Literatura infantil e habilidades de leitura é o título da oficina oferecida na Semana de Letras da Universidade Anhembi Morumbi, dia 7 de out. 2003, a partir da proposta de trabalho Da capa para dentro do livro: estratégias para enredar o leitor na história...
literatura infantil
e habilidades de Leitura



Peter O'Sagae *


Com os dois últimos textos que tive oportunidade de publicar em Dobras da Leitura, pude retomar algumas idéias, reflexões e inquietações sobre o processo de ensino-aprendizagem da leitura literária no espaço escolar. Inicialmente, em Mais além: a especificidade da literatura infantil, Amélia Fernandes Candido destacou como livros e histórias auxiliam a criança em seu desenvolvimento cognitivo e afetivo, segundo a psicopedagogia, através de um mergulho e exploração da linguagem enquanto representação simbólica, nas várias oportunidades do leitor estabelecer relações entre texto lido e suas experiências particulares. Afirmando também que o imaginário ficcional prepara o indivíduo para os enfrentamentos da vida real, Claudimeiri Nara Kollross, em Conduzir à literatura também é papel da escola, empreende sua análise sobre as dificuldades que a criança enfrenta ao ser introduzida no mundo da leitura e como, infelizmente, a escola tem desfavorecido o encontro de seus alunos com o texto literário, ao empregá-lo como pretexto para diferentes conteúdos curriculares e ao fazer uso de estratégias mecânicas de leitura. Embora os recortes que escolhemos percorram diferentes mapas, todos nós buscamos um horizonte de satisfação comum: que a criança leia, aprenda a ler e viva lendo.
Mas... Como?

O que é necessário para a formação de um leitor proficiente?
Sem me esquecer dos aspectos afetivos relacionais que envolvem o ato da leitura, nem mesmo do "abraço" entre o imaginário do texto e o imaginário do leitor, venho esboçando uma prática pedagógica a partir da compreensão do processo multifacetado que é a própria construção deste ato, tentando "ver o detalhe" de cada face, fase, etapa ou movimento que projeta o leitor rumo à revelação do texto e seus significados. Movimento que é mesmo uma ação (aproximação, interpretação) e envolve um saber-fazer. Sendo um saber, a leitura é algo possível de ensinar e aprender -- o que pode soar agora como algo muito óbvio, mas exige do "professor de leitura" uma minuciosa atenção sobre seu processo. Sendo um fazer, a leitura se articula através de ações ou habilidades (cognitivas) para sua construção.
Do tempo que estou junto com professoras e professores do Ensino Fundamental, ora lecionando em cursos de pedagogia, ora trabalhando em cursos de formação continuada, tenho considerado "habilidade" como uma ação. Em conjunto, tais habilidades integra(ria)m uma "competência" (como consta dos relatórios do Sistema de Avaliação da Educação Básica, o SAEB, embora nos PCN e em outros documentos, também apareça estampado o termo "capacidade"). Ademais, precisaríamos entender quais são as habilidades que exige o processo de aprendizagem e como fazer uso delas no momento de avaliação. Este é um exercício que, em qualquer disciplina, devemos nos impor: buscar compreender o que acontece quando uma criança é convocada para solucionar uma situação-desafio. No entanto, agora, o foco é o ensino-aprendizagem da leitura (através) da literatura infantil.

De imediato (e na qualidade de um esboço apressado), apresento um elenco de habilidades que foram formuladas (em termos de objetivos) para a confecção de planos de aula ou unidades didáticas de leitura com livros para crianças, ao longo de 2000 a 2002, em colaboração com as alunas de pedagogia da Universidade do Oeste de Santa Catarina, em Campos Novos, Capinzal e Joaçaba. (Você pode ver alguns planos em nossa Sala de Aula) Grosso modo, as habilidades abaixo são destinadas à Educação Infantil e às séries iniciais do Ensino Fundamental.
Ao elaborar uma proposta didática, selecione, combine, ordene (e mesmo reescreva) dez ou doze habilidades entre as que seguem. As descrições, por mais próximas que sejam, referem-se a ações diferentes -- logo, cada habilidade exigirá um encaminhamento específico, dependendo do nível de escolaridade, da maturidade intelectual e da receptividade aos estímulos do objeto-livro e do texto literário. Considerando as possíveis articulações entre conceitos (saber), procedimentos (fazer) e atitudes (ser), temos, ao todo, 98 habilidades.


