conduzir à literatura
também É papel da escola


Claudimeiri Nara Cordeiro Kollross
Professora da UFPR, mestre em Letras - USP
e graduada em Letras e Pedagogia

Crianças de todas as faixas etárias procuram para empréstimo os livros das histórias lidas ou contadas em sala de aula - o que demonstra que a oralidade não só atrai o leitor para o livro, como também o encoraja a enfrentar a escrita no silêncio.
Marly Amarilha



Desde a década de 1970, o conceito de Literatura Infantil tem sido revisto. Há uma corrente muito forte de estudiosos, entre eles Maria Lúcia Góes, Nelly Novaes Coelho, Marta Morais da Costa, Ricardo Azevedo, Paulo Ventureli que criticam a postura de alguns pesquisadores da literatura que concebem a Literatura Infantil como uma arte menor por ser destinada às crianças. Os livros desse gênero devem ser considerados como literatura, independente do seu receptor principal, pois, acima de tudo, é arte. Deve-se perceber a literatura não apenas como um diálogo entre a criança e o adulto, mas também, uma ponte entre dois mundos, o real e o imaginário, no qual a criança vai descobrindo e vivenciando emoções que nem sempre podem ser vividas na realidade. Cada palavra, cada frase dita ou escrita é a reprodução do que alguém falou, escreveu ou viveu em alguma época. Não somente na literatura, mas nas artes em geral, há a presença do 'outro' como sujeito ativo entre o mundo e a sua criação.
Segundo Carvalho (1989), "educar é humanizar, e só se humaniza pela arte, pela sensibilidade", a educação formal, escolar, é um dos meios pelos quais a sociedade se utiliza para transmitir o conhecimento socialmente sistematizado. A escola deve despertar o sentimento estético em seus alunos. É evidente que esta função não é responsabilidade somente da escola: os pais, particularmente as mães, possuem um papel essencial nessa transmissão. Este artigo deter-se-á principalmente na questão escolar, foco principal desta análise, porém é mister esclarecer que a família exerce grande influência na formação da criança, embora não seja a base norteadora desta pesquisa.
As estórias alimentam o imaginário infantil, ajudando a criança a entender a vida e a melhor vivê-la. Dessa forma, pode-se delimitar, segundo Góes (1996), que a primeira função da Literatura Infantil e Juvenil é a de experenciar ações, reações e emoções através do ficcional. O leitor pode, por exemplo, experienciar a morte ou o medo por meio da narrativa e, quando esse sentimento vier à tona (na vida real), ele terá mais equilíbrio e agirá de forma racional, pois já vivenciou esta emoção no mundo imaginário. O ficcional prepara para a vida real. Este é um dos motivos pelos quais porque se deve cultivar a leitura de estórias para e pelas crianças, seja na sala de aula ou na sala de leitura pelo professor, seja em casa pelos pais. A boa literatura encanta e enriquece o espírito das crianças, elas se deliciam com as narrativas, envolvem-se na efabulação, participam como co-autores, torcendo pela vitória do protagonista e pela derrota do vilão, não sendo por outra razão que devam ser iniciadas na literatura como ouvintes. Por isso, quem conta uma estória, deve contá-la com emoção, entonação, ritmo.
Quando a criança inicia no mundo da leitura, ela busca nos livros aquela sensação fornecida pela oralidade, a mesma alegria e dinamicidade que o adulto fornece ao ler/contar uma estória. E qual não é sua decepção ao perceber que aquela emoção não está presente, inicialmente, na sua leitura. É muito frustrante, há que se convir. "E... erra... Era... una... uma... ...vez... mum... nuuumm... cas... te... lo... muiiitooo... dis... ... ... ta... te... cer... ca... do... pror... gra... grannnn... de...sss des..." A oralidade é parte fundamental da literatura, mas que tristeza e decepção a criança sente quando aquelas estórias cheias de encanto e magia não estão nos livros, só na sua lembrança. Antes que ela termine o primeiro parágrafo já esqueceu o que leu, e depois de muitas tentativas, é previsível que não queira mais ler -- é neste momento que se perde o leitor... Além da própria dificuldade inicial da criança em adentrar para o mundo da leitura, a escola tem sido uma das vilãs, uma das responsáveis em distanciar o leitor da literatura. Infelizmente, a Literatura Infantil está muito ligada à pedagogia tradicional, ao utilitarismo, às propostas tradicionais.
Ao fazer uma retomada histórica das origens da Literatura Infantil no Brasil, percebe-se o seu cunho pedagógico, utilitário. Segundo Arroyo (1990), "O culto de Trancoso no Brasil foi prodigioso. Seu livro Histórias de Proveito e Exemplo, deve ter vindo para nosso país nos primeiros anos de colonização, ou seja, na data da sua primeira edição, de 1575..." Pelo próprio título da obra, percebe-se a formatação didática dos primeiros livros destinados às crianças brasileiras, sem mencionar que a linguagem lusitana era estranha para elas. Somente no século XVII, fala-se a respeito de uma literatura destinada às crianças, embora sua origem, de acordo com Mantovani (apud Amarilha), remonte da Idade de Ouro dos mitos; o objeto livro tem sua gênese neste século e com ele abre-se a polêmica: a Literatura Infantil pertence à arte literária ou à área pedagógica? Controvérsia que tem raízes na Antigüidade Clássica, ainda não totalmente dizimada na atualidade -- haja vista que opiniões se radicalizaram e se oficializaram em certas épocas, contribuindo para a permanência de uma visão mais utilitária da literatura.
