
Açude em uma fazenda próximo a Xapuri/AC - biblioteca.ibge.gov.br

Texto produzido no Mestrado em Letras – Linguagem e Identidade da Universidade Federal do Acre (2006). 
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Leituras sobre identidades *
Iza Reis Gomes
Quando vim de minha terra Não vim, perdi-me no espaço
Na ilusão de ter saído. Ai de mim, nunca saí.

Machado de Assis
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A busca de identidade está sendo cada vez mais questionada e teorizada. Segundo o teórico Stuart Hall, “as velhas identidades, que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno, até aqui visto como um sujeito unificado” (2003: 7). Dessa forma, a idéia que se tinha de uma identidade única, enraizada, inabalável, sem mutações, não existe mais — pois, na perspectiva dos estudos contemporâneos, são processos de identidades que estão acontecendo, são várias posições que um sujeito pode ocupar na sociedade, ocasionando várias representações de si.
Stuart Hall afirma ainda que sobre idéias e representações — como gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade — consideradas estáveis, hoje percebemos quão sua solidez está abalada, transformando-se a partir dos discursos, da comunicação, das relações com os outros, da produção e construção de si e com os outros. Hall distingue três concepções de identidade — o sujeito do iluminismo que se mostra como um indivíduo centrado, unificado, dotado das capacidades de razão, de consciência e de ação [...] — o sujeito sociológico, formado na relação com outras pessoas importantes para ele — e o sujeito pós-moderno que não possui uma identidade fixa, essencial ou permanente. “O sujeito assume identidades que não são unificadas ao redor de um “eu” coerente. É definida historicamente, e não biologicamente” (2003: 13).
Analisando essas três concepções de identidade, temos no sujeito pós-moderno toda uma angústia de se representar, de se constituir, pois não há mais um alicerce que se possa levantar e construir sua identidade; essa identidade pós-moderna está sendo desenvolvida na fluidez, na mobilidade, na mudança, na instabilidade — e a melhor metáfora para ser utilizada é “o mar”, um elemento que mistura, envolve e está sempre em plena mudança, em pleno ir e vir, em levar e trazer: é algo que desaloja, destrói o que era sólido e força a uma nova construção.
Tomaz Tadeu da Silva, no texto A produção social da identidade e da diferença, afirma que “dizer, por sua vez, que identidade e diferença são o resultado de atos de criação lingüística significa dizer que elas são criadas por meio de atos de linguagem” (2003: 76). Com essa afirmação, a identidade está relacionada à diferença, à linguagem, ao discurso. São três elementos inseparáveis — é a diferença que ocasiona as identidades; e, sem a linguagem, sem o discurso, como perceber e criar a diferença; não falamos as mesmas coisas, pois cada indivíduo possui uma memória discursiva diferente; dessa forma, é através dos discursos produzidos que aparecem as novas identidades, as novas representações; é na relação com os outros que produzimos discursos, que mostramos diferenças e que construímos representações de nós e dos outros; o outro só é porque nós o construímos, nós o representamos através do nosso olhar. A linguagem é instável,
múltipla, multifacetada, repleta de outras vozes, como a identidade, sempre instável e buscando marcar a diferença, numa luta constante, uma luta entre sujeitos e poderes.

No esquema acima, tentamos demonstrar como ocorre essa ligação entre linguagem, diferença e identidades, mas sem fixar uma norma ou regra; é tentar uma representação. O sujeito perpassado por várias vozes, vários discursos, por uma memória discursiva, ocupando posições, não sendo e nem tendo mais um centro, produz enunciados, e esses enunciados repletos de outros em suas margens (Foucault, 2003) apresentam e demonstram diferenças, particularidades, combinações, escolhas, ocasionando uma rede de elementos que constitui uma representação de identidade, uma maneira de se posicionar em relação aos outros e a ele mesmo.