Possíveis Habilidades em Atividades de Leitura de texto verbal e visual
  • refletir sobre os hábitos de leitura
  • refletir sobre os diferentes objetivos para a leitura
  • refletir sobre a produção livresca
  • refletir sobre a escolha de livros
  • refletir sobre os critérios para a escolha de livros

  • localizar e distinguir título, nome do autor e editora na leitura de capa
  • dar importância aos elementos cotextuais
  • refletir sobre a importância dos indicadores de suporte
  • refletir sobre a organização dos elementos da capa
  • atribuir graus de importância aos elementos da capa (título, autor, etc.), observando
  • desenho, posição, cor e tamanho das letras (traços grafotipológicos) - e/ou
  • a distribuição dos diversos elementos na capa (diagramação)

  • usar seus conhecimentos sobre o autor para emitir uma opinião sobre o livro
  • relacionar autor com outros livros e títulos de sua produção
  • interessar-se pela a biografia do autor

  • reconhecer palavras escritas (título, autor, etc.)
  • reconhecer as letras que compõe o título, nomeando-as
  • contar a quantidade de letras que compõe o título ou palavras do título
  • relacionar as letras do título com as letras iniciais de seu nome e dos colegas
  • estabelecer correspondência entre o grafema e seu valor sonoro (letras isoladas)
  • estabelecer correspondência entre o conjunto de letras e seu valor sonoro (sílaba)
  • reconhecer os sinais gráficos da pontuação
  • reconhecer os sinais de outros sistemas de representação (musical, HQs, etc.)
  • atribuir sentido a sinais gráficos de diferentes naturezas

  • ler os segmentos verbais da capa (título, nome de autor e ilustrador, editora, etc.)
  • copiar os segmentos verbais no caderno usando letras bastão - ou - letras cursivas

  • descrever a cena da capa
  • identificar objetos presentes na ilustração
  • identificar localização dos personagens e o ambiente representado na capa
  • identificar, descrever e caracterizar personagens
  • identificar, descrever e caracterizar a ação de personagens
  • conferir sentido à expressão fisionômica de personagens
  • formular hipóteses sobre a relação entre personagens - ou -
  • estabelecer as possíveis relações entre personagens
  • ponderar a escolha da cores, na confecção da capa, conferindo efeitos de sentido

  • atribuir um título ao livro com base na ilustração da capa
  • interpretar título com apoio da ilustração da capa
  • interpretar imagem com base na leitura do título
  • estabelecer os sentidos do título

  • articular título e imagem, inferindo sentidos em relação à obra
  • articular título e imagem, fazendo antecipações sobre os acontecimentos da narrativa
  • elaborar hipóteses sobre os acontecimentos que poderão ocorrer na história

  • identificar o tema do livro (ou) antecipar conteúdos,
  • ao ler e analisar a capa globalmente - ou -
  • através da articulação dos elementos da capa - ou -
  • pela compreensão do significado do título - ou -
  • pelo conteúdo expresso na imagem - ou -
  • pelo conhecimento que tem sobre o autor

  • atribuir sentido ao conteúdo do livro a partir do título da obra
  • relacionar o título do livro com o nome da coleção a que pertence
  • fazer uso da contracapa do livro para buscar informações

  • ler seqüência de imagens
  • ler imagem em articulação com texto verbal
  • interpretar texto verbal com apoio na imagem

  • fruir e apreciar texto literário / valorizar o texto literário
  • recuperar memória de outros textos lidos
  • evocar/confrontar histórias/textos do mesmo gênero
  • confrontar gêneros narrativos, depreendendo as características distintivas em ambos
  • confrontar gêneros narrativos, recuperando os graus de similaridade entre ambos
  • recuperar o nível de intertextualidade do texto/da história