O ensino da literatura, nas escolas, tem sido caracterizado como um movimento mecânico e sincronizado, que consiste em: abrir o livro, ler silenciosamente o texto, responder as perguntas da ficha de leitura ou as fornecidas pelo professor, fazer um resumo do texto e tcham, tcham, tcham... estudar para a prova do livro do mês! Isso quando não se utiliza o texto literário para o estudo da gramática. Muitos professores, infelizmente, tem essa concepção de literatura. Um poema é estudado em suas partes; quantos versos, quantas estrofes, rimas, etc. A narrativa é pretexto para o estudo da gramática: circule os substantivos, procure no dicionário as palavras desconhecidas, passe a terceira frase do quinto parágrafo para o plural e assim por diante.
O professor tradicional tende a utilizar o texto literário como pretexto para o ensino de determinados conteúdos; vista desta maneira, a literatura é um meio com o qual o professor a adequa de acordo com os objetivos escolares. Se quer ensinar moral vai ao encontro das fábulas e o aluno tem que acertar a moral da estória. O mestre é o detentor do saber e, conseqüentemente, do poder. As aulas normalmente são expositivas, o aluno ouve o que o professor ensina, a participação é mínima.
É necessário que exista, nas escolas, um projeto pedagógico que dê relevância à Literatura, que forneça condições concretas de trabalho, bons livros de literatura, biblioteca organizada, espaço para a leitura em grupos, estímulo ao empréstimo de livros, obras teóricas que possam embasar a prática docente, formação continuada, participação dos professores em cursos voltados à Literatura. Um fato que tem sido muito discutido em seminários e congressos é a falta de formação do professor, pois muitas vezes ele não sabe como trabalhar a literatura infantil de forma prazerosa, não conteudística. Na verdade, são poucas as instituições superiores que oferecem a literatura infantil na grade curricular; normalmente, ela é disciplina optativa, ministrada em horários nem sempre acessíveis aos alunos de pedagogia ou de letras.
Mas se o ensino tradicional deve ser revisto, pois mata o leitor, como então devem ser ministradas as aulas, como escolher os livros, como trabalhá-los e como avaliar?
Esses são questionamentos que permeiam a prática docente. Um ponto relevante nestas questões é a intuição, a sensibilidade do educador. Ao indicar um livro, o professor deve conhecer seus alunos, perceber seus interesses. Em uma sala de aula, existem muitos gostos, muitas expectativas em relação à estória -- por esta razão, é importante que o professor esteja consciente de que ao escolher um certo gênero literário, este, certamente, não atingirá o interesse de todo o seu público. Há alunos que preferem estórias policiais, outros narrativas mais românticas, alguns se fascinam pelas estórias de ficção científica e assim por diante. É necessário que o repertório do professor seja diversificado, para que ele possa atingir um número maior de alunos. Claro que para trabalhar todos os gêneros literários é fundamental que o docente possua um mínimo de embasamento teórico, para que não cometa incongruências.
Há a necessidade de que o educador perceba que "Quando se escreve, instaura-se um jogo entre leitor e escritor. Um jogo verdadeiro, porém ambivalente, repleto de segredos" (Prieto, 1999). O papel do mediador da leitura é desvelar os enigmas, tendo ciência de que o texto literário permite múltiplos olhares e, por isso, distintas interpretações.
Na literatura, há a representação simbólica de uma luta, o sentimento de competição que se manifesta pela sua linguagem cifrada, obscura e enigmática, ou seja, pelo jogo de palavras no qual o leitor é o adversário. O professor deve incentivar a participação da criança, fazê-la perceber as várias nuanças do texto literário e estar aberto às diferentes leituras, pois o texto literário não é hermético e possibilita múltiplas leituras de acordo com a vivência e as experiências do leitor.
Aguçar os cinco sentidos tradicionais (ou os doze sentidos postulados por Rudolf Steiner) é essencial para ser um bom leitor. Cada leitor fará a sua recepção, de acordo com o seu repertório, é uma postura de vida. Para Lúcia Góes (1996):
"Ler é relacionar cada texto lido aos demais anteriores (textos-vida + textos lidos) para reconhecê-los, signicá-los, assimilá-los; processo que dota o Leitor da capacidade de Ad-mira-ação (olhar que aprende a apreender) e o torna leitor sujeito de sua própria História. O ato de leitura é revolucionário, pois transforma o leitor passivo em ativo, um co-autor, doador de sentidos."
Este é o grande desafio do professor, estimular em seus alunos o olhar de ad-mira-ação, formar o leitor. E que me perdoem os docentes mais conservadores, não é com um ensino tradicional, com a retalhação de um texto literário que se vai conquistar e formar um leitor. Para tanto é necessário que haja cumplicidade, um tecer na preparação das aulas, um envolvimento de almas.
E se um professor questionasse: por onde começar? Eu responderia com muita tranqüilidade, pelo começo, pela capa. A capa de um livro é repleta de mistérios a serem desvendados, pelo professor e pelo aluno. A capa e quarta de capa contêm índices muitos sugestivos da estória.
Ana Maria Machado
História meio
ao contrário