Um outro ponto que Tomaz Tadeu cita é o hibridismo como uma
mistura, conjunção, intercurso entre diferentes nacionalidades, entre diferentes etnias, entre diferentes raças — coloca em xeque aqueles processos que tendem a conceber as identidades como fundamentalmente separadas, divididas, segregadas [...] A identidade que se forma por meio do hibridismo não é mais integralmente nenhuma das identidades originais, embora guarde traços dela. (2003: 87)
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Ao buscarmos esse conceito de hibridismo, o relacionamos à obra de Godofredo de Oliveira Neto, Ana e a margem do rio: confissões de uma jovem nauá (2002), objeto de minha dissertação, que trata de uma índia nauá chamada Ana, educada em colégio salesiano em plena floresta amazônica, Rio Branco - Xapuri. No decorrer da obra, Ana dividida entre o mundo da oralidade, herdado de sua tribo, e a nova educação, imposta pela escola religiosa, convive com alguns amigos índios as aventuras lendárias ouvidas de sua mãe. Mas Ana percebe que a história vai sendo modificada pela influência que recebeu na escola salesiana. O autor utiliza o recurso literário de intercalar a vida de Ana e a lenda narrada, em capítulos escritos na primeira e terceira pessoas do discurso. O efeito é revelar ao leitor as dificuldades da índia nauá em montar sua própria identidade, tornando-o cúmplice desse conflito interno e externo. Além disso, há a narração de várias lendas amazônicas, realizada por animais,
evidenciando o respeito à diferença.
É nesse mundo lúdico e, ao mesmo tempo real, que tentamos analisar como foi construído o processo identitário de Ana. Segundo Tomaz Tadeu, “o hibridismo está ligado aos movimentos demográficos que permitem o contato entre diferentes identidades: as diásporas, os deslocamentos nômades, as viagens, os cruzamentos de fronteiras” (2003: 87). Ana está inserida nesse hibridismo, pois ela passou por esse contato de diferentes identidades, possui as raízes de sua tribo, mas também os novos conhecimentos através da escola. E tudo isso ela busca entender através dos discursos, da lenda ouvida de sua mãe — agora sendo escrita por ela, ao mesmo tempo em que sua identidade também é construída.
No começo da obra, Ana tenta delinear uma identidade segregada, dividida.
Resolvi, então, escrever uma lenda que sempre ouvi de minha mãe, lenda que ela dizia ter ouvido da minha vó, e assim para trás, até as origens da nossa nação. Eu escutava aquela história maravilhada e tomava cuidado para que mamãe repetisse exatamente os mesmos detalhes [...] Uma viva emoção me invade só de pensar que vou passar para o papel imagens impregnadas do perfume da minha infância e assim perpetuar uma parte da história do povo Nauá [...] Sei que, na lenda, irá também, necessariamente, muito de mim em pedaços de personagens, trechos de rio, pétalas de flores e em fragmentos de reações animalistas humanamente plasmadas. Tudo bem. E vou tentar fugir no texto, do sonho que sempre vem, em que me vejo cercada por animais da floresta que obedecem ao meu canto, rios que escoam sob meu comando, raios que se fixam no céu escuro por minha simples ordem. (2002: 13-14)
Mas, no decorrer da escrita, percebe o intercurso, o entrelaçamento de sujeitos, posições, diferenças e identidades que fazem parte dela, que a constituem como um ser em pleno processo identitário. Mas essa percepção não foi fácil, pois ao mesmo tempo em que decidia aceitar e negar o outro, tinha medo de se perder, de se desfigurar. Edouard Glissant, na obra Introdução a uma poética da diversidade, apresenta esse questionamento:
Como ser si mesmo sem fechar-se ao outro; e como consentir na existência do outro, na existência de todos os outros, sem renunciar a si mesmo? Essa é a questão que perturba o poeta e que este necessita debater quando está em sintonia como sua comunidade, quando está em sintonia com a comunidade que deve defender, porque trata-se, e isso é o que mais freqüentemente acontece, de uma comunidade ameaçada atualmente no mundo (2005: 46-47).
