SEGUNDA PARTE
o jovem leitor e a seleção de textos
Susana Irion Dalcol
Rede Metodista do Sul/ Fames
Em diversos livros didáticos elaborados para o ensino fundamental e médio, os textos literários continuam sendo usados
como pretexto para o ensino da Língua. A literatura permanece, em muitos casos, subordinada à gramática. Em vista desse
quadro histórico e da necessidade de modificá-lo para que a literatura não perca o pouco espaço que ainda ocupa no universo
da mídia, é preciso buscar alternativas para que os alunos do ensino fundamental e do ensino médio aprendam o prazer de ler
e se tornem, com o passar do tempo, leitores críticos, não alienados, capazes de discriminar intenções e assumir posições
frente aos textos que lêem.
A formação do leitor crítico, de acordo com Zilberman (1985:25), só é possível se o livro oferecer condições para
a compreensão, tanto do mundo interior como do mundo real que cerca o leitor, proporcionando-lhe um embasamento mediante
o qual se construa uma concepção autônoma e crítica da vida. A pesquisadora, no entanto, adverte que essa função formadora
não pode ser confundida com uma função pedagógica, pois visa propiciar a emancipação pessoal do leitor.
No entender de Zilberman (1999:19), a leitura, mesmo sendo uma prática solitária, permite ao indivíduo penetrar o âmbito
da alteridade, expandindo suas experiências. Com ela, o leitor acaba socializando experiências. A leitura estimula
o diálogo e aí se revela a função formadora e verdadeiramente educativa da literatura e da leitura:
“o texto artístico talvez não ensine nada, nem se pretenda a isso; mas seu consumo induz a algumas práticas socializantes,
que, estimuladas, mostram-se democráticas, porque igualitárias”.
O contato com a literatura é considerado essencial para a boa formação da criança: ajuda no desenvolvimento
da personalidade, no crescimento intelectual e afetivo, na compreensão do real e no exercício da cidadania. Lendo,
a criança vai preencher significações e recriar o mundo por meio da imaginação. Para adquirir o gosto pela leitura
é fundamental que a escolha das obras esteja amparada em critérios de adequação com a fase de desenvolvimento da criança
ou adolescente. Aguiar (2002) lembra que o mundo da criança tem características e um modo de sentir a vida que diferem
do adulto, por isso, as obras produzidas para esses leitores devem ser adaptadas ao seu mundo no que diz respeito
ao assunto, à forma, ao estilo e ao meio utilizados. A autora adverte, no entanto, que a adequação do texto ao leitor
não significa a menorização do gênero, mas deve representar um processo de inclusão: “a literatura infantil é aquela
que a criança também lê” (1999:243).
Um certo afastamento do universo do leitor, que serve para provocá-lo, é positivo, porém a distância entre texto
e leitor não deve chegar a ponto de inviabilizar a comunicação. Por isso, o assunto, que envolve a escolha de temas,
de histórias e de fatos deve estar em consonância com os interesses da criança e com sua capacidade de compreensão.
A forma, poesia ou narrativa, deve estar de acordo com o horizonte de leitura, que vai depender da preferência
e das condições de percepção do leitor. O meio é o suporte utilizado para a apresentação do texto e envolve tamanho
e formato do livro, ilustrações, tipo gráfico, diagramação, entre outros elementos que servem de veículo adequado ao público
infantil. Sobre a materialidade do livro, Aguiar afirma:
Do ponto de vista material, o livro deve cativar o leitor por sua aparência, uma vez que
o contato físico é o primeiro que acontece e já vem carregado de sentidos, apoiado nas primeiras impressões
que desperta. (2002: 64)
Foi pensando em melhorar a situação da leitura entre as crianças brasileiras e procurando cativá-las para o mundo
da leitura que surgiu o projeto “Literatura em minha casa”.
Em abril de 2002, o Ministério da Educação deu início à campanha Tempo de Leitura, com o tema
“Vamos fazer do Brasil um país de leitores”, através do projeto Literatura em Minha Casa, do Programa Nacional Biblioteca
da Escola (PNBE), executado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação
(FNDE/MEC). A campanha teve como objetivo incentivar o hábito da leitura,
dentro e fora da sala de aula, junto a crianças de 4ª e 5ª séries do ensino público fundamental. O estímulo à leitura
é considerado pelo Ministério da Educação como fundamental para o desenvolvimento do raciocínio e da argumentação.
