* artigo em três partes


PRIMEIRA PARTE
a produção do livro
e o estado da leitura


Susana Irion Dalcol

Rede Metodista do Sul/ Fames



A leitura é atualmente um dos focos do interesse dos estudos literários e estudá-la implica conferir importância aos suportes materiais dos textos, responsáveis pela sua veiculação. Se não houvesse a materialidade da literatura, o suporte por meio do qual ela se manifesta, no entender de Zilberman, a literatura “perder-se-ia no tempo, pois seus outros elementos – as imagens que emanam da fantasia de um sujeito; as narrações em que se transformam as falas de pessoas e grupos – mostram-se por demais transitórios e efêmeros” (2001: 113).
Lajolo e Zilberman (1996: 60) enfatizam que “a literatura tem uma faceta concreta, com componentes históricos passíveis de recuperação e análise”. Essa faceta concreta, que se configura na materialidade do livro, é objeto de estudo da Sociologia da Leitura, cuja preocupação se centra em tratar de elementos externos ao texto, que interferem na produção e na circulação do livro na sociedade.
É nesse campo que está inserido o presente trabalho, no qual se pretende estudar os volumes dedicados ao conto das seis coleções distribuídas em 2002, para crianças da 4ª e 5ª séries do ensino público fundamental, pelo Ministério da Educação, através do projeto “Literatura em minha casa”. Em cada coleção, encontramos um volume dedicado ao conto na forma de antologia. Essas antologias reúnem diversas histórias curtas e contemplam vários autores brasileiros, compreendendo, por um lado, aqueles que tradicionalmente não escreveram seus textos para crianças, mas que são considerados clássicos da Literatura Brasileira pelo valor de sua produção literária e, por outro, autores, cuja produção está ligada especialmente ao universo da literatura infanto-juvenil. Interessa-nos investigar o significado da inclusão de autores como Machado de Assis entre os selecionados para as antologias, e qual o resultado daí obtido.
Para tanto, nosso percurso inclui uma abordagem sobre a produção do livro enquanto objeto material, na qual se insere a antologia como forma editorial que se constitui a partir do processo de seleção de textos. Tal enfoque vai nos dar suporte para a análise dos volumes de contos do projeto “Literatura em minha casa”. Da mesma forma, consideramos importante discorrer sobre a situação da leitura e do livro infantil no Brasil, a fim de melhor compreender o processo de constituição das antologias que compõem nosso corpus e que têm como público alvo crianças de 4ª e 5ª séries do ensino fundamental.