Ana está em plena floresta amazônica, mais especificamente Xapuri – Rio Branco. E este lugar é uma das regiões ameaçadas do mundo; e junto com a região, a cultura, as lendas, as histórias, os costumes. Quando percebe que sua escrita está sendo esperada ansiosamente por pesquisadores sulistas e estrangeiros, sente-se ameaçada, vigiada, controlada, e, a partir daí, tenta estabelecer uma territorialização fechada, una, centrada. Defende-se de maneira idealista, e Glissant ainda fala sobre essa defesa:
Mas deve defendê-la não mais baseada no sonho de uma totalidade-mundo já universalmente alcançada (como no tempo em que essa totalidade-mundo era ainda um sonho); deve defendê-la dentro da realidade de um caos-mundo que não mais permite o universal generalizante (2005: 47).
Ou seja, Ana precisa perceber que não há como garantir uma identidade com unicidade, o que há é a pluralidade, a renovação, a reconstrução. Glissant (2005), no capítulo “Cultura e identidade”, trabalha com as noções de raiz e rizoma dos estudiosos Deleuze e Guattari, no livro Mil platôs: esquizofrenia e modernidade. Esses dois conceitos dialogam com as hipóteses do projeto, ao afirmarmos que Ana apresentaria uma identidade enraizada através de sua tribo, ou apresentaria uma identidade rizomática, por constar culturas diferentes, por várias raízes se encontrarem no decorrer da obra. Deleuze e Guattari trabalham com a idéia que a raiz é una, um sistema centrado, e o rizoma “conecta um ponto qualquer com outro ponto qualquer [...] Ele não é feito de unidades, mas de dimensões, ou antes de direções movediças. Ele não tem começo nem fim, mas sempre um meio pelo qual ele cresce e transborda” (2005: 32).
E Glissant associa esses dois conceitos a identidades, uma enraizada e outra rizomática; e à categorização de culturas: atávica – “aquela que parte do princípio de uma gênese e do princípio de uma filiação, com o objetivo de buscar uma legitimidade sobre uma terra que a partir desse momento se torna território” – e compósita – “culturas nas quais se pratica uma crioulização” (2005: 72).
E essa identidade rizomática está presente na comunidade amazônica, já que ela se constrói como uma cultura compósita, que apresenta a mistura, a crioulização, são vários sujeitos de vários lugares convivendo, trocando uma relação de renovação, de desenraizamento, de crescimento para os lados e não para baixo.
Um outro estudioso, que escreve sobre essa vertente de identidade ligada a uma formação transcultural, de observar o discurso considerado não-oficial, foi Paul Gilroy — em O Atlântico Negro: modernidade e dupla consciência (2001). Gilroy cita a imagem do navio como um lugar propício a essas relações citadas no parágrafo anterior.
Deve-se enfatizar que os navios eram os meios vivos pelos quais se uniam os pontos naquele mundo Atlântico. Eles eram elementos móveis que representavam os espaços da mudança entre os lugares fixos que eles conectavam [...] O navio oferece a oportunidade de se explorar as articulações entre as histórias descontínuas dos portos da Inglaterra, suas interfaces com o mundo mais amplo (2001: 60-61)
Analisando apenas essa metáfora do navio, pois no livro de Gilroy há muitas outras informações e contribuições, consideramos que este teórico propõe uma desconstrução da identidade nacional e mostra um novo olhar, uma reconstrução da identidade negra através da contracultura, do enfrentamento, das resistências — pensar o homem historicamente, retirar a fixidez das coisas, colocá-las em mobilidade, pois esse é o estado delas: a instabilidade, a incompletude, a ruptura. E relacionando essa idéia, esse processo de identidade à obra Ana e a margem do rio, percebemos que o autor Godofredo de Oliveira Neto propôs esse rompimento, esse soltar das amarras e deixar o barco navegar, deixar a personagem em pleno estado de incertezas, de enfrentamentos e resistências às novas possibilidades de sua vida.
