Monteiro Lobato
Dom Quixote das crianças 27.ed.
Brasiliense, 1996
DOM QUIXOTE - 400 ANOS

Quando
Emília
leu Quixote
Socorro Acioli *
Especial para O POVO


Certo dia, lá pelo ano de 1936, Monteiro Lobato teve uma de suas idéias geniais: adaptar o texto Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes para o público infantil. Idéia brilhante. Plantando nos pequenos leitores a semente dos grandes clássicos da literatura, em linguagem adaptada, poderemos ter a esperança de colher uma geração de leitores no futuro.
Lobato, escritor experiente, sabia disso. E sabia também que, para realizar o projeto, poderia contar com a ajuda de Dona Benta, contadora de estórias muito competente e de sua platéia de leitores de primeira linha: Pedrinho, Narizinho, Emília, Visconde e Tia Nastácia. Assim surgiu o livro Dom Quixote das Crianças, publicado em 1936.
Dona Benta, ao começar a leitura, propõe uma intermediação no texto, fazendo uma "tradução da tradição", aproximando a linguagem do universo dos seus leitores. Uma sugestão para pais e professores que desejam trazer os textos clássicos para perto dos leitores em formação.
A adaptação do Dom Quixote feita por Lobato é uma verdadeira aula de leitura, uma lição para todos que trabalham com literatura na infância. Uma das melhores análises sobre este trabalho foi feita pela maior especialista em Monteiro Lobato do Brasil, a professora Marisa Lajolo, da Unicamp. Parte de sua análise foi publicada no livro Do mundo da leitura para a leitura do mundo, pela editora Ática (1993). Este texto foi o ponto de partida para a minha dissertação de mestrado De Emília a Dona Quixotinha - uma aula de leitura com Monteiro Lobato, defendida em dezembro de 2004, sob orientação da professora Odalice de Castro Silva, do Mestrado em Literatura da Universidade Federal do Ceará. As idéias apresentadas neste artigo são apenas uma pequena parte do estudo que fiz sobre o encontro de Emília com Quixote.
Além de contar a estória de Dom Quixote, Lobato também trata no texto de temas complexos relacionados ao livro e à leitura: desde a materialidade do livro __ tamanho, forma, marcas dos editores, ilustradores, tradutores, raridade da edição __ até a amplitude máxima que a leitura pode alcançar: a modificação do leitor.
No caso do texto de Lobato, a leitora mais modificada pela história de Quixote é Emília. Desde o título do primeiro capítulo, "Emília descobre D. Quixote", o narrador já responsabiliza a boneca pela escolha do texto para a leitura em grupo. A busca de Emília acontece às escondidas, aproveitando a ausência de Dona Benta, sugerindo sabor de aventura. Pesquisar na biblioteca, para Emília, é tão interessante quanto suas outras reinações. Esse é um importante sinal para o leitor infantil, que começa a conhecer os livros e, ao mesmo tempo, apresenta tendência natural para descobrir e aventurar-se. Nesses pequenos detalhes estão colocados os ensinamentos de Lobato para os jovens leitores.
O volume do livro não era um problema para a bonequinha, mas sim uma curiosidade a mais. Porém, na prática, o livro de muitas páginas pode amedrontar e desencorajar os leitores menos ávidos. Emília ensina a não ter medo dos grandes tomos. Quando ela conseguiu subir: "Alcançou os livrões e pode ler o título. Era o D. Quixote de la Mancha, em dois volumes enormíssimos e pesadíssimos. Por mais que ela fizesse não conseguiu nem movê-los do lugar".
Em sua tentativa de descer os livros, Emília é auxiliada por Visconde, que ficou achatado sob o peso de um dos exemplares do D. Quixote. Para justificar o acidente, Emília disse que Visconde tirou o livro da estante com muita falta de jeito, subindo na escada e usando uma alavanca. D. Quixote que, segundo ela, é "o não é certo da bola", confundiu a escada e o Visconde com seus inimigos, por isso atacou o sabugo.
Com essa explicação, Emília constrói uma linda metáfora sobre a leitura e sobre a vida das personagens. Quixote vive quieto dentro do livro. Se for aberto com cuidado, lido passo a passo, ele revive suas aventuras, como estava acontecendo, a cada noite, nos serões de Dona Benta. Mas, precisa ser despertado com jeito, ainda mais no caso desse cavaleiro que tem uma maneira tão peculiar de ver a realidade pelo avesso. Tocar no livro é dar vida aos personagens. Em uma biblioteca, estão todos quietos, calmos, esperando que alguém os liberte para que possam contar a sua vida.
A leitura do texto modifica a vida de Emília, que não luta contra o efeito quixotesco e passsa a agir de fato como uma "perfeita louca". Ao saber que ele morrerá no final, a boneca sofre e recusa-se a ouvir o episódio da morte. Dona Benta tenta explicar que a morte faz parte da natureza, mas Emília contesta, dizendo que levará Quixote sempre vivo dentro de sua cabeça. Tem razão, Emília. Grandes personagens não morrem jamais.
Fica a sugestão para pais e professores que desejam apresentar a obra de Cervantes para crianças: o melhor caminho é, sem dúvida, a adaptação feita por Lobato. Parando, é claro, para conversar sobre Emília, Dona Benta, livros, aventuras e sobre o prazer de ler.

* Socorro Acioli é editora da Fundação Demócrito Rocha e mestre em Literatura pela UFC com a dissertação De Emília a Dona Quixotinha: uma aula de leitura com Monteiro Lobato, que será publicada em 2005.

:: ACIOLI, Socorro. Quando Emília leu Quixote. O Povo, Fortaleza, 19 de mar. 2005. Vida & Arte. Enviado pela autora: e-mail de 20 de mar. 2005. Online. Disponível na Internet http://www.noolhar.com/opovo/vidaearte/458178.html
Dobras da Leitura
Ano VI - N.º 24 - abril.maio 2005
voltar