A história da produção do livro, de acordo com Chartier (2002), comumente separa o estudo das condições técnicas e materiais de produção e difusão dos objetos impressos do estudo dos textos, “considerados como entidades, cujas diferentes formas não alteram a estabilidade lingüística e semântica” (2002: 62). Porém, para o autor “o ‘mesmo’ texto, fixado em letras, não é o ‘mesmo’ caso mudem os dispositivos de sua escrita e de sua comunicação” (2002:62). A forma, por isso, exerce papel essencial na construção dos significados de um texto. A publicação envolve diferentes técnicas, máquinas e sujeitos que agem como mediadores para a leitura. No que se refere aos sujeitos envolvidos nesse processo, Chartier ressalta o duplo papel dos editores. Por um lado, são eles os responsáveis por garantir a constituição do mercado e dos julgamentos; por outro, submetem os textos a uma circulação que se afasta da finalidade original de sua escrita, já que as significações se alteram quando mudam as formas de sua feitura ou de sua paginação. A antologia, como objeto editorial que se forma a partir da seleção, da extração, da colagem e do agrupamento, exemplifica essa dupla função dos editores: ela garante a permanência no mercado dos textos selecionados, e demonstra que o processo de agrupamento dos mesmos dentro de uma nova forma material faz com que eles ganhem uma significação diferente da original.
Enquanto objeto editorial que pressupõe uma seleção de textos, a antologia se caracteriza por exercer a função de mediadora da leitura. Segundo Hauser (1977), para que se comunique, o artista precisa de intérpretes e de intermediários, a fim de que seja, então, entendido e estimado de modo adequado. A música serve como exemplo para o autor tratar da questão da mediação, pois ela precisa de um mediador para fazer o elo entre o artista e o público. Uma partitura não é compreendida pelo grande público, por isso necessita de uma interpretação. Processo semelhante ocorre no âmbito da literatura. Toda pessoa ou instituição que se interponha entre a obra e a vivência artística do receptor efetiva uma função útil ou inútil de mediação.
Sendo um objeto elaborado por uma equipe editorial que apresenta uma série de características passíveis de reflexão e análise no campo da sociologia da leitura, a antologia cumpre o papel de intermediária entre textos e leitores; por isso, atua como mediadora de leitura. Nesse contexto, Fraisse (1997) procura investigar como esta forma, através dos tempos, continua a ser foco de observação do fato literário e como sua história é inseparável de uma reflexão sobre o conjunto dos textos, dos gêneros, dos seus modos de agenciamento e transmissão.
Através do conjunto de fragmentos selecionados, a antologia coloca em evidência a relação da forma material adotada e da natureza dos extratos recolhidos. Os atos de seleção, extração, colagem e agrupamento que antecedem sua elaboração definem uma forma e um contexto que é sempre renovado, pois implica a criação de um novo sentido para o conjunto dos textos escolhidos para a coletânea. Também os materiais que acompanham os textos das antologias – prefácios, posfácios, notícias de apresentação, ilustração, dimensões, aspecto exterior - são índices de suas intenções iniciais e do público que visa. Portanto, a forma adotada confere um novo sentido para os textos que compõem a antologia.
Fraisse ainda observa que se deve levar em conta o conjunto do dispositivo editorial, ou seja, tanto os fragmentos propostos, como o paratexto e o modo de reconhecimento dos textos – cronologia, gênero, temas, condições editorias propriamente ditas, estatuto dos autores, orientação e prestígio dos editores, natureza e objetivos das coleções. Através desses elementos pode-se apreender como a antologia dá conta da literatura, na medida em que remete à natureza do patrimônio cultural, redefinindo-o, reavaliando-o e reabilitando-o. Ela tem a intenção de preservar o patrimônio, tomando-o em parte e tornando-o acessível.
Para o autor, a antologia supõe um olhar histórico sobre o literário, que modifica as condições de transmissão e a relação com os textos, no quadro escolar e fora dos seus limites. Ela tem a capacidade de propor uma reflexão sobre os efeitos estéticos dessa organização de textos literários. Não é uma forma vazia, pois suscita sempre um conteúdo. Como objeto fundador de uma identidade, é a afirmação da realidade coletiva de um determinado grupo cultural. Assim, exerce um papel literário e também ideológico. Refletindo e fixando cânones,

Sobre as águas — Na travessia do Rio Pedreira, em Macapá, no interior da região amazônica, crianças viajam com os livros de programa Literatura em Minha Casa - PNBE 2002. Foto produzida por Marta Carvalho. Fonte: Blog do Galeno.

acaba por definir e interpretar a literatura sob determinada perspectiva. Não é ela, porém, pura conservação da tradição, resta-lhe uma tarefa de contemplação e memória que supõe que, para que alguns objetos se conservem, outros devam ser esquecidos ou apagados.
Envolta em muitos cuidados na sua produção, a antologia busca atingir camadas cada vez mais amplas de leitores, que incluem desde aqueles que pertencem ao mundo letrado, mas que não têm condições econômicas para investir em livros sofisticados e na obra completa de seus autores preferidos, até aqueles menos familiarizados com o universo literário, mas que são os leitores em potencial do futuro, como as crianças e os adolescentes e que, por isso, devem ser conquistados pela boa leitura.


