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(uma reflexão sobre a relação artista, obra e espectador)

O Flautista de Hamelin, de Paula Mastroberti:
Série Reconto/Mercado Aberto 
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a flauta Mágica
Paula Mastroberti *
Após o encontro realizado com os alunos de uma escola municipal de Porto Alegre,
a professora pede que eu faça o registro do que lá foi discutido acerca do meu livro O Flautista de Hamelin,
onde teço uma releitura a partir da conhecida lenda medieval sobre uma cidade invadida por ratos e salvada por um flautista. Hamelin, ou Hameln, não sei se sabem, de fato existe e se localiza na Alemanha; lá ainda hoje comemoram o feito com representações teatrais e festas que atraem turistas de todo o mundo.
É provável que esta lenda, compilada pelos Irmãos Grimm num livro que encontro em parte nenhuma sobre lendas alemãs, intitulada “Die Kinder zu Hameln” (ou, “As Crianças de Hamelin”), tenha se desenvolvido a partir de um acontecimento real, pois eram comuns as pestes em vilarejos cujas más condições de higiene se deviam à ignorância ou descaso. Através da linguagem simbólica típica dos contos populares, narra-se que Hameln se livrou da peste graças à arte de um Flautista Mágico. Por não ter sido recompensado conforme prometido, leva embora, em desafronto, todas as crianças da vila para uma montanha de onde nunca mais retornam. Variações pueris contam de um menino aleijado que não pode acompanhar a música hipnótica, outras concluem no arrependimento do prefeito que afinal cumpre sua palavra, levando à devolução de todos os seqüestrados.
Finais à parte, o que me atraiu nesta história foi a possibilidade de fabular, através dela, sobre inúmeras preocupações contemporâneas, entre elas, o papel da arte e do artista na sociedade figurado na personagem do Flautista — tema que mereceu atenção incrível dos alunos. Entre outras, destaco a proposição de uma menina de seus quinze anos: queria saber se eu acreditava nesta “mágica”, ou seja, se eu cria na possibilidade de salvação através da arte. Ainda que passasse por ridícula ou idiota, em virtude das tantas necessidades reais dos moradores das vilas periféricas de Porto Alegre, ousei responder, sim, acredito.
Sim, acredito; sem querer dar à arte um papel funcional, não posso deixar, entretanto, de vincular o ato de criação humana a uma intenção libertária. Esta intenção pode se dar em vários níveis, compreendendo desde a mais simples representação de um ideal ou utopia político-social até a mais profunda reflexão sobre a aporia existencial humana. Através dos serviços do Flautista Mágico, procurei reafirmar esta crença, assim como não vi nada mais apropriado do que associar os milhares de ratos que regurgitam nesta narrativa sombria à ameaça do caos e do descontrole que todos sentimos permear nossas vidas e que evidenciam a fragilidade do nosso destino.
Sim, na minha história, Hamelin, um centro urbano com todas as modernidades confortáveis que um centro urbano pode conter, é ainda assim invadida por ratos, por desconhecimento ou recusa deliberada em dar atenção ao que se passa em seus subterrâneos imundos. Sua população, uma massa a qual procuro sempre conferir reações de um grande corpo orgânico, busca em vão recursos para se defender dessa calamidade nas várias instâncias da ciência e tecnologia. É quando todas as esperanças se exaurem que um flautista (ou um artista, representado pelo músico) toma para si as rédeas (ou a flauta) que conduzirá a cidade ao seu destino utópico de plenitude e harmonia existencial. A ordem e a luz retornam à Cidade de Hamelin através da arte que burla o caos reinante.
Em qualquer uma de suas linguagens, incluindo a literatura, a arte me parece a única das expressões a apreender e conferir um sentido de e para a existência humana. Que o digam ilusório. Todas as discussões que ela suscita em âmbito estético ou funcional apenas circundam a questão crucial formulada por aquela adolescente. Questão esta que deveria ser formulada por todos os envolvidos no processo de criação e seus entornos, críticos, curadores, produtores culturais, artistas e escritores, etc.
Sim, eu acredito na arte que instiga, que justifica em si mesma o espaço que ocupa, que faz pensar a condição humana. E mais: se é o artista o mediador destas reflexões, reconheçamos que não há nisto nenhum motivo de vaidade ou egolatrismo. Reconheçamos que a obra só se completará no espectador e que tal interação só é possível dentro de uma realidade social livre de entraves burocráticos e político-ideológicos que com freqüência obstruem o caminho da obra e seu autor, impedindo-os de atuar junto ao público de modo eficiente. Desconsiderar o potencial e o desejo que todo indivíduo tem, independente de idade, gênero ou condição, de apreciar ou viver uma real experiência artística é, na minha opinião, subtrair-lhe não só um direito, como também à obra ou ao seu autor a oportunidade de novas e enriquecedoras leituras.
Durante o tempo em que permaneci na companhia daqueles alunos e seus professores (e através deles quero representar toda uma infinidade de escolas que visito anualmente na qualidade de escritora), presenciei algo que por si só já justificaria este texto: um jogral composto pela meninada, bem dramatizado e acompanhado pelo som de flautas, recitou trechos da obra a qual me referi. À medida que atuavam, fui percebendo que o texto tornara-se um outro, compartilhado entre mim e eles. Foi como se minha obra tivesse se expandido, se tornado independente, viva, ganhando inúmeros significados e almas, tantos quantos eram as bocas jogralistas.
Os jovens alunos de escolas de periferia, mais do que quaisquer outros, são constantemente ameaçados por “ratos” das mais variadas espécies (falta de perspectiva, fome, criminalidade, etc). Levados pela música e pelas palavras de um livro, alcançaram, como eu, um estado de transfiguração que muitos abastados (de bens, de informação) alcançarão jamais, porque esquecem de se aprofundar nos subterrâneos da alma.
Sim, eu acredito na arte que é capaz de encantar e seduzir estes jovens, cuja sensibilidade as mesquinharias e revezes da vida ainda não foram capazes de destruir — como acredito que minha função de artista e escritora só se completa quando minha flauta é ouvida.
* Paula Mastroberti
Escritora e artista plástica, escreveu estas reflexões em dezembro de 2004.
Entre os diversos livros que tem publicado, Heroísmo de Quixote (Rocco) conquistou
o 2º lugar do Prêmio Jabuti - Livro Juvenil 2006 »
www.mastroberti.art.br.
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