Texto publicado nos Anais do
Seminário Nacional de Literatura Infantil e Juvenil, coordenado por
Maria Lúcia Góes e Maria dos Prazeres Mendes. Câmara Brasileira do
Livro: Salão Internacional do Livro de São Paulo, 1999.
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Níveis de atuação
crítico-criativa face ao
texto literário juvenil
Maria dos Prazeres Mendes
Pontifícia Universidade Católica (PUCSP)
Universidade de São Paulo (USP)
Mais do que pensar a Literatura Infantil/Juvenil como gênero sustentado pelo receptor
(que ao crescer a abandona), cabe-nos propor a boa literatura (sem outras adjetivações),
repropondo (como tantos críticos já fizeram, sob outros enfoques), a qualidade estética,
como um dado de fruição, sem prejuízos que a delimitem e confinem a uma camisa de força
estabelecida pelo e no seu uso. Almejar a criança e/ou o jovem, é, ao final, desejar a fruição
de uma mente via criatividade e imaginação, como são os desígnios da Arte, que acabamos por
perder ao longo de nosso longo e penoso caminho de aprendizado cartesiano.
Ter consciência do fenômeno da linguagem, de suas implicações, nos conduz a uma nova maneira
de pensar a nós mesmos e, portanto, de pensar o significado e a dimensão do que chamamos de
processo educacional.
Se o universo não é constituído, nem se move através de uma estruturação mecânica,
repetitiva e previsível, é preciso reconstruir nossa mente __ e por extensão oferecer
esta possibilidade ao educando __ na dimensão complexa da diversidade da cultura
humana que põe por terra a objetividade ou unicidade do conhecimento. O mundo em que vivemos é
uma criação simbólica e o educando não pode ser, neste contexto, um mero observador, mas deve
ser, isto sim, um sujeito atuante, de ação e interação multidimensional.
Caracterizada na sua dimensão produtiva, a conduta do educando é marcada pela capacidade
crítica de construir novos signos e novos recortes de conhecimento, habilitando-se para assumir
racional e auto-controladamente o seu papel de agente. Como conseqüência, tanto no ação quanto
na representação, o educando domina os fenômenos em sua regularidade e efetiva instrumentos
para com eles interagir, conforme sua decisão.
Na sua dimensão reprodutiva, acontece ao contrário, quando suas idéias determinam a conduta
de modo a conformá-la ao pré-determinado pelos signos produzidos no passado, levam-nos a
interpretar as relações de produção da maneira que convém aos propositores originários,
os quais guardam com elas uma relação de alteridade e autoridade (Lauro Silveira).
Prevalece, em nosso ver, muito desta segunda dimensão em termos de escolaridade.
Cumpre-nos como educadores conscientes das mudanças acima propostas, mudarmos esta relação
de coerção.
Falando-se de linguagem e usuário, em contexto de aprendizagem, cumpre confrontarmos
noções de leitura que, em questão de aquisição de conhecimento, é ponto de partida para diversas
sistematizações do saber e do ensinar.
Poderíamos, em um primeiro momento, definir leitura como um processo de mudança de caráter
dinâmico entre leitor e texto. Esta dinâmica pode-se estabelecer como instrumento civilizatório
de reflexão e compreensão da realidade, podendo se constituir num fator de liberdade e
transformação dos homens. A leitura aqui, exige descoberta e recriação. Coloca-se como produção
e sempre supõe trabalho do sujeito-leitor. Ela é um modo de conhecer e praticar cultura,
exigindo aguçamento da consciência crítica.
Outro enfoque seria aquele dado ao procedimento e formação de cada indivíduo, mudados
pelo ato de ler e mediados pelo educador. A verdadeira educação é aquela que proporciona
o desencadear do processo criador latente na criança e no jovem e os orienta numa determinada
direção. A maneira de estimular a criação artística é preparar o ambiente e despertar na criança
o desejo de criar (Vygotsky).
Cremos ser esse o direcionamento de um trabalho feito com seriedade, imenso esforço,
de grande embasamento pedagógico, feito de momentos de reflexão e aprofundamento do ato de
efetivar a leitura como instrumento de sensibilização para a Arte e desenvolvimento de apreensão
do universo pelo educando.
Passamos a demonstrar a validade dessa hipótese ao longo deste trabalho,
selecionando algumas obras que possam ter o jovem como leitor, levando-se em conta níveis
de atuação crítico-criativa, de produção e de leitura.
Comecemos pela obra de Ivan Ângelo, autor de obras como
A Festa (1976),
A Casa de Vidro (1979),
A Face Horrível (1986) e
Amor? (1995),
para público adulto, com discurso muitas vezes fragmentado, fruto de experiências formais
que criam o inusitado e a perplexidade em leitores atentos e críticos, que passa a se dirigir
ao leitor jovem quando da publicação de
O Ladrão de Sonhos e outras histórias (Ática, 1996, 3ª edição) e
Pode me beijar se quiser (Ática, 1997).
