

“E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar?”
José Saramago
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Nicolê
um Nicolau e um Lelê pra mim e pra você!
Luciane Hagemeyer
Já faz algum tempo que conheço o Nicolau (Martins Fontes, 1998). Há alguns anos, na biblioteca da escola em que trabalho, estava à procura de um livro que eu pudesse ler em voz alta para os alunos. Um volume diferente, com ilustrações em preto e branco chamou minha atenção. Ao abri-lo aleatoriamente, escolhi uma de suas histórias, que assim terminava: “O ensaio estava indo muito bem quando, de repente, a professora gritou: ‘Chega! Para os lugares! Vocês não irão representar essa peça na festa. Não quero que o Diretor veja isso!’ Nós todos ficamos de boca aberta. Era a primeira vez que a gente via a professora castigar o diretor!”.
Bem, isto aconteceu há exatamente dez anos. Até então, nunca havia ouvido falar de René Goscinny, o autor francês da série de livros sobre Nicolau (e também dos famosos volumes de "Asterix") e muito menos do ilustrador Jean-Jacques Sempé. A partir daí passei a ler para os alunos um episódio do livro por dia. As turmas daquele ano (e do outro e do outro) foram todas fisgadas, assim como eu, pelo narrador-personagem: o pequeno Nicolau.
Passado algum tempo e por aquelas razões que até o coração desconhece, esqueci-me de Nicolau. E na incansável batalha para formar e “fisgar” leitores, acabei perdendo um grande aliado. Mas como Deus sabe o que faz, dia destes o livro caiu novamente em minhas mãos. E aí experimentei aquela sensação de que ao reler um livro,
[...] vivenciamos a mesma sensação de surpresa e descoberta que da primeira vez, porque lemos coisas que não havíamos lido então. A sensação é a mesma, mas as surpresas e as descobertas são novas, são outras. Como, se o livro era o mesmo? Este é o ponto: um bom livro de ficção não se disfarça apenas uma vez, ele se disfarça quantas vezes for lido por diferentes pessoas ou até pela mesma pessoa em idades diferentes (BERNARDO, 2005, p.18).
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A leitura de agora, mais amadurecida, talvez tenha me ajudado a perceber com mais clareza quais são os motivos que movem, mobilizam e comovem crianças e adultos ao lerem Goscinny: a turminha de Nicolau está longe de qualquer “idealização”. E as crianças sabem disto, por isto o reconhecimento é imediato. Porque nas histórias de Nicolau, elas não se apresentam adulteradas: a inveja, o orgulho, a vingança, a preguiça, o medo, a intolerância, ou seja, tudo aquilo que faz a gente bater na madeira três vezes está lá. E o mais incrível: não é motivo de desespero.
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Nicolau e seus amigos estão na faixa dos seis, sete anos de idade. Goscinny começou a escrever suas histórias em 1959. Podemos imaginar que tipo de escola era aquela enfrentada pelas crianças. Hoje as coisas mudaram. Ou melhor, “algumas” ou talvez “muitas” coisas mudaram, mas...
O fato é que depois de cinquenta anos, a obra conserva a mesma vivacidade. Por intermédio de Nicolau, Goscinny nos ajuda a recuperar um pouco da nossa capacidade perdida de falar a língua da Terra do Nunca. O autor consegue atingir o coração e a mente das crianças (e dos adultos também!) porque não as acusa, não as julga nem as critica. Que delícia escutar a voz do esperto e observador Nicolau, relatando peripécias, estripulias, conflitos e até mesmo as angústias vivenciadas por ele e por seus colegas no dia-a-dia. Tudo com muita “pureza”. E o que vemos a partir daí? Uma “catarse” sendo operada na mente das crianças e acontecendo bem ali, na nossa frente, quando escutam uma das histórias de Nicolau.
