
* texto apresentado em 2003, no projeto Rodas de Leitura,
do Programa de Mestrado em Lite-ratura Brasileira da Universidade
Federal do Ceará - UFC 
* foto: www.revistaparadoxo.com 
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como ler Clarice Lispector?
Miguel Leocádio Araújo Neto *
Professor-Substituto de Teoria da Literatura (UFC)
Como ler um autor? Como ler uma autora, se o nome impresso na capa e
na lombada de seus livros é Clarice Lispector? Na pergunta, que ressalta o interrogativo
“como”, pretende-se incluir também o “por quê”. Esta segunda pergunta (Por que ler um
autor?) pode ser interpretada como aquela que mobiliza a historiografia e a crítica
literárias a incluírem certos autores num cânone. As duas perguntas, aparentemente
elementares, não são fáceis de responder. E nem pretendemos respondê-las, mas deixar
que cada leitor forme suas hipóteses.
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Meus livros prediletos
A paixão segundo G. H.
é a obra que estudo há anos, desde a Iniciação Científica, na UFC.
É um livro denso e rico; sempre há algo o que descobrir nele.
Laços de família: o conto “A menor mulher do mundo”
é um dos mais poeticamente cruéis que já li.
A via crucis do corpo é a Clarice heterodoxa, surpreendente, inesperada.
A vida íntima de Laura
é um livro despojado e leve, em alguns momentos engraçado e reserva surpresas ao leitor.
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Os leitores da obra de Clarice Lispector vêm tendo sua “alma formada” pelos textos
(romances, contos, crônicas, livros infantis e outros), mas provavelmente também pela
imagem que tem sido formada da autora. Não só pela imagem, digamos, “material”, forjada
pela iconografia que dela se conhece, mas sobretudo pela imagem “imaterial”,
aquela formada por juízos críticos, classificações, interpretações, comentários que
a crítica criou, repetiu, consagrou e cristalizou, algumas vezes associando as duas
imagens e, freqüentemente, amalgamando uma visão da mulher-escritora Clarice marcada
por um presumido mistério, avizinhando à idéia de ser “inatingível”, com uma visão
de uma obra aparentemente de difícil leitura, beirando a incompreensibilidade, portanto
também inatingível.
Os jornais e revistas, em ocasiões como efemérides, relançamentos ou adaptações
de sua obra para outros meios de expressão, estampam fotos da autora. Junto com as fotos,
as manchetes trazem, freqüentemente, as palavras “mistério”, “angústia”, “bruxaria”,
“existência”, “medo” e termos congêneres. Seria esta a imagem que o público quer ver
da autora? É esta a Clarice Lispector que o público quer ler/ver nos livros por ler?
Comentemos alguns dos desdobramentos da imagem construída da autora.
A imagem da escritora de obra hermética é a que mais se associa à da obra
inatingível. Em sua única entrevista em TV, concedida a Júlio Lerner, em fevereiro de
1977, Clarice é perguntada se se consideraria uma “escritora popular”. Sua resposta
foi esclarecedora e irônica: “Chamam-me até de hermética, como é que eu posso ser
popular, sendo hermética?” No entanto, a popularidade da escritora sempre aumenta;
o episódio da venda dos direitos autorais da obra de Lispector para a Editora Rocco
nos dá a dimensão do “valor” mercadológico da obra. Ora, uma obra, enquanto “produto”
a ser “consumido”, só tem um alto “valor” de mercado, quando é certa a sua aceitação
junto aos consumidores. Seria interessante, então, redimensionar a questão do hermetismo.
Como poderia uma autora hermética ser tão vendida e, provavelmente, tão lida?
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Livros sobre Clarice Lispector
O leitor segundo G. H., de Emília Amaral (Ateliê Editorial, 2005). Uma leitura renovada de A paixão segundo G. H., que se preocupa com as questões de recepção do texto clariciano, associadas aos modos da criação da escritora.