  • relacionar/comparar histórias/obras do mesmo autor
  • relacionar/comparar personagens com mesmo perfil
  • relacionar/confrontar cenas/acontecimentos presentes em outros/dois textos
  • antecipar acontecimentos e/ou elementos constitutivos da história

  • reconhecer/caracterizar o projeto de interlocução
  • apontar a manifestação do narrador
  • caracterizar a figura do narrador
  • reconhecer/distinguir as diferentes vozes do texto narrativo

  • recuperar a seqüência do texto narrativo
  • construir noção de seqüência da narrativa
  • determinar os eixos de conflito e de resolução de uma história
  • reconhecer elementos estruturais do texto narrativo
  • caracterizar/descrever/comparar personagem
  • caracterizar fala de personagem

  • identificar/ponderar a presença do oral no escrito
  • considerar as diferenças e/ou semelhanças entre o registro oral e o impresso
  • refletir sobre as variantes lingüísticas

  • caracterizar a construção poética de um texto
  • encantar-se com a expressão poético do texto
  • apreciar sonoridades do poema
  • perceber as sugestões de imagens/idéias do poema

  • relacionar título e texto
  • apontar recursos expressivos e dizer que efeitos de sentido possuem
  • depreender elemento de humor - ou -
  • perceber o tom humorístico

  • interessar-se pela leitura do livro
  • ouvir com atenção o texto lido

  • resumir a narrativa oralmente, mantendo os principais elementos do texto original
  • recontar a história com/sem ajuda do professor
  • recontar narrativa, atendo-se ao tema/sentido original
  • caracterizar personagem e ações durante a enunciação
  • estabelecer relações de causa e efeito para o ouvinte
  • descrever cenário durante a enunciação
  • usar no reconto os articuladores/conexão da organização de tempo
  • defender ponto de vista do narrador/texto/discurso
  • defender o ponto de vista de sua leitura
  • argumentar e justificar sua interpretação
Seguindo os eixos norteadores dos PCN, em diversas oportunidades, podemos promover a Análise e Reflexão sobre a Linguagem, ou de Epilinguagem, ao trabalhar conteúdos de Língua Escrita - Leitura, o que permite dotar a atividade de um significado mais amplo. Também encontram-se relacionadas habilidades que podem ser desenvolvidas como apoio à fase de alfabetização ou Aquisição da Linguagem Escrita. Por sua vez, habilidades que são desenvolvidas pela argumentação e defesa de idéias pertencem certamente ao eixo de Usos e Formas de Língua Oral; porém, distinguem-se de ações como "interessar-se pela leitura" e "ouvir com atenção a leitura". Em ambos os casos, tratam-se dos conteúdos atitudinais próprios da participação em uma atividade de leitura.
Algumas habilidades promovem unicamente a mobilização de conhecimentos prévios, com a intenção de torná-los compartilhados -- o que permite a criança melhores condições de leitura para explorar e interpretar o "novo" texto, ao estabelecer relações entre seu repertório literário e o texto que encontrará logo mais. É neste sentido que se pensa em uma atividade significativa, respeitando e alimentando os alunos, tornando-os capazes de recrutar, revisar e fazer entrar em movimento os esquemas de conhecimento com o propósito certeiro de levar a cabo uma nova situação, tarefa ou conteúdo de aprendizagem.
É importante que, através das situações vivenciadas em sala de aula, a criança sinta-se como alguém hábil em aprender a aprender, continuamente. De tal sorte, as questões direcionadas a classe devem primar pelo desafio possível de ser vencido, pela clareza e pela articulação que evidenciem um caminho lógico e seguro para sua inteligência. Não se pode perder de vista que os conteúdos e as abordagens escolares são um reflexo e uma seleção daquilo que acreditamos como aspectos importantes para a vida e a convivência social.
Ainda é bastante freqüente ouvirmos reclamações e pesares sobre a falta de motivação de de nossos alunos para a aprendizagem. Certamente, para que as crianças tenham interesse e passem a compreender melhor as propostas de que são partícipes, elas primeiramente tem o direito de saber o que se pretende -- isto é, conhecer os objetivos -- para a realização de uma atividade. Com isso, talvez consigam sentir e pressentir que suas ações trarão algum conforto, preenchendo uma necessidade (de saber, de realizar e realizar-se, de formar-se e se informar -- e, diante de textos literários, de dar vazão ao próprio imaginário represado). Literatura é aprendizagem somente quando nos mostra que há o diferente, a variedade e novas possibilidades de descoberta, dando o que a gente, de um algum jeito, já esperava e nem sabia que precisava...
Assim, perguntas de caráter fechado que apenas convidam a criança a reproduzir, repetir o que foi lido, sem criatividade e variação, são perguntas pouco encorajadoras para prestar atenção e querer seguir na trilha da leitura. Eis o que pode distinguir um questionário e um questionamento inusitado e profundo... Perguntas devem ser pontes que permitam à criança a passagem rumo a paisagens mais amplas, abrindo e renovando horizontes de expectativas para a leitura.
Sabemos também que as competências gerais, como certos níveis de raciocínio lógico, inteligência e memória, são o que permitem e franqueiam o sucesso que uma criança sentirá durante uma atividade. Assim, dosar para atender a todas as crianças, pensar estrategicamente a aprendizagem para não resvalar conteúdos e ações nos limites de um nível muito baixo ou alto demais, é tarefa do professor em sua atuação. Sobretudo porque as estratégias também são aprendidas pelas crianças, afinando e sintonizando sua leitura e compreensão do mundo.
No entanto, em toda situação de ensino-aprendizagem, não há razão para excessiva liberdade (ou seria permissividade?) sem o prejuízo do desenvolvimento cognitivo/afetivo dos alunos. De outro modo, quando as atividades possuem objetivos bem delineados, os caminhos tornam-se seguros e promissores. Portanto, cabe à professora e ao professor cumprir seu papel: saber dirigir e regular as ações sob sua responsabilidade. Se as crianças se sentem livres para crescer e para expandir seus recursos para sua própria atuação, tanto melhor -- mas isso é outra história...