Uma índia nauá educada em colégio salesiano, não pertencendo mais a sua nação e nem ao novo mundo que descobriu, em plena fronteira simbólica das culturas, numa ação rizomática entre duas raízes, convivendo com outros iguais a ela, mas também diferentes.
Galdino, Josimar e Felício, os meus três colegas, da nação Apurinã, foram criados num abrigo para índios que vieram para a cidade e não saíram mais. Não querem que se chame abrigo, preferem ‘espaço’ de jovens índios transculturados [...] Um quer ser mecânico de avião, outro motorista de jipe, e outro locutor de rádio. E eu, professora primária. Eles têm, os três, dezoito anos, um a mais que eu. Vestem-se do mesmo jeito. Calças jeans, tênis e camiseta de várias cores (imitando marcas conhecidas). Todos os três usam óculos de grau e têm o cabelo cortado ao estilo militar. Aliás, eu me visto igualzinho a eles, só tenho o cabelo mais comprido, e não uso óculos [...]
Fabiana Suzan, Fabi, a minha amiga da época do Marechal Rondon, gosta deles. Tem preferência pelo Josimar. Ela é da nação Poyanawa. Tem dezenove anos, entrou tarde no colégio. Foi até a sexta série. Tingiu recentemente os cabelos de louro, parece carregar um sol na cabeça o tempo todo. Ficou esquisita. (2002: 29-30)
Nesse trecho, percebemos quão está diferente o mundo de Ana, de uma índia Nauá. Seus colegas também passam por construção de identidades, pois estão convivendo com outras pessoas, outras culturas, recebem informações, experiências que desconstróem aquela identidade raiz e a torna frágil, móvel, com outros olhares e outras características.
Miltom Moura, no livro Cultura e atualidade (2005), propõe compreender a construção de uma identidade como um texto.
E um texto pode ser compreendido pelo menos em três dimensões. A primeira, de tecimento. O olhar que capta uma identidade desta forma normalmente deseja conhecer seu processo de construção. A segunda dimensão é de tecido. Costumamos realçar esta dimensão quando miramos uma identidade a partir de uma obra artística ou literária ou de um ensaio científico que ofereça uma versão de uma sociedade, grupo ou indivíduo. E podemos ainda perceber o texto na sua dimensão de contextura, tessitura, esta concepção de identidade costuma conferir mais importância à estrutura do texto identitário (2005: 80-81).
Nessa perspectiva, também há um diálogo com todas as outras até aqui dissertadas. Miltom considera experimentar identidades em interação, numa dinâmica de consenso e também de conflitos. A obra de Godofredo de Oliveira Neto poderá ser estudada nessas três dimensões: de tecimento, tecido e tessitura.
O teórico Michel Foucault também trabalha a questão da identidade, pois o principal objeto de seus estudos foi o sujeito, o homem. Michel Foucault está inserido nos pilares da Análise do Discurso Francesa. A AD Francesa propõe um campo transdisciplinar, nasceu na crise epistemológica dos anos 60, época em que o Curso de Lingüística Geral de Ferdinand Saussure era a principal base de estudos lingüísticos. Os estudos centravam-se em sistemas e estruturas, sem a inserção do sujeito, do homem. Com a AD Francesa, buscamos uma teoria da identidade a partir de Foucault e sua teoria do discurso, pensando o homem, o sujeito inserido na trama histórico-social.
Michel Foucault trabalha com noções de sujeito, poderes e resistências. O poder não está em apenas um lugar ou alguns, mas em todos os lugares, são micro poderes e micro resistências. Foucault considera a identidade como produção, uma ação contínua, num permanente trabalho discursivo inacabado, flutuante e instável. Essa idéia dialoga com Souza Santos, em Pela mão de Alice, ao afirmar que:
mesmo as identidades aparentemente mais sólidas, como a de mulher, homem [...] escondem negociações de sentido, jogos de polissemia, choques de temporalidades em constante processo de transformação, responsáveis, em última instância pela sucessão de configurações hermenêuticas que de época para época dão corpo e vida a tais identidades. Identidades são, pois, identificações em curso. (2000: 135)
Com Souza Santos e Foucault, a idéia de identidade não é fixa, acabada, una, mas um processo, uma ramificação de rizomas, e não de raízes, lembrando Deleuze e Guattari.
