A narrativa poética
de Mario Quintana: Pé de pilão
Carla Laidens
Graduada em Letras pela UFSM e pelo
Centro Universitário Ritter dos Reis (2003),
Mestranda em Teoria da Literatura - PUC-RS.
Pé de pilão, carne seca com feijão! Uma duas angolinhas, finca o pé na pampolinha. O rapaz que jogo faz?
Cecília Meireles
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O título da obra de Mario Quintana retoma um dos versos de uma cantiga popular africana. O jogo a que se refere o autor no título de sua obra chamava-se belisco, e era muito apreciado pelas crianças brasileiras dos séculos XVIII e XIX. Cecília Meireles (1980: 30) cita a brincadeira em seu livro de memórias Olhinhos de gato. Gilberto Freyre (1966: 408) reproduz integralmente os versos do jogo:
Uma, duas angolinhas Finca o pé na pampolinha O rapaz que jogo faz? Faz o jogo do capão. O capão, semicapão, Veja bem que vinte são E recolha o seu pezinho Na conchinha de uma mão Que lá vai um beliscão.
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A brincadeira consistia em, quando se pronunciasse o último verso da cantiga — “que lá vai um beliscão” —, beliscar as pessoas envolvidas. Cada criança citava um verso e àquela que proferisse o último, reservava-se o grau de maior sofrimento, pois esta era agarrada por todas as outras crianças, as quais deveriam lhe bater com força contra o chão, recitando os versos finais da cantiga:
É de rim-fon-fon, É de rim-fon-fon. Pé de pilão, Carne-seca com feijão.
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O texto poético infantil carrega a conotação de jogo semelhante às cantigas, aos travalínguas e às parlendas. As rimas, a sonoridade, as aliterações, o preenchimento das imagens transmitidas pelas metáforas constituintes são recursos da linguagem que se aproximam do lúdico e conquistam a criança por tornar sua leitura uma espécie de jogo, uma brincadeira com as palavras.
A obra Pé de pilão, publicada originalmente em 1968, insere-se no terceiro período de obras infanto-juvenis publicadas no Rio Grande do Sul, iniciado em 1959 e finalizado em 1990 . De acordo com Diana Maria Marchi (2000: 150), Mario Quintana foi o único poeta gaúcho do período a dedicar uma publicação em versos para o público infantil. Segundo a autora, utilizando com liberdade o ritmo, a rima externa e interna, a associação de idéias e sons, a poesia de Quintana proporcionou à criança uma nova forma de literatura:
O leitor ao qual o poeta se dirigiu está representado por uma criança brincalhona e crítica que, apesar de sua condição ainda desigual em relação ao adulto, encontra na poesia um veículo em que as normas da sociedade possam ser questionadas, com irreverência, com prazer, sem idealização [...], apontando para as possibilidades criadoras da palavra e para os relacionamentos transformadores entre os elementos da realidade que dela decorrem [...] (2000: 152).
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Pé de Pilão é um texto poético narrativo, repleto de acontecimentos fantásticos, de imprevisibilidades, de transformações e imagens significativas, capazes de aguçar o imaginário do pequeno leitor. “Fadas, Nossa Senhora, poderes mágicos e milagres foram entretecidos num mesmo poema narrativo, provocando a ruptura dos elementos que estruturam os contos de fada tradicionais, adicionando elementos da crença popular brasileira” (Marchi, 2000: 150). Ao mesmo tempo em que se compõe de cenas cotidianas do universo infantil, trazendo questões como a família, a religiosidade, as regras sociais, a escola, auxiliando o infante a ampliar seu conhecimento de mundo.
Para Mario Quintana, as crianças têm uma poética própria, visivelmente explorada em Pé de pilão, como nos revela o próprio poeta:
Eu comecei a fazer rimas, e a rima puxou o enredo: comecei com aquela rima do pato-sapato, e fui indo em frente, quando vi, notei que tinha uma história pronta [...] as crianças parecem que gostaram, e elas são os críticos mais terríveis que eu conheço [...] gostam de rimas do tipo “Gabriela, cara de panela” ou “Quintana, cara de banana”. É a poética das crianças . (apud Hohlfedlt, 1983)
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Pé de pilão não se constitui em um texto de formato tradicional dentro de um esquema configurado em início, meio e fim. O texto apresenta inicialmente os acontecimentos que correspondem ao meio da história para, em um segundo momento, retomar aquilo que corresponde ao seu início.