Os temas enfocados nesta obra mais recente são o relacionamento afetivo e a descoberta da
sexualidade, abordados em lances de romantismo e realismo, ao retratar flagrantes do
cotidiano de um menino às voltas com suas descobertas, em cenário de vila rural e fazenda.
Perguntaríamos: havendo diferenciação do endereçamento do objeto artístico, ao estipular-se
o público-alvo, molda-se a mensagem, a construção do discurso, ao receptor?
Ivan Ângelo responde muito bem a essa questão, em entrevista publicada no prólogo da obra
O Ladrão de Sonhos
(coleção Rosa dos Ventos, endereçada aos jovens). Perguntado como seria escrever para essa
geração, responde: «Não escrevi pensando em "facilitar" a leitura para eles, mas sim
fazer com que abrissem suas emoções, escrevi para a sensibilidade à flor da pele que os jovens
possuem. O jovem gosta e pode ler de tudo.»
Nesse sentido, abre-se a gama de escolhas, perde-se o endereçamento castrador de uma
literatura programática que quer convencer o jovem a ler, usando o texto como camisa de força,
ao ir de encontro aos anseios desse público em formação (no duplo sentido), almejando preencher
suas necessidades, ora servindo como alerta, ora como catarse. O grupo de escritores que moldam
sua produção a tais exigências é muito grande.
O grande mérito de Ivan Ângelo é ter ido além dessas receitas pré-elaboradas e já gastas
pelo uso e abuso, em que o valor cultural solapa o valor estético. No dizer de nosso autor:
«Escrevo para mexer um pouco com a cabeça das pessoas, escrevo contra o tirano e o opressor
que está dentro das pessoas. Escrevo também contra uma certa maneira de escrever.»
Ivan Ângelo parece compreender e pôr em prática a afirmação de Bakhtin de que a palavra
deseja audição, compreensão, resposta e deseja, por sua vez, responder à resposta e assim
ad infinitum. A palavra entra num diálogo em que o sentido não tem fim. Completaríamos:
o que importa, portanto, não são as informações mensageiras do autor, mas sua capacidade de
imprimir à obra a abertura que estimule o leitor a prosseguir sua criação. Quebrar expectativas,
interagir com seu leitor, a partir de narrativas instigantes, sem serem prolixas, eis o desafio
que é bem resolvido por Ivan Ângelo. Para ele o bom escritor é aquele que contribui intelectual
e socialmente para com a comunidade, que conhece o que já foi feito em literatura e procura
avançar. «Quando um escritor adota um ponto de vista crítico sobre determinadas questões
e a sua literatura tem força, o leitor vai tomar uma posição que geralmente é a da adesão.»
Essa condição que nosso autor atribui à literatura (ter força), significa, a nosso ver,
o domínio da técnica de trabalho com a palavra. O que conjuga ilusoriamente o artista ao real
que tenta representar, ao tentar alcançar a verdade, é a técnica, a tentativa de dominar a
matéria para que seu desígnio se faça criação. Trata-se de um fazer que não é espontâneo, mas
conquistado (Leyla Perrone Moisés, Flores da Escrivaninha, Cia. das Letras, 1990).
Essa técnica que Ivan Ângelo emprega, faz-se em termos do emprego do monólogo interior
ou o discurso indireto livre. Tem-se a impressão de que, mesmo em terceira pessoa, a personagem
é quem "dialoga" (mesmo quando fala sozinha) com o leitor, ainda que use frases desconexas
ou que indicie um discurso sugestivo entrelinhas, ou que alterne longos blocos narrativos
e questionamentos de uma única linha. De qualquer modo, processa-se o discurso de caráter
interativo em nível de reflexão e emotividade. Sua narrativa possui três marcas que, unidas,
dão coesão à sua escritura: a presença do "contador de causos", que caracteriza o conto como
de "marcação teatral", e a empostação da oralidade (Walnice Nogueira Galvão).
Colocaríamos aqui em contrapondo Lygia Bojunga Nunes, quando cria, em uma de suas obras
mais recentes,
Seis Vezes Lucas
(Agir, 1995), o protagonista, também menino, às voltas com suas descobertas, mas, diferentemente,
o faz em nível do imaginário, diluindo o real, introjetando-o e anulando magistralmente seus
limites.
A contribuição de Lygia Bojunga Nunes faz-se no reinvidicar à Literatura Infanto-Juvenil
a reflexão sobre sua natureza e função, o status do romance contemporâneo da chamada
literatura para adultos. Faz isto em movimento duplo: rarefação da estória e a tendência à
auto-reflexividade: o interesse do leitor desloca-se do acontecimento terminado e
longíquo ele que o suporta, para o discurso que diz eu e se enuncia agora
(Rousset, 1976: 27). A representação deste eu que se enuncia e enuncia o seu enunciar:
poli-locução (Salles, 1990: 87).