A leitura, todavia, não estava acessível a alunos da camada popular, público visado pelo projeto, tanto pela dificuldade
econômica em adquiri-los, como pela falta de incentivo adequado à leitura por parte da família e também da escola.
A idéia veiculada na divulgação do projeto na mídia é que as crianças leiam seus livros na escola, em casa, com os amigos,
irmãos, pais, avós e depois conversem sobre os textos, contem para outras pessoas, troquem seus livros e convivam, assim,
no mundo da leitura. Para isso, foram distribuídas entre as crianças seis coleções de livros, todas contendo cinco volumes,
formados por diferentes tipos de textos, que incluem poesia e prosa.
O processo de escolha das coleções para compor o projeto contou com a participação de trinta e seis coleções.
Uma comissão técnica, composta por especialistas, selecionou as vencedoras a partir dos seguintes critérios, estabelecidos
no edital: uma obra de poesia de autor brasileiro; uma obra de contos de autor brasileiro, ou uma antologia de contistas
brasileiros; uma novela de autor brasileiro; uma obra clássica da literatura universal, traduzida ou adaptada; uma peça
teatral ou obra ou antologia de textos da tradição popular. Foram selecionadas, ao final, seis editoras diferentes,
que deram forma ao projeto: Ática, FTD, Moderna, Objetiva, Nova Fronteira e Companhia das Letrinhas. Todas, respeitando
suas características individuais, mantêm o mesmo padrão de publicação, cujo acabamento gráfico e formato especial
possibilitou a viabilidade do projeto. Cada coleção, independente da editora, apresenta sua coletânea de contos.
São, portanto, seis volumes que trazem trinta e seis contos variados de autores brasileiros:
 Editora Moderna – Historinhas pescadas: Angela Lago, Artur Azevedo, Bartolomeu Campos Queirós, Christiane Gribel, Eva Furnari, Machado de Assis, Moacyr Scliar, Pedro Bandeira, Rosa Amanda Strausz e Ruth Rocha.

 Editora Objetiva – O Santinho: Luis Fernando Veríssimo. |  Companhia das Letrinhas – Era uma vez um conto: Moacyr Scliar, José Paulo Paes, Milton Hatoum, Marcelo Coelho e Drauzio Varella.

 Editora Ática – De conto em conto: Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Ivan Angelo, Luiz Vilela, Lygia Fagundes Telles, Machado de Assis, Marcos Rey, Pedro Bandeira e Wander Piroli.
|  FTD – Quem conta um conto?: Ana Maria Machado, Cristina Porto, Flávio de Souza, Ruth Rocha e Sylvia Orthof.

 Nova Fronteira – Meus primeiros contos: Leo Cunha, Hebe Coimbra, João Guimarães Rosa, Luiz Raul Machado, Machado de Assis e Sylvia Orthof. |
Com o objetivo de analisarmos o estatuto dos autores que compõem as antologias, buscamos nos elementos paratextuais
dos seis volumes informações sobre a biografia de cada autor. A maioria deles se dedica ou se dedicou tradicionalmente
à literatura infanto-juvenil. As biografias de Ruth Rocha, Pedro Bandeira, Sylvia Orthof, Angela Lago, entre outros,
fazem referências diretas a uma produção literária voltada ao público infantil. São obras publicadas, prêmios recebidos,
histórias de vidas que evidenciam o trabalho direcionado às crianças.
Das coleções lançadas pelo projeto Literatura em Minha Casa, três editoras - Moderna, Ática e Nova Fronteira -
apresentam textos de escritores, cujas biografias não têm indicação alguma de produzirem para o público infantil.
Nesse perfil se enquadram Artur Azevedo, Machado de Assis, Ivan Angelo, Carlos Drummond de Andrade, Lygia Fagundes Telles,
Fernando Sabino, Luiz Vilela e Guimarães Rosa. Destes, destacamos especialmente Artur Azevedo, Machado de Assis, Carlos
Drummond de Andrade, Lygia Fagundes Telles e Guimarães Rosa. Todos são autores já consagrados pela história da literatura
brasileira, devido à qualidade estética de suas obras. Pertencem, portanto, ao cânone literário e suas obras
se constituem clássicos da nossa literatura.