Essa subversão às normas, sobretudo no período de sua escritura, demonstra a importância de Pé de pilão como obra literária. Mario Quintana, além de ser um dos precursores da narrativa poética destinada à criança, também inovou na forma narrativa que o próprio autor denominou, em entrevista a Antonio Hohlfedlt (1983), de flashback. O poeta também cita que no período em que escreveu a obra — 1948, mesma época da escritura de O batalhão das letras — a Editora Globo teria deixado o texto guardado na gaveta por não ter compreendido suas inovações textuais. Pé de pilão só teria sido lançado vinte anos depois, por se tratar de uma obra incompreendida em seu tempo.
Pé de pilão narra a história de Matias, um menino transformado em pato por uma bruxa malvada, que inicia uma odisséia: a tentativa de retorno ao lar e o reconhecimento da avó. Para que isso ocorra, deve transitar entre espaços, vencer adversidades, até encontrar seu lugar no mundo, reinstaurando desse modo a harmonia inicial rompida.
Um dos tipos predominantes na poesia infantil brasileira são as próprias crianças e animais. Os animais, ao mimetizar atitudes humanas, exploram o lado cômico e favorecem o ludismo na poesia infantil. Bichos são apropriados à literatura infantil, sobretudo os patos, como observa Regina Zilberman (2005: 131-2):
[...] porque a partir de algumas de suas características, possibilitam simbolizar a própria criança. [...] Patos, porém, são assíduos porque contam com um precursor ilustre, o protagonista do conto de Hans Christian Andersen, portanto, vinculam-se ao acervo e à tradição da literatura infantil.
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Quanto à forma, Pé de pilão possui 159 dísticos, estrofes compostas de dois versos regulares, com ritmo e cadência binários, escritos em redondilha maior. O metro curto e o ritmo dão movimento ao texto, fazendo com que a criança não se canse com a leitura, apesar da longa extensão da narrativa.
A tonicidade é distribuída regularmente na sétima sílaba de cada verso, recurso oriundo do folclore, sobretudo das cantigas. A musicalidade, a repetição de fonemas e o ritmo auxiliam no encadeamento da história. As estrofes curtas finalizam uma idéia que se soma à estrofe posterior, recuperando-se assim a forma da narrativa oral, contribuindo para a memorização do poema.
Outro recurso importante utilizado pelo poeta é o emprego de palavras incomuns, que causam estranheza e aguçam a curiosidade das crianças, dando ao texto um tom jocoso, como: chichisbéu, encoscorada, desgranido, paspalhão, sacripanta, relambória, rechonchundo...
A valorização do aspecto lúdico da linguagem impulsionou a expansão da poesia endereçada à criança, introduzindo nos versos e nas estrofes, a perspectiva da diversão, do jogo e da brincadeira. Para Nelly Novaes Coelho (1983: 671):
Quintana funde, nesse fluxo poético, reminiscências de velhas estórias; ocorrências do dia-a-dia infantil, tropelias de animais; feitiçarias e milagres de N. Senhora [...] tudo isso conjugado habilmente numa corrente sonora e rítmica que tem tudo para atrair e encantar as crianças como um jogo divertido e variado [...] e a levá-las a brincar também com as palavras e imagens que dela resultam [...]
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Associada ao texto, a ilustração oferece à leitura de Pé de pilão uma orientação para o leitor na concretização do livro, através da interação com o texto. Para Vera Aguiar (2004):
Hoje, no mundo em que vivemos de extremos apelos visuais, [o livro] conta com diagramação e ilustrações tão importantes quanto a mensagem escrita. Na verdade temos duas linguagens, uma verbal e outra visual, que dialogam entre si, e o jogo de sentidos que daí emerge dá-se à fruição do leitor.
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Desde sua primeira edição, a narrativa poética de Quintana recebeu três diferentes versões ilustradas, oferecendo distintas representações imagéticas ao leitor, a saber: a versão ilustrada por Luís Antônio Pires, pela editora Vozes em 1968; a versão ilustrada por Edgar Koetz, pela editora L&PM em 1980 e a versão ilustrada por Gonzalo Cárcamo, pela editora Ática em 2003.
De acordo com Ricardo Azevedo (apud Camargo), diante de um texto poético não há uma convenção em que o ilustrador possa se apoiar. Resta a ele apenas um caminho: inventar arbitrariamente uma possibilidade de interpretação visual. A partir de um mesmo texto de ficção, criam-se trabalhos diferentes que podem representar soluções pertinentes e interessantes. Para o ilustrador e autor, as imagens que se dispõem a ilustrar textos de ficção e de poesia — a literatura — devem criar uma espécie de ficção visual, totalmente subjetiva e cheia de elementos arbitrários, ampliando assim, conseqüentemente, o universo significativo.