Estes níveis de leitura, do Autor que se lê, que lê o Personagem-leitor incorporado
à escritura e que se dá a ler, serão apreendidos nas obras de Lygia Bojunga quando da análise,
em contínuo paralelo, já que nos importa captar o caráter dialógico de sua escritura como
marca de abertura que leva à ampliação de respostas, que acabam por redimensionar a própria
__ e primeira __ visão do Autor.
Para evidenciar esses dados, selecionamos
Paisagem
(Agir, 1992). Esta obra foi composta sob o desígnio da autora, expresso no prólogo, de juntar
ao seu lado escritora sua reflexão sobre o seu lado leitora. Neste momento de criação de Lygia,
percebemos sua produção literária, incorporando nesta um grau maior de literariedade,
em relação à obra de Ivan Ângelo. Lygia articula níveis de escritura, diluindo os papéis do
personagem e do narrador em permanente troca. Com o perfazer do clima fantástico, gera enigma
e envolvimento do leitor em postura não mais de identificação tão somente, mas de desvendamento.
Em
Paisagem,
o enredo tecerá uma questão que serve mais como despite do que como ponto de referência:
a paisagem será ponto de intersecção de diferenciadas visões ao longo da obra. Pergunta-se
como e porquê da coincidência de o mesmo objeto ser veiculado por diferentes personagens
e pela narradora, ou, melhor dizendo, a personagem-escritora que passaremos a designar
como Autora. Trata-se da criação de uma personagem que se coloca como autora, mas que acaba
por se interseccionar com a escritora Lygia, em seu processar criativo.
Vejamos como se processam essas diferentes visões. A Autora (não tem nome) recebe cartas
de seu leitor __ Lourenço __ dizendo das afinidades que os unem
(trama I). Em uma dessas cartas, Lourenço relata um sonho que teria tido com uma paisagem:
a mesma paisagem incluída em um conto da Autora, ainda por publicar, guardado em sua gaveta,
só de conhecimento dela. Inicia-se aqui o suspense e a logicidade do fantástico com o
conseqüente estranhamento da Autora. A partir daí leremos a mesma cena no relato de Lourenço
(via carta -trama 2): o relato da Autora que relê seu texto à busca das semelhanças,
notificando-nos do enrendo (trama 3). Trata-se da história de um casal que tem um
encontro nessa paisagem. Os antecedentes desse encontro: o Homem encontra a Mulher no metrô,
apaixonam-se, mas ela some. Reencontram-se em um teatro, onde ela, após passar estranhamente
da platéia ao palco, desaparece, não sem antes entregar-lhe um bilhete com um endereço.
Ao chegar lá, o Homem abre a porta e defronta-se com a paisagem. Seu estranhamento, medo
e suspense, nos são narrados pela Autora. Esta trama 3 voltará intercalada às cartas
de Lourenço, narrador também de eventos da trama 4, que envolve sua namorada Renata,
seu pai João e a irmã de Renata, a Menina-do-Lado, assim chamada por ser vizinha de Lourenço.
Ela é que havia desenhado a paisagem em uma cartolina, que, ao ser vista por Lourenço,
propicia o sonho. Este desenho, por sua vez, é mostrado pela menina à Autora, que em contínuo
estranhamento, procura por uma explicação, voltando ao seu texto e elucidando agora a
continuação e possível desfecho da trama 3.
As várias intercalações do texto, o encaixe de narrativas que acabam por se interseccionar
ao final, quando a Autora reúne todos os personagens na mesma paisagem, incluindo a si mesma,
expõem o caráter semiótico de variedade de interpretantes sucedâneos e inter-dependentes:
o interpretante de um momento torna-se signo em outro, sendo mesmo traduzido em códigos
diferentes: no caso, a paisagem vista por Lourenço em um desenho é revivida em imagens de sonho
e traduzida em palavras (na carta): a mesma paisagem imaginada pela escritora também tem seu
registro no código verbal; nós, leitores, ao lermos esse código, acabamos por traduzi-lo
em imagens, tal seu caráter cinematográfico, advindo da descrição pormenorizada de um olhar
que caminha pela paisagem. Do interpretante ao intérprete: a cadeia significativa da semiose
faz-se em exercício de intertextualidade.
«Quando mais cresce o signo em interpretantes, mais cresce o objeto dinâmico ou real.
Devido à incompletude do signo, jamais poderemos afirmar que conhecemos o real inteiramente
e que possuímos a verdade totalmente. Nós também somos signos e estamos incessantemente imersos
nesse constante movimento de procura.» (Santaella, 1992: 192)
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