as mãos, como pudemos mostrar, tornaram a história mágica, com o poder de transformar uma realidade. Não buscamos sorrisos, mas um novo olhar para o ser humano que perdeu sua alma. O corpo biológico/coisa pôde tornar-se um corpo sexuado, que fez nascer uma outra história e um sujeito. Somos nutridos pela memória da humanidade, infância perdida, que se resgata na metáfora recriada, a cada história narrada. Histórias que perduram por séculos, para que possamos reencontrar o mito e o mistério da vida e da morte. Tendo rido Deus, nasceram os sete deuses que governam o mundo (...) Quando ele gargalhou, fez-se a luz (...) Ele gargalhou pela segunda vez: tudo era água. Na terceira gargalhada, apareceu Hermes; na quarta, a geração; na quinta, o destino; na sexta, o tempo. Depois, pouco antes do sétimo riso, Deus inspira profundamente, mas ele ri tanto que chora, e de suas lágrimas nasce a alma. (Anônimo) 2 Notas
  • IN: Tatar, M. História original Kate Crackernuts, extraída de English Fairy Tales, Londres, David Nutt. 1898.
  • Esse texto é de um autor anônimo do papiro alquímico que data do século III, o papiro de Leyde, citado por Reinach, apud Minois, 2003, p. 21.

Glória Radino, psicóloga e professora do Departamento de Psicologia Clínica da Unesp de Assis. Foi uma das coordenadoras do Projeto de Extensão Universitária Murucututu, contadores de histórias no hospital. Doutoranda em Educação Escolar, trabalhando com Psicanálise, Educação e Literatura Infantil.

Glaucia de Oliveira nos trouxe uma triste notícia, dizendo: Uma pessoa que fará muita falta, quem teve oportunidade de conviver com ela sabe da grandeza de ser humano que era, e do coração imenso e vivacidade única que possuía. Glória Radino faleceu neste 1º de março. Dias antes, escreveu-me estas palavras:

Os livros doados pela FNLIJ foram muito bem vindos para compor o acervo de nosso carrinho biblioteca. Nosso trabalho é desenvolvido em dois hospitais da cidade de Assis: Santa Casa de Misericórdia e Hospital Regional de Assis. Diariamente, no período noturno, trinta estagiários do curso de psicologia se revesam contando histórias aos pacientes, familiares e membros da equipe de saúde. Na Santa Casa, após a história, os estagiários disponibilizam o empréstimo de livros para os pacientes e familiares por meio de um carrinho-biblioteca.



Dobras da Leitura
Ano VI - N.º 31 - mar. 2006
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