As três propostas de interpretação visual para Pé de pilão propõem interlocuções absolutamente distintas. Luis Antônio Pires, ilustrador da primeira versão, tende a narrar a história através da imagem. A versão possui um grande número de seqüências repetidas, sobretudo do espaço, sendo modificados apenas alguns dos acontecimentos dentro das cenas narradas visualmente. Seu estilo, próximo ao naif, imita traços infantis.
A ilustração ocupa as duas páginas do livro. A cor de fundo interfere na leitura do texto. Apesar de haver um certo equilíbrio na disposição texto-imagem, a fonte utilizada é pequena e serifada, o que prejudica a visualização do poema. Uma vez que as imagens buscam narrar minuciosamente os acontecimentos, a leitura visual supera a textual.
A versão de Edgar Koetz para a obra elege alguns pontos a serem ilustrados. Koetz focaliza as imagens poéticas, dando importância ao que prefere salientar. O traço do ilustrador remete à gravura. Utiliza poucas cores, dando maior ênfase ao preto e branco, o que pode ser considerado um vazio a ser preenchido pelo imaginário do leitor, como sugere Walter Benjamin (1996: 241-2):
A gravura em branco e preto, a reprodução sóbria e prosaica, levam-na a sair de si. A imperiosa exigência de descrever contida nessas imagens estimula na criança a palavra. [...] Ela tem um caráter meramente alusivo e admite a cooperação da criança.
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As páginas do livro são brancas, em contraposição ao texto em preto. A fonte utilizada e os fragmentos do poema eleitos para aparecer em cada página, fazem com que o texto apareça tanto quanto a ilustração. A utilização da vinheta, ao mesmo tempo em que destaca a ilustração, funciona como marca de referência para a leitura. A ilustração de Koetz sugere mais que representa, deixando espaço para o imaginário do leitor.
A versão ilustrada por Gonzalo Cárcamo propõe uma interlocução maior entre texto-imagem, demonstrando maior preocupação com a enunciação gráfica. Do mesmo modo que Edgar Koetz, Cárcamo utiliza poucos cenários, dando maior ênfase às personagens. O traço do ilustrador tende à caricatura. As imagens são vibrantes, ressaltadas pela cor e pelo contraste. Texto e imagem apresentam-se equilibradamente. A fonte utilizada facilita a leitura do texto.
A ilustração é parte constituinte da obra literária destinada à criança e, da mesma forma que o texto, vindica uma leitura atuante. Quanto maior a bagagem imagética do leitor, o contato com diversas representações, maior sua capacidade de leitura e, por conseqüência, maior a constituição de seu imaginário. A leitura de Pé de pilão em suas diferentes versões ilustradas proporciona não somente o contato com a poesia e o fantástico, mas também o diálogo com diferentes representações imagéticas, ampliando o universo do leitor que se constitui dessa constante renovação.
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Referências Bibliográficas
AGUIAR, Vera. In: IV TRAÇANDO HISTÓRIAS: Mostra de Ilustração de Literatura Infanto-Juvenil. 50a. Feira do Livro de Porto Alegre. Porto Alegre: Câmara Sul-riograndense do Livro/ Museu de Arte do RS Ado Malagoli, 2004.
:: AZEVEDO, Ricardo. In: CAMARGO, LUÍS. Uma conversa sobre ilustração.
:: BENJAMIN, Walter. Livros infantis antigos e esquecidos. In: Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1996.
:: COELHO, Nelly Novaes. Dicionário crítico da literatura infantil/ juvenil brasileira: 1882-1982. São Paulo: Quíron, 1983.
:: FREYRE, Gilberto. Casa-grande senzala: formação da família brasileira sob regime de economia patriarcal. 14. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1966.
:: HOHLFEDLT, Antonio. Quintana autografa dois livros para as crianças hoje à tarde. In: Zero Hora, Porto Alegre, 5 nov., 1983.
:: MARCHI, Diana Maria. A literatura infantil gaúcha: uma história possível. Porto Alegre: Editora da Universidade/ UFRGS, 2000.
:: MEIRELES, Cecília. Olhinhos de gato. São Paulo: Moderna, 1980.
:: ZILBERMAN, Regina. Como e por que ler a literatura infantil brasileira. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.
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