TERCEIRA PARTE
a presença dos clássicos:
desafios e questionamentos
Susana Irion Dalcol
Rede Metodista do Sul/ Fames
A inserção de autores consagradas da literatura brasileira, nas seis coletâneas
de contos, permite questionar se os textos são realmente compatíveis com as intenções iniciais do projeto
Literatura em Minha Casa. E esta questão pode ser analisada, através de duas perspectivas distintas:
uma que vê a leitura dos clássicos com uma certa reserva e
outra que considera esse tipo de leitura como algo estimulante para as crianças, desde que respeitadas algumas
prerrogativas.
Por um lado, a inclusão de clássicos nas coletâneas pode sugerir uma associação com a situação de leitura que caracterizou
a realidade brasileira no passado e que até hoje é encontrada nos meios escolares, onde ainda se observa a preocupação com
a natureza pedagógica da literatura. Nessa ótica, a leitura só tem validade se bem servir a um fim utilitário, seja
direcionado ao emprego para estudo da gramática, seja para passar “lições” ao leitor. Zilberman (1987:17), a esse respeito,
chama a atenção para o cumprimento de prerrogativas pedagógicas presentes na literatura infantil na atualidade, que busca
transmitir normas e envolver-se com a formação moral da criança. A autora cita, a fim de reforçar tal posicionamento,
John Townsend, para o qual a tendência a instruir o jovem está inserida na natureza humana e não pertence só ao passado:
Anos atrás, jogamos o velho didatismo (o moralismo desajeitado) pela janela; ele voltou pela porta,
vestindo roupas modernas (valores inteligentes) e não conseguimos nem mesmo reconhecê-lo. (apud
ZILBERMAN & MAGALHÃES, 1987: 17).
A presença dos clássicos nas antologias de contos pode representar um fim utilitário na medida em que, ao se privilegiar
a formação cultural amparada na tradição, fazendo das coletâneas fontes de aprendizado e de estudo (mesmo que assistemático)
da literatura brasileira, se coloque em segundo plano o sentido do prazer da leitura. Se os nossos estudantes do ensino
médio, cuja bagagem de leitura já é mais abrangente, demonstram resistência à leitura dos clássicos, o que esperar de
crianças de 4ª e 5ª séries, sem preparo nenhum para enfrentar esse tipo de texto? Sabe-se que a leitura de clássicos é
importante para o crescimento e amadurecimento do leitor, mas num contexto de iniciação à atividade de leitura, no qual
se quer atrair novos leitores, será que tais textos, mais complexos por natureza, trazendo uma linguagem vinculada ao padrão
lingüístico culto, na qual há o predomínio de um vocabulário e de formulações sintáticas que não são habitualmente utilizados
pelos receptores, não podem causar um afastamento do prazer da leitura em vez de servir para um eventual crescimento desse
leitor?
Por esse ângulo, privilegiar a formação de valores de um leitor que está se iniciando no mundo da leitura, que deve ser,
em um primeiro momento, conquistado pela leitura, pois ainda não apresenta condições de realizar uma leitura mais complexa
como a que exige o texto escrito para adultos, pode parecer perigoso. Paulino (1990), abordando a questão da falta de leitura,
não do público infantil, mas de adultos, defende a posição de que a contemporaneidade dos textos é essencial para a iniciação
do leitor. Para a pesquisadora, “um vocabulário de época, por exemplo, ou uma preferência por certo torneio de frase hoje em
desuso afastam o leitor potencial pelo excesso de desafio que representam” (1990:13).

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Por outro lado, contrapondo-se a essa avaliação, a presença de clássicos na antologia pode servir para tornar esses autores,
desde cedo, conhecidos das crianças e para incentivar um tipo de leitura que normalmente sofre contestação por parte de
jovens leitores, sem, no entanto, dar prioridade a esse objetivo. Nesse contexto, a utilização da antologia como forma
de difusão dos textos se torna fundamental, já que, segundo Fraisse, essa forma editorial proporciona uma revitalização
dos textos selecionados, dando a eles um novo sentido. Entendemos que é esse o efeito obtido ao se colocar lado a lado
Machado de Assis e Artur Azevedo, ambos escritores que se destacaram na literatura brasileira do século XIX, com autores
contemporâneos como Pedro Bandeira, Moacyr Scliar e Angela Lago, por exemplo.