Dessa forma, as identidades são produzidas por jogos discursivos. No texto O sujeito e o poder, Foucault afirma que as lutas discursivas giram em torno da busca da identidade.
Elas são uma recusa às abstrações, uma recusa à violência do Estado econômico e ideológico que ignora que somos indivíduos, e também uma recusa à inquisição científica e administrativa que determina a nossa identidade. Em suma, o principal objetivo dessas lutas [...] é o de atacar uma técnica particular, uma forma de poder que se exerce sobre a vida cotidiana imediata [...] É uma forma de poder que transforma os indivíduos em sujeitos (1995).
Assim, a identidade está ligada aos poderes, ou melhor, aos micro-poderes que geram micro-lutas dentro de nossa sociedade. Não é apenas afirmar que sou brasileiro, suíço, africano, mas uma identidade que resulta de micro-lutas dentro do próprio território nacional ou não, são formas de viver em relação a todas as outras categorias de saberes e poderes. E nessa rede de acontecimentos discursivos, tentamos relacionar a obra Ana e a margem do rio com seus possíveis micro-poderes, micro-lutas e micro-resistências na construção de identidades. Foucault ainda afirma que há três tipos de lutas pela construção da identidade:
aquelas que se opõem às formas de dominação (étnicas, sociais e religiosas);
aquelas que denunciam as formas de exploração que separam o indivíduo daquilo que produz; e
aquelas que combatem tudo o que liga o indivíduo a ele mesmo e asseguram assim a submissão aos outros (lutas contra a sujeição, contra as diversas formas de subjetividade e de submissão. (1995)
Segundo Foucault, a última luta é a que prevalece na sociedade ocidental moderna, pois são muitas formas de subjetivação que são colocadas como representações de individualização. Considerando essa individualização, essa liberdade não como uma construção de identidades insubmissas, pelo contrário, são relações de poder que foram racionalizadas e centralizadas. Mas sempre há fugas, resistências, pois nessas relações de poder há a fronteira constituída pela estratégia de lutas e os pontos de insubmissão, são forças constituintes, ações recíprocas, sempre com trocas eternas. Na obra de Godofredo de Oliveira Neto, temos um exemplo dessa resistência, dessa luta contra a subjetivação.
A história do jacaré e da jibóia da minha infância vai adquirindo um contorno bastante diferente. Ao ser passada para a modalidade escrita, arrojam-se, subitamente, detalhes que não existiam. É como se o novo estilo e a nova formatação provocassem também novos dados, movimentos, cores e perfumes. Cenas fronteiriças às contadas por minha mãe vão tendo vida nova e ganham autonomia. Seu rosto, revezado sem parar pelo meu, desfila sorrindo na folha em branco transformada em espelho, a caneta desenha com letra irregular a nossa imagem à sombra das goiabeiras, os seres da floresta aparecem no espelho, tomam-lhe o lugar, mamãe reaparece sempre com um largo sorriso, de novo os animais, o meu rosto assoma no reflexo sobre estampas da margem do rio e da floresta verde-escura. Histórias mágicas e maravilhosas que li surgem com freqüência, autoritárias, e guiam a minha escrita. (2002: 30-31)
Ana, nesse trecho, percebe que sua escrita não sairá igual ao que queria, pois há micro-lutas na sua construção, nas suas experiências, no seu escrever; há uma resistência em querer escrever como sua mãe, às vezes consciente ou inconscientemente. Elementos da natureza e da sua experiência invadem sua rede discursiva e brigam com os elementos da história da mãe, são dois olhares, duas imagens que lutam para serem desenhadas e tecidas.