No que se refere a esses leitores em potencial do futuro, dentro do contexto brasileiro, porém, as perspectivas não são muito tranqüilizadoras. Sabe-se que, cada vez mais, eles demonstram desinteresse pelas atividades de leitura, fator muitas vezes associado à imposição feita nas escolas e à utilização de textos literários como pretexto para o ensino da gramática ou mesmo como instrumento moralizador. Aguiar (1999:243) afirma que o pecado original da literatura infantil foi ter nascido comprometida com a educação, em detrimento da arte, fator que até hoje vem acarretando o afastamento da leitura. Da mesma forma, Magalhães (1987:41) observa que a utilização do texto como forma de transmitir lições de moral está na origem da literatura infantil. Essa teve seu início vinculado à pedagogia e como veículo de transmissão de regras do mundo adulto para a criança, o texto literário acabava por consagrar a manutenção da organização social e por validar instituições, costumes e crenças.
À formação pedagógica junta-se o fato de a escola fazer da literatura um instrumento para o estudo da língua. Em 1923, por exemplo, Joviano (1923) associa a leitura de “peças literárias” ao ensino da Língua: vocabulário, sintaxe, ortografia. Monteiro (1933), em sua Nova antologia brasileira, seguindo instruções pedagógicas do Ministério da Educação, propõe que os professores utilizem a análise de obras literárias como “simples meio auxiliar que pode às vezes intervir na interpretação de uma frase ou na explicação de um período mais ou menos obscuro”, mais uma vez marcando a leitura na escola pelo seu caráter utilitário e não pelo prazer que pode advir do texto. Na mesma linha de posicionamento, Lourenço (1959), na apresentação da obra Pedrinho, deixa claro que “Ler por ler nada significa. A leitura é um meio, um instrumento, e nenhum instrumento vale por si só, mas pelo bom emprego que dele cheguemos a fazer”. Novamente prevalece a função utilitária e moralizante associada à leitura de textos literários.
Se remontarmos a história do livro infantil no Brasil, verificaremos que ela surge a partir da Proclamação da República, momento em que a escola passa a exercer a responsabilidade da instrução. Houve, nessa época, uma aproximação entre os livros infantis e os escolares, ambos caracterizando-se, como já enfatizamos anteriormente, pelo tom pedagógico. Aguiar (2001:25) ressalta que as obras desse período tentavam ser modelares no plano temático e no nível da linguagem. A conjuntura da publicação de obras infantis no Brasil só vai apresentar uma melhoria na qualidade com a publicação de A menina do narizinho arrebitado, de Monteiro Lobato, em 1921, obra que apresenta uma linguagem criativa a atraente para a criança, rompendo com o padrão culto e instaurando a oralidade na linguagem narrativa. De Monteiro Lobato até a década de sessenta do século XX, a autora observa que a literatura infantil brasileira passa por um retrocesso no que se refere à criatividade. Surgem novos autores que tentam repetir a fórmula de Lobato, porém sem seu poder de inventividade.
É na década de setenta, com a reforma do ensino, cuja proposta era eliminar o exame seletivo e ampliar o acesso das crianças à escola, que o livro vai adquirir maior importância e divulgação. A publicação de obras infantis é impulsionada, gerando edições de qualidade gráfica e estética. No entanto, Aguiar enfatiza que nesse período “surgiram obras que não tinham compromisso com o leitor infantil; pecaram pelo pedagogismo, pela imbecilização da infância ou pela incapacidade de promover a identificação da criança com as propostas ali contidas” (2001: 28).
A partir dos anos oitenta, com o crescimento da escolarização, há também um crescimento de publicações para as crianças. Essa produção, encarada como produto de consumo, de modo geral vai variar de acordo com a moda e o gosto, perdendo seu sentido crítico e sua qualidade. Apesar disso, alguns escritores demonstram interesse em produzir obras de qualidade, que representem o universo infantil, que sejam atrativas e instiguem a formação do senso crítico. Hoje, o livro infantil é cada vez mais cercado de cuidados, o que inclui uma maior preocupação não só com o conteúdo, mas também com aspectos materiais como diagramação e ilustração. Para Aguiar, “quantidade e qualidade coexistem na literatura infantil, na qual grande produção de textos estereotipados compete com sucesso no mercado de bens culturais” (2001: 34).
Da situação de leitura e da história do livro infantil no Brasil acima expostas, percebe-se que, apesar dos progressos, há muito ainda que melhorar.

Dobras da Leitura
Ano VIII - N.º 43 - mar. 2007
voltar