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DOM QUIXOTE - 400 ANOS
Quando Emília leu Quixote
Socorro Acioli *
Especial para O POVO
Certo dia, lá pelo ano de 1936, Monteiro Lobato teve uma de suas idéias geniais:
adaptar o texto Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes para o público
infantil. Idéia brilhante. Plantando nos pequenos leitores a semente dos grandes
clássicos da literatura, em linguagem adaptada, poderemos ter a esperança de colher uma
geração de leitores no futuro.
Lobato, escritor experiente, sabia disso. E sabia também que, para realizar o projeto,
poderia contar com a ajuda de Dona Benta, contadora de estórias muito competente e de
sua platéia de leitores de primeira linha: Pedrinho, Narizinho, Emília, Visconde e Tia
Nastácia. Assim surgiu o livro Dom Quixote das Crianças, publicado em 1936.
Dona Benta, ao começar a leitura, propõe uma intermediação no texto, fazendo uma
"tradução da tradição", aproximando a linguagem do universo dos seus leitores. Uma
sugestão para pais e professores que desejam trazer os textos clássicos para perto
dos leitores em formação.
A adaptação do Dom Quixote feita por Lobato é uma verdadeira aula de leitura,
uma lição para todos que trabalham com literatura na infância. Uma das melhores análises
sobre este trabalho foi feita pela maior especialista em Monteiro Lobato do Brasil,
a professora Marisa Lajolo, da Unicamp. Parte de sua análise foi publicada no livro
Do mundo da leitura para a leitura do mundo, pela editora Ática (1993). Este texto foi
o ponto de partida para a minha dissertação de mestrado De Emília a Dona Quixotinha
- uma aula de leitura com Monteiro Lobato, defendida em dezembro de 2004, sob
orientação da professora Odalice de Castro Silva, do Mestrado em Literatura da
Universidade Federal do Ceará. As idéias apresentadas neste artigo são apenas uma
pequena parte do estudo que fiz sobre o encontro de Emília com Quixote.
Além de contar a estória de Dom Quixote, Lobato também trata no texto de temas
complexos relacionados ao livro e à leitura: desde a materialidade do livro __
tamanho, forma, marcas dos editores, ilustradores, tradutores, raridade da edição __
até a amplitude máxima que a leitura pode alcançar: a modificação do leitor.
No caso do texto de Lobato, a leitora mais modificada pela história de Quixote é
Emília. Desde o título do primeiro capítulo, "Emília descobre D. Quixote", o narrador já
responsabiliza a boneca pela escolha do texto para a leitura em grupo. A busca de Emília
acontece às escondidas, aproveitando a ausência de Dona Benta, sugerindo sabor de
aventura. Pesquisar na biblioteca, para Emília, é tão interessante quanto suas outras
reinações. Esse é um importante sinal para o leitor infantil, que começa a conhecer os
livros e, ao mesmo tempo, apresenta tendência natural para descobrir e aventurar-se.
Nesses pequenos detalhes estão colocados os ensinamentos de Lobato para os jovens
leitores.
O volume do livro não era um problema para a bonequinha, mas sim uma curiosidade
a mais. Porém, na prática, o livro de muitas páginas pode amedrontar e desencorajar os
leitores menos ávidos. Emília ensina a não ter medo dos grandes tomos. Quando ela
conseguiu subir: "Alcançou os livrões e pode ler o título. Era o D. Quixote de la Mancha,
em dois volumes enormíssimos e pesadíssimos. Por mais que ela fizesse não conseguiu nem
movê-los do lugar".
Em sua tentativa de descer os livros, Emília é auxiliada por Visconde, que ficou
achatado sob o peso de um dos exemplares do D. Quixote. Para justificar o acidente,
Emília disse que Visconde tirou o livro da estante com muita falta de jeito, subindo na
escada e usando uma alavanca. D. Quixote que, segundo ela, é "o não é certo da bola",
confundiu a escada e o Visconde com seus inimigos, por isso atacou o sabugo.
Com essa explicação, Emília constrói uma linda metáfora sobre a leitura e sobre a
vida das personagens. Quixote vive quieto dentro do livro. Se for aberto com cuidado,
lido passo a passo, ele revive suas aventuras, como estava acontecendo, a cada noite,
nos serões de Dona Benta. Mas, precisa ser despertado com jeito, ainda mais no caso
desse cavaleiro que tem uma maneira tão peculiar de ver a realidade pelo avesso.
Tocar no livro é dar vida aos personagens. Em uma biblioteca, estão todos quietos,
calmos, esperando que alguém os liberte para que possam contar a sua vida.
A leitura do texto modifica a vida de Emília, que não luta contra o efeito
quixotesco e passsa a agir de fato como uma "perfeita louca". Ao saber que ele morrerá
no final, a boneca sofre e recusa-se a ouvir o episódio da morte. Dona Benta tenta
explicar que a morte faz parte da natureza, mas Emília contesta, dizendo que levará
Quixote sempre vivo dentro de sua cabeça. Tem razão, Emília. Grandes personagens não
morrem jamais.
Fica a sugestão para pais e professores que desejam apresentar a obra de Cervantes
para crianças: o melhor caminho é, sem dúvida, a adaptação feita por Lobato. Parando,
é claro, para conversar sobre Emília, Dona Benta, livros, aventuras e sobre o prazer
de ler.
* Socorro Acioli é editora da Fundação Demócrito Rocha
e mestre em Literatura pela UFC com a dissertação De Emília a Dona Quixotinha: uma
aula de leitura com Monteiro Lobato, que será publicada em 2005.
:: ACIOLI, Socorro. Quando Emília leu Quixote.
O Povo, Fortaleza, 19 de mar. 2005. Vida & Arte.
Enviado pela autora: e-mail de 20 de mar. 2005. Online.
Disponível na Internet http://www.noolhar.com/opovo/vidaearte/458178.html
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