
Thais Linhares, durante a Performance de Ilustradores do 8º Salão FNLIJ do Livro para Criancas e Jovens (2006).
thaislinhares.blogspot.com

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i l u s t r a d o r e s i n V i s í v e i s
Thais Linhares *
Quando uma criança puxa um livro da estante, ela o faz porque sua curiosidade foi atiçada. Algo na capa daquele livro,
na forma como seu título foi trabalhado, ou talvez a textura do papel, a tenha instigado a pegar aquela “caixa
de histórias”. Ao abrir o pacote, muito provavelmente, sua aventura prosseguirá, ao se ver diante de
assustadoramente lindas, ou lindamente assustadoras, imagens. Se ela ainda não souber ler, certamente irá tentar
ler através das figuras desenhadas, coloridas ou não, e, se ela já souber ler, também irá ler através do desenho,
aproveitando ao máximo os diversos tipos de linguagem (escrita e visual) do livro em mãos. Em uma obra com múltiplas
linguagens, como é um livro ilustrado, o leitor ganha de presente um enredo com várias histórias. Sabemos que um bom
livro cresce com a gente. A leitura se renova, quando, com mais idade, reabrimos o livro. Isto vale tanto para o
(bom)texto quanto para o (bom)desenho.
O leitores entendem, portanto, a importância do trabalho do ilustrador, o autor das imagens, para o sucesso de um livro,
e enriquecimento mútuo (do texto pela imagem, e da imagem pelo texto). Os editores também, tanto que investem muito
neste ponto. Escolhendo cuidadosamente o autor que irá ilustrar o texto. Não é raro escolherem um ilustrador bem
experiente para ilustrar o livro de um escritor iniciante, e assim “ajudar” na vendagem, na aceitação do público,
que reconhecerá a linguagem visual que já apreciam.
Os professores, ainda que infelizmente contem com pouquíssima orientação no campo das artes visuais, sabem que trabalhar
a imagem é um caminho mais direto, e com menos ruídos, à história pessoal da criança, do que se trabalhassem de
forma textual. Entendem que a ilustração é uma aliada poderosíssima quando se quer iniciar o jovem na prática da
leitura.
Por que então os órgãos de cultura não dão o menor valor aos criadores das belas imagens que compõem nosso patrimônio
cultural em ilustração?
Não valorizam porque não nomeiam!
Como autores que são, todos os ilustradores têm direito, garantido pela Lei N. 9610 de 1998 (Lei do Direitos Autorais),
de terem seu nomes creditados sempre que apresentadas suas obras. Entretanto, quando da divulgação das seleções
para compras, ou premiações, feitas pelos órgãos de cultura, nunca são divulgados os nomes dos ilustradores.
Apenas dos escritores. Detalhe: isto acontece mesmo nos livros “imagem”, em que a participação criativa da imagem
excede, às vezes muito, a do texto escrito. A gente fica até achando que o livro só foi feito por um autor,
o escritor, que deve ter feito tudo sozinho: pesquisado as referências, composto as cenas, desenhado, pintado,
editado graficamente... Ou, pior, fica parecendo que ilustrador não é, ele também, um autor. Autor das ilustrações.
Não citar, claramente, o autor da imagens desvaloriza o livro enquanto produto cultural e econômico. E pior, desvaloriza
o ilustrador enquanto profissional, criador e agente cultural. No final, é a cultura brasileira tratada com
desconsideração. Passa recado de que o livro e os criadores envolvidos no processo, não são dignos de serem sequer
reconhecidos.
O drama acabaria aí se não fosse outro bem pior, relacionado ao repasse dos direitos patrimoniais sobre à exploração
das ilustrações. Mas esse assunto, ainda que urgente, ficará para outro dia.
Por favor, atentem para o fato, de que a pessoa que coloca as cores no papel, não é necessariamente o sujeito oculto
da sentenças do escritor, nem mesmo uma entidade misteriosa cujo nome deva ser adivinhado pelo leitor,
após inúmeras pistas e "despistes". Ilustrador é autor, que tem de ter seu nome citado junto à sua obra,
nas listas do PNLD e do PNBE, nos projetos de leitura escolares, nas resenhas dos jornais e revistas, nos quadros
dos “mais vendidos”, nas chamadas publicitárias, nas entrevistas e lançamento, nos catálogos das editoras,
dos sebos e das livrarias.
* Thais Linhares
thaislinhares.blogspot.com
é editora, escritora, gravadora e, acima de tudo, ilustradora. Mas não é invisível.
Nota do Editor. Ainda é muito comum, nas diversas referências bibliográficas, a ocultação do nome do ilustrador.
Citações aos livros de literatura infantil, principalmente, e juvenil, assim podem ser feitas:

BUARQUE, Chico. Chapeuzinho Amarelo.
il. Donatella Berlendis. Rio de Janeiro: Berlendis & Vertecchia, 1979.

LINHARES, Thais. Vovó Dragão.
il. da autora. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.
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