* Peter O'Sagae: mestre em Letras e doutorando pela Universidade de São Paulo (USP); além de palestras, oficinas e cursos de formação continuada, tem lecionado Literatura Infantil, na faculdade de Pedagogia da UNOESC (1999-2002) e na pós-graduação latu sensu Literatura Infantil/Juvenil e as Múltiplas Linguagens, na Universidade Metodista (2003); professor da faculdade de Letras da Universidade Anhembi Morumbi (2003).
Dobras da Leitura
Ano IV - N.º 17 - nov.dez. 2003
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

:: Comprehension. In: THE PARTNERSHIP FOR READING: bringing scientif evidence to learning. Capturado em 13 de out. 2002. Online. Disponível na Internet. :: INSTITUTO QUALIDADE NO ENSINO. Kit Escola. Sessão 18 - Processos de leitura: 1a à 4a série. Formação Continuada em Serviço de Língua Portuguesa. São Paulo: IQE. :: PALO, Maria José, OLIVEIRA, Maria Rosa. Literatura infantil: voz de criança. 3.ed. São Paulo: Ática, 1998. :: QUEIRÓS, Bartolomeu Campos. O livro é passaporte, é bilhete de partida. In: PRADO, Jason, CONDINI, Paulo (orgs.). A formação do leitor: pontos de vista. Rio de Janeiro: Argus, 1999. Capturado em 20 de set. 1999. Online. Disponível na Internet. :: RODARI, Gianni. Gramática da fantasia. trad. Antonio Negrini. São Paulo: Summus, 1982. :: SANTAELLA, Lúcia. A leitura fora do livro. In: POESIA INTERSIGNOS. Capturado em 20 de set. 1999. Online. Disponível na Internet.