Como se explica isto? Arrisco dizer, devidamente amparada por Gustavo Bernardo (2005, p. 20) é claro, que em literatura,
[...] o processo de catarse é, na verdade, o processo do reconhecimento de si mesmo com alguém que há pouco não era, isto é, um processo de produção dinâmica, permanente, infinita, de si mesmo. O leitor não se identifica propriamente com o personagem, mas sim, o personagem é quem oferece ao leitor uma identidade.
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É isto que chamamos de experiência estética. Porque literatura é uma forma de sondar a consciência, de exercer aquela liberdade interior tão necessária para saber viver em sociedade. Implica em dar ao conhecimento um significado humano e formativo, sem o qual ninguém se realiza individualmente. E é justamente aí que está também a dimensão ética da leitura.
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Há pouco mais de um mês, fiz uma nova e grata descoberta. Encontrei na Web o Blog do Lelê, do escritor José Roberto Torero, ilustrado por
Rogério Doki. O blog nasceu durante a Copa do Mundo de 2006, em que o autor esteve na Alemanha participando da cobertura dos jogos. Por meio da voz de seu “sobrinho” Lelê, Torero narra impressões, acontecimentos marcantes (como o nascimento de sua filha, Catarina) viagens e fatos do cotidiano. O texto lembra muito as histórias da turminha do Nicolau, embora aborde temáticas mais abrangentes. Assim como Nicolau, Lelê é também um garotinho (talvez uns dois anos mais velho) que expressa seu ponto de vista diante das questões do dia-a-dia, mas também narra
suas mais tenras lembranças, como o primeiro dia em que foi à escola, ou seus sentimentos diante da separação dos pais.
As Primeiras Histórias de Lelê (Panda Books, 2007) é um livro que reúne algumas das histórias do blog. Muito bem escolhidas, por sinal. A linguagem de Torero flui, pois é muito bem humorada, além de nos aproximar de um mundo em que, segundo Jacqueline Held (1980, p. 185), “o perigo e o sofrimento jamais eliminam, completamente, as falhas cotidianas, o sorriso e o riso”.
Ambas as obras, ao tratarem de temas próprios das relações do cotidiano em que as crianças estão presentes, abrem perspectivas para que possamos melhor explicá-los. De modo leve e ao mesmo tempo arguto, Nicolau e Lelê permitem reconhecermos a complexidade humana. Permitem também que deixemos de lado, segundo Ricardo Azevedo (2005, p.32) a crença naquele “mundo idealizado regido por normas abstratas e pré-concebidas, onde, a priori, tudo se encaixa, não existem contradições e ambigüidades e tudo faz sentido e tem uma determinada função”.
Assim como Nicolau, Lelê nos ajuda a pensar o mundo de outra maneira, ou melhor, a recuperar o diálogo espontâneo e verdadeiro com as crianças, um diálogo criador, divertidíssimo e “descontaminado” da visão adulta a respeito da realidade das coisas. Só que com dois detalhes: Lelê é literatura brasileira e é também altamente recomendável.
* Luciane Hagemeyer
é professora de Língua Portuguesa da 3ª série do Ensino Fundamental,
formada em Letras Português/Inglês pela UFPR, com pós-graduação em Currículo e Prática Educativa pela PUC-Rio
e mestre em Estudos Literários pela UFPR.
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Referências Bibliográficas
AZEVEDO, R. Aspectos instigantes da literatura infantil e juvenil. In: O que é qualidade em literatura infantil e juvenil?: com a palavra o escritor. São Paulo: DCL, 2005.
:: BERNARDO, G. A qualidade da invenção. In: O que é qualidade em literatura infantil e juvenil?: com a palavra o escritor. São Paulo: DCL, 2005.
:: COELHO, N. Literatura: arte, conhecimento e vida.. São Paulo: Peirópolis, 2000.
:: GOSCINNY, R. O pequeno Nicolau. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
:: HELD, J. O imaginário no poder . São Paulo: Summus, 1980.
:: TORERO, J. As primeiras histórias de Lelê. São Paulo: Panda Books, 2007.
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