Na coletânea da editora Moderna, Artur Azevedo (1855–1908) se destaca com o conto “Pipi”. A biografia do autor
mostra que o mesmo se dedicou ao jornalismo e, sobretudo ao teatro, cultivando todos os gêneros de sua época: a burleta,
a comédia, a paródia e a revista. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e sua obra fica entre o
bem-humorado e o galante, o satírico e o pitoresco. Machado de Assis (1839–1908) participa também da antologia
com “Um apólogo”, conto que pertence à obra Várias histórias (1884). A biografia faz referência ao seu trabalho
como aprendiz de tipógrafo, como revisor e escritor em jornais e revistas cariocas, dedicando-se ao conto, à crônica e
à crítica. Dá destaque também ao fato de que Machado foi considerado o mais importante contista do século XIX.
Na coletânea da editora Ática, destacam-se Carlos Drummond de Andrade, com o conto “O torcedor”, publicado anteriormente
em Contos plausíveis (1981), Lygia Fagundes Telles, com “Biruta”, conto que pertence a Histórias escolhidas
(1961) e novamente Machado de Assis, com o conto “Um apólogo” (Várias histórias, 1884). A biografia de Machado de
Assis traz dados sucintos, dentre os quais que o autor foi um dos maiores escritores da língua portuguesa, escrevendo
romances, peças de teatro, contos e poesias. Carlos Drummond de Andrade (1902–1987) é considerado um dos maiores poetas
de língua portuguesa, também é escritor de contos e crônicas. Lygia Fagundes Telles (1903) é uma premiadíssima contista
e escritora de romances de grande repercussão como As meninas.
Na antologia da editora Nova Fronteira, os destaques são Guimarães Rosa, com o conto “Fita verde no cabelo”,
sem indicação da publicação original e, mais uma vez, Machado de Assis com o conto “Um apólogo”. Os dados sobre Machado
fazem alusão à fundação da Academia Brasileira de Letras e ao fato de o autor ser a maior figura das letras brasileiras
e autor dos maiores clássicos do nosso romance e da nossa contística. Sobre Guimarães Rosa (1908–1963), é mencionado que
ele foi diplomata e escritor. Seu primeiro livro de contos, Sagarana, garantiu-lhe lugar de destaque na literatura
brasileira, pela linguagem inovadora, pela singular estrutura narrativa e riqueza simbólica de suas histórias. Foi membro
da Academia Brasileira de Letras, eleito em 1963.
Através da análise da biografia dos autores que formam as coletâneas, foi possível identificar quais os que
se enquadram na categoria dos chamados clássicos da literatura brasileira. Segundo Bloom (1995:35), o que leva um autor
a ser canonizado e se tornar um clássico é principalmente sua originalidade. “O maior e mais forte teste para a canonicidade
de um autor é arrasar e subordinar a tradição” e somente alguns conseguem tal prodígio. Um autor só entra no cânone pela
sua força poética, pelo domínio da linguagem figurativa, pela originalidade, pelo seu poder cognitivo. Já Calvino (2000)
considera clássico o livro cuja leitura é sempre de descoberta, porque ele nunca termina de dizer o que tem para dizer.
É clássico o que relega a atualidade à posição de "barulho de fundo", sem, no entanto, desprezá-la; é clássico o que
persiste mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível.
É nesse sentido que se pode considerar clássicos nomes como Artur Azevedo, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade,
Lygia Fagundes Telles e Guimarães Rosa. Trata-se de autores representativos da literatura brasileira, cujas obras já foram
aclamadas pela crítica e pelo público e que permanecem sempre atuais, independente do momento da produção.
Sabe-se que os textos desses autores foram escolhidos mediante critérios de adequação ao leitor infantil,
incluindo assunto, forma e linguagem. Mesmo assim, a inserção nas coletâneas permite questionar se os textos
são realmente compatíveis com as intenções iniciais do projeto, que compreendem a criação do hábito da leitura
nas crianças e a familiarização das mesmas com o livro.
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