Ática, 1978
O título da obra antecipa um pouco a própria estória, é só recordar de João e Maria (o conto dos dois irmãos), História meio ao contrário, de Ana Maria Machado (por que será que é meio ao contrário, não inteira?), A maior boca do mundo, de Lúcia Pimentel Goés (de quem será a maior boca? Do jacaré? Da baleia? No final, o leitor descobre que a maior boca do mundo é a boca da noite...) Claro que existem livros cujos títulos são bem enigmáticos, como
Lúcia Pimentel Góes
A maior boca do mundo
Ática, 1984
Audrey e Don Wood
Clara Manhã de
Quinta à Noite

Ática, 1996
Clara manhã de quinta a noite, de Audrey e Don Wood, não sendo possível prever a estória, porém instigam a curiosidade infantil e a adulta também. A criança deve ser estimulada a raciocinar, imaginar, e nada melhor do que fazê-la participar por meio do desvelamento do título. As imagens que compõem a capa e quarta de capa também são, na sua maioria, sugestivas. Pode aparecer uma cena interna do livro, ser lúdica, antecipar o protagonista e assim por diante. Outro ponto fundamental é fazer que a criança se habitue a buscar e reparar na autoria, escritor e ilustrador. Ela conhece algum outro livro daquele escritor? Qual? E do ilustrador? Ele tem os mesmos traços nos desenhos?
Os passos seguintes estão relacionados com a própria efabulação, ler/contar calmamente, com entonação, ritmo, emoção. Nada mais belo do que o olhar atento de uma criança como quem pede quero mais! É relevante perceber que a cada leitura, a cada viagem, o leitor vai ampliando seu repertório e, ao final de algum tempo, uma estória lida/ouvida meses antes, já possui mais significados que foram fornecidos por outras narrativas e pela própria vivência do leitor. Um livro que conte a estória de um cavaleiro será mais significativo para quem já cavalgou, a de pescaria para quem já teve contato com uma vara, anzol, isca, etc. Cada leitor fará a SUA leitura, fará a sua viagem no mundo imaginário.
Uma dúvida que permeia muitos docentes: deve-se trabalhar a língua através da literatura ou ela deve ser somente fruição? O trabalho da língua está implícito na leitura e na observação. A criança lendo/ouvindo compreende que os fatos seguem uma seqüência lógica, uma lógica interna do próprio texto.
Cecília Meireles
Ou isto, ou aquilo
Nova Fronteira
Tomando-se por referência um poema de Cecília Meireles, Jogo de bola, logo perceberemos que este é um poema para ser lido em ritmo acelerado, como a bola que rola, como o jogo de bola. Que tal se a turma toda ler em voz alta? Pode-se recortar o poema em frases e as crianças podem compor o seu próprio poema e depois comparar com o da poetisa. Ao remontar o poema, as crianças devem perceber que algumas frases iniciam com letra maiúscula e que há rimas ligando os versos. Os alunos vão construindo e percebendo como a linguagem escrita se processa.
Com outro poema da mesma escritora, Bolhas, por exemplo, a criança vai percebendo a rima, a construção das palavras, da mesma forma que no poema anterior. Além disso, se o professor recortá-lo, a criança deve perceber que há coerência entre os versos, a bolha está na mão de quem trabalha, não no galho ou na rolha! E qual criança não brincou com bolha de sabão? É uma boa brincadeira para a hora do recreio, as crianças vão se divertir e vivenciar as bolhas que brilham, espelham e se espalham.