No que se refere a uma possível falta de adequação dos textos de autores clássicos da literatura brasileira
nas antologias do projeto Literatura em Minha Casa, principalmente pelo tipo de linguagem neles utilizada, Cunha (1985)
parece elucidar de forma positiva a questão. Para a autora, o uso somente de uma linguagem caracterizada por ela como
pueril é fruto de um engano. No desenvolvimento de suas habilidades de leitura, a criança precisa de dois tipos de livros,
“os que estão exatamente de acordo com seu adiantamento e outros um pouco mais avançados” (1985:58-59). Ela cresce na medida
em que se depara com obstáculos, no caso a linguagem, e consegue superá-los. As dificuldades na leitura fazem a criança
se sentir desafiada e empenhada em resolver problemas.
Magalhães destaca que “o conjunto de obras classificadas como literatura infantil inclui textos que não eram destinados
à criança, mas que foram escolhidos por ela; por outro lado, muitas histórias que pretendiam despertar-lhes o interesse
foram desprezadas” (1987:144). Portanto, a adequação do texto ao público infantil, que independe da sua origem, parece estar
ligada, segundo a autora, a dois aspectos determinantes para despertar o interesse da criança: “propiciar um processo de
identificação com a personagem e preencher, através da leitura de mundo que é todo texto, as grandes lacunas de compreensão
de seu pensamento” (1987:144).
Na mesma linha de abordagem, que privilegia a adequação da obra infantil a seu público, Zilberman (1985:52) enfatiza que
os livros destinados à criança têm sua origem histórica na adaptação. Esta envolve todos os meios aplicados para estabelecer
uma comunicação com o leitor infantil, entre os quais se destacam o assunto, a forma, o estilo e o meio. Assim como Aguiar
(2001), a autora ressalta que o aspecto externo do livro pode ser decisivo para o acolhimento positivo do texto.
A antologia como mediadora da leitura, na qual ilustração, tipos gráficos graúdos, formato e tamanho do livro são
direcionados à criança, é uma das formas utilizadas no sentido de tornar o livro mais atrativo a esse público. Por isso,
a adoção da antologia é um fenômeno atual, de acordo com Aguiar (2002: 32), baseado na seleção de autores que originalmente
não visavam esse leitor, mas que através de uma organização amparada em critérios adequados ao receptor, de acordo com faixa
etária e interesses, tem agradado ao público. A variedade de textos e de autores de diferentes épocas é relevante e
instiga sempre a curiosidade do leitor, principalmente se a obra tiver um suporte bem elaborado. Ler é ampliar horizontes
e quanto mais o leitor for provocado pelo texto, mais longe ele vai. O desafio, portanto, faz parte do processo de
crescimento mesmo do pequeno leitor.

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A forma, a materialidade do livro na constituição das seis coletâneas de contos, do projeto Literatura em Minha Casa,
exerce papel fundamental. A ilustração, as apresentações que trazem noções gerais sobre o conto enquanto gênero e sobre
as histórias que formam cada volume, bem como o conjunto dos textos selecionados, acabam por conferir um novo sentido
àqueles textos que não foram produzidos para crianças, fazendo com que eles se tornem acessível ao pequeno leitor.
Nesse contexto, os contos de Machado de Assis, Carlos Drummond, Artur Azevedo, Lygia Fagundes Telles e Guimarães Rosa,
dentro da forma editorial escolhida – a antologia -, ganham uma nova vida.
Como afirma Chartier (2002), um texto já não é o mesmo quando se modificam os dispositivos de sua escrita e de
sua comunicação. Cabe ressaltar aqui o importante papel dos editores que, ao submeterem textos de autores que não escreveram
para o público infantil a uma circulação que se afastou da finalidade original, criaram um novo contexto de leitura e,
dessa forma, acabaram por contribuir, sem perder de vista o sentido maior das coleções, que é fazer da leitura uma atividade
essencialmente prazerosa, com a renovação do nosso patrimônio cultural.