Com essa idéia de micro-poderes que vigiam a todos e a tudo, Foucault escreve sobre o surgimento e a constituição de subjetividades, de representações de identidades. Presente em todos os lugares e não apenas no Estado, a construção da identidade se dá também dessa forma, em todos os lugares, em todas as micro-lutas, numa relação de se conhecer e conhecer os outros, numa ação flutuante, móvel, instável, rizomática.
O esquema não retrata ou reduz a movimentação da ação identitária, é apenas uma configuração de algumas categorias que fazem parte dessa rede construtora de identidades. São micro-poderes e micro-saberes em todos os lugares numa troca recíproca com conflitos e resistências construindo representações de identidades, subjetivações flutuantes, móveis, em curso, rizomáticas.
Dialogando Paul Gilroy, que afirma ser o “navio a oferecer a oportunidade de se explorar as articulações entre as histórias descontínuas [...], suas interfaces com o mundo mais amplo” (p.60-61), temos o texto “Outros espaços”, de Michel Foucault, ao escrever
[...] que o barco é um pedaço de espaço flutuante, um lugar sem lugar, que vive por si mesmo, que é fechado em si e ao mesmo tempo lançado ao infinito do mar e que, de porto em porto, de escapada em escapada para a terra, de bordel a bordel, chegue até as colônias para procurar o que elas encerram de mais precioso em seus jardins, você compreenderá por que o barco foi para a nossa civilização, do século XVI aos nossos dias, ao mesmo tempo não apenas, certamente, o maior instrumento de desenvolvimento econômico (não é disso que falo hoje), mas a maior reserva de imaginação. O navio é a heterotopia por excelência (2006: 421-422).
Foucault, como Gilroy, também evoca a figura do navio para simbolizar algo flutuante, móvel, sem lugar fixo, aberto ao infinito do mar. E essa idéia de navio pode estar ligada á fronteira, a espaços entre lugares, a movimentos de ir e vir onde sempre ocorrem trocas, acréscimos, perdas e ganhos. São construções de identidades que se articulam nesse intervalo, nesse entremeio, nessa passagem de um lugar a outro, de um sujeito a outro. Esse navio é necessário para que haja esse movimento, essa correlação de fluxo contínuo de conhecimentos e representações identitárias. Buscamos novamente Foucault para dar uma pausa nessa discussão com a seguinte afirmação: “Nas civilizações sem barcos os sonhos se esgotam, a espionagem ali substitui a aventura e a polícia, os corsários” (2006: 422).
** Iza Gomes Reis
Mestranda em Letras pela Universidade Federal do Acre (UFAC), orientanda da Professora Doutora Marisa Martins Gama Khalil.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs : capitalismo e esquizofrenia. Vol. 1. Editora 34,
:: FOUCAULT, Michel. O sujeito e o poder. In: RABINOW, P.; DREYFUS, H. Michel Foucault: uma trajetória filosófica. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1995.
:: ______. Microfísica do poder. Organização e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edição Graal, 1997.
:: ______. Vigiar e punir: o nascimento da prisão. trad. Raquel Ramalhete. Petrópolis: Vozes, 1987.
:: ______. Outros Espaços. In: Estética: literatura e pintura, música e cinema. 2.ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.
:: GLISSANT, Edouard. Introdução a uma prática da diversidade. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2005.
:: HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. trad. Tomaz Tadeu da Silva & Guaracira Lopes Louro. 7.ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2003.
:: OLIVEIRA NETO, Godofredo de. Ana e a margem do rio: confissões de uma jovem nauá. Rio de Janeiro: Record, 2002.
:: RUBIM, Antonio Canelas. Cultura e atualidade. Salvador: Ed. UFBA, 2005.
:: SOUSA SANTOS, B. Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. 7.ed. São Paulo: Cortez, 2000.
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