Estas são algumas das muitas atividades lúdicas que podem ser feitas com os alunos, basta o professor ter um pouco de criatividade e valorizar a sua intuição. O mesmo pode ser feito com letras de músicas que sejam conhecidas pelas crianças, elas vão aprender e apreender com mais naturalidade a codificação e a decodificação.
E quanto a avaliação? Este é um ponto polêmico. Como mensurar a interpretação se, muitas vezes, ela é subjetiva e permite diferentes olhares? Quem sabe contar os olhares de êxtase, os sorrisos encantadores... Na verdade, formar um leitor é um processo lento, a longo prazo e contínuo. Se tiver que atribuir uma nota às crianças, reflita antes que nota você se daria como professor, afinal de contas estará avaliando seu trabalho. A avaliação é mais um aspecto legal. Na dúvida, dê A para todos! Use o bom senso!

Considerações Finais

É de conhecimento geral que o papel da escola é formar, mas a forma como forma, informa, deve ser questionada pelo corpo docente, pela coordenação pedagógica enfim, por todas as áreas que estão direta ou indiretamente ligadas ao setor educacional. Neste artigo, procuramos analisar criticamente o ensino da literatura infantil no âmbito escolar, porém temos ciência que criticar por criticar é um ato neutro, pois não promove mudanças. A solução, por nós encontrada, foi a de refletir a respeito do ato pedagógico, do ensinar e, por conseqüência, do aprender no que tange à Literatura Infantil e elaborar algumas sugestões de prática pedagógica. O importante é perceber que esta reflexão deve permear todas as esferas do saber, possibilitar a análise do ensino atual e promover novos e múltiplos olhares.
O ensino tradicional ainda é uma constante nas salas de aula. É responsabilidade do educador romper com a barreira do tempo e dar um salto à modernidade. Não queremos, com isso, induzir o docente a agir desta ou daquela maneira, mas que ele mesmo encontre o seu modo de ensinar, que reflita sobre sua ação e, principalmente, nas conseqüências dos seus atos. Se o ensino tradicional na Literatura Infantil se mostra inadequado, cabe ao mestre, no sentido lato do termo, encontrar meios de atingir seus objetivos sem desconsiderar que a literatura é arte e, como tal, não comporta regras rígidas. Com a arte se educa para a sensibilidade, para a reflexão crítica, para a vida.


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* NOTA DA AUTORA: Sentido de tato, da vida, do movimento, do equilíbrio, do olfato, do paladar, da visão, do calor, da audição, da palavra, do pensar, e, finalizando, sentido do eu. [volta]


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AMARILHA, Marly. Estão mortas as fadas? Literatura infantil e prática pedagógica. Petrópolis RJ: Vozes; Natal: EDUFRN, 1997. :: ARROYO, Leonardo. Literatura infantil brasileira. São Paulo: Melhoramentos, 1990. :: CARVALHO, Bárbara. A literatura infantil. São Paulo: Global, 1989. :: GÓES, Lúcia Pimentel. Olhar de descoberta. São Paulo: Mercuryo, 1996. :: PIETRO, Heloísa. Quer ouvir uma história? Lendas e mitos no mundo da criança. São Paulo: Angra, 1999.
Dobras da Leitura
Ano IV - N.º 16 - set.out. 2003
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