A inclusão de clássicos entre os autores que compõem as antologias de contos se torna, assim, rica em significação,
servindo de estímulo ao novo leitor. Para Calvino (2000), as leituras da juventude podem não ser proveitosas devido à
inexperiência do leitor e podem ser, até ao mesmo tempo, formativas por fornecerem modelos, marcos de comparação, escalas
de valores e paradigmas de beleza às experiências futuras. Mesmo que se recorde pouco ou nada das leituras feitas
na juventude, tudo isso fica latente no leitor. Diz Calvino: “Existe uma força particular da obra que consegue fazer-se
esquecer enquanto tal, mas que deixa sua semente”. No entanto, o autor adverte que os clássicos não devem ser lidos porque
servem para alguma coisa e sim porque “ler os clássicos é melhor do que não ler os clássicos” (2000:16).
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REFERÊNCIAS
Geral
AGUIAR, Vera Teixeira de (coord). Era uma vez... na escola: formando educadores para formar leitores. Belo Horizonte: Formato Editorial, 2001.
:: ___. Leitura literária e escola. In EVANGELISTA, Aracy Alves, BRANDÃO, Heliana, MACHADO, Maria Zélia (org.). Escolarização da leitura literária: o jogo do livro infantil. Belo Horizonte: Autêntica, 1999.
:: BLOOM, Harold. O cânone ocidental. Rio de Janeiro: Objetiva, 1995.
:: CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
:: CHARTIER, Roger. Os desafios da escrita. São Paulo: UNESP, 2002.
:: CUNHA, Maria Antonieta Antunes. Literatura infantil: teoria e prática. São Paulo: Ática, 1998.
:: FRAISSE, Emmanuel. L’anthologie littéraire, éléments de definition. In.: Les anthologie en France. Paris: PUF, 1997. p.71-79. Tradução de Vera Aguiar.
:: HAUSER, Arnold. Sociología del arte. v. 4. Barcelona: Labor, 1977.
:: JOVIANO, A. Língua pátria: lições para o ensino prático de língua nacional nas escolas primárias. Rio de Janeiro: Oriente, 1923.
:: LAJOLO, Marisa & ZILBERMAN, Regina. A formação da leitura no Brasil. São Paulo: Ática, 1996.
:: LOURENÇO FILHO, M. D. Pedrinho. São Paulo: Melhoramentos, 1959.
:: MONTEIRO, Clóvis. Nova antologia brasileira. Rio de Janeiro: Briguiet, 1933.
:: PAULINO, Maria das Graças Rodrigues. Leitores sem textos. 1990. 201f. Tese (Doutorado em Teoria Literária) Faculdade de Letras, UFRJ, Rio de Janeiro, 1990.
:: ZILBERMAN, Regina. A literatura infantil na escola. 4. ed. São Paulo: Global Ed., 1985.
:: ___. Fim do livro, fim dos leitores? São Paulo: Ed. SENAC, 2001.
:: ZILBERMAN, Regina & MAGALHÃES, Ligia Cademartori. Literatura infantil: autoritarismo e emancipação. São Paulo: Ática, 1987.
:: ZILBERMAN, Regina & SILVA, Ezequiel Theodoro da. Literatura e pedagogismo: ponto & contraponto. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1990.
Projeto “Literatura em minha casa”
DEBUS, Eliane Santana Dias. Vamos fazer do Brasil um país de leitores: em busca do tempo perdido...e dos livros também!!, Disponível em: www.dobrasdaleitura.com/revisao/ pnbe2002ed.html. Acesso em 23 nov. 2002.
:: Vamos fazer do Brasil um país de leitores. Disponível em: www.moderna.com.br. Acesso em 20 set. 2002.
:: Literatura e educação. Folha de São Paulo, São Paulo, 17 abr. 2002.
:: Ministério da Educação - Assessoria de Comunicação Social. Notícias Outubro 2002: Novas coleções do Literatura em minha casa chegam às escolas. Disponível em: www.mec.gov.br/acs/asp/noticias. Acesso em 23 nov.2002.
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