Clarice Lispector: uma leitura instigante, de Telma Maria Vieira (Annablume, 1998). Investiga a idéia de leitor-modelo a partir das indicações presentes na própria obra de Clarice, fazendo com que o leitor do ensaio se veja conscientemente refletido, pelo menos em parte, na obra.
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Uma outra imagem de Clarice é a da escritora existencialista. Esta imagem,
tornada popular, nem sempre corresponde àquela que tem seus vínculos com a filosofia
existencialista em seus variados matizes. Ainda mais se considerarmos que há também
uma imagem do intelectual e do artista existencialista, divulgada a partir da cena
“existencialista” parisiense dos anos de 1950, na qual se incluem não só pensadores
e escritores como Sartre, Simone de Beauvoir e Albert Camus, mas também compositores,
cantores, jornalistas, artistas plásticos e simples admiradores da tendência.
Naquele momento divulgava-se uma imagem do existencialista entediado do mundo,
do intelectual niilista, etc. Ou seja: estamos diante de um tipo de divulgação que,
para popularizar uma representação (que também tem um fundamento mercadológico)
falseia ou simplifica o sistema de pensamento desenvolvido por alguns filósofos.
Clarice é também associada a esta segunda maneira de “ser existencialista”.
Talvez a mais terrível de todas as imagens de Clarice seja a da escritora
“alienada”. Olga de Sá, em artigo no jornal Nexo (julho de 1988), inicia um texto
lembrando que a obra clariciana, acusada de ser “alienada”, teria gerado em Clarice
o desejo de se justificar, através das crônicas, pelo fato de não saber escrever de
“uma forma social”. A partir daí, perguntaríamos: onde estaria a escritora “alienada”?
Tal acusação é, no mínimo, injusta, se considerarmos vários textos claricianos
nos quais comparece um profundo sentimento de justiça, inclusive o da justiça social,
o que revela a preocupação e a consciência dos problemas sociais do país em seu tempo.
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A procura da palavra no escuro, de Gabriela Lírio Gurgel (7 Letras, 2001). Elaborado de maneira inventiva e aproximando-se da própria escrita clariciana, a autora soube captar o universo ficcional de Clarice no que ele tem de metáforas insólitas, o que torna a sua leitura um prazer intelectual.
A tessitura dissimulada: o social em Clarice Lispector, de Neiva Pitta Kadota (Estação Liberdade, 1997). Investiga um tema pouco explorado nos estudos sobre Clarice, mas a autora o faz com habilidade e oferece um trabalho bastante percuciente da presença de aspectos de uma discussão sobre o social na obra clariciana.
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Mesmo com todos estes percalços, os estudiosos da autora resistem e, felizmente,
ensaiam algumas tentativas renovadoras, que, se não desfazem a difícil imagem já formada,
são persistentes na crença em torno da necessidade de revisões constantes de uma obra
tão instigante.
Por outro lado, não pretendemos afirmar que o que se escreveu sobre Clarice,
mesmo tendo como escopo uma certa mitificação, está superado. Muito pelo contrário.
Nos mais diferentes estudiosos, encontram-se informações importantes para quem pretende
investigar a obra da autora. Tampouco se pretende formar uma outra imagem que apenas
substitua a imagem anterior, carregada pelo termo da inatingibilidade.
Não cremos que o leitor de Clarice Lispector deva, com sua alma já previamente
formada ou de-formada por leituras outras que não a da sua própria obra, buscar somente
a Clarice psicológica ou a existencialista ou a hedeggeriana ou a sartreana,
mas pensamos em todas as Clarices escritas e inscritas nas obras. Busca-se também
a Clarice social, a Clarice histórica; mas, de todas elas, a Clarice plural e universal,
e sobretudo a Clarice que não deixou uma obra inatingível.
Voltamos, então, à pergunta inicial. Afinal, como ler Clarice Lispector?
Para uma pergunta tão vaga e problemática, só teríamos uma resposta incompleta.
Mas insiste-se: Como ler Clarice Lispector? Destituindo-se dos pré-conceitos e
deixando sua alma de leitor ser formada pela palavra de Clarice. Palavra cujo
“mistério” só será revelado depois da leitura.
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