A literatura infantil
de Monteiro Lobato
na prática pedagógica com
as crianças pequenas e a
importância do professor-leitor*
Eliane Santana Dias Debus
Professora na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
e Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL)
Anteriormente à estréia do atual programa infantil transmitido pela Rede Globo,
realizamos uma pesquisa que envolveu 16 professoras que atuam com a Educação Infantil na Rede Municipal de Educação de Florianópolis, Santa Catarina, e reconstituímos o memorial de leitura desse grupo, na tentativa de juntos refletirmos sobre a possibilidade de recepção contemporânea da literatura

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NOTA [1] -
Os nomes das professoras quando aqui mencionados serão ficcionalizados,
com o objetivo de respeitar o seu anonimato. A transcrição das falas,
gravadas em entrevistas individuais, obedece à norma oral utilizada pela
entrevistadas, sem qualquer revisão.
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lobatiana na educação das crianças de 0 a 6 anos.
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Os depoimentos das professoras em relação ao contato com a literatura infantil de Monteiro Lobato na infância apresentam resultados significativos. Percebe-se que a geração das professoras entrevistadas, que estão entre 26 e 38 anos de idade, teve fortemente na infância a influência da televisão na mediação das narrativas de Monteiro Lobato. Do total das entrevistadas, sete afirmaram que o contato foi mediado pelo programa de televisão, não sendo realizada a leitura efetiva da obra; sete disseram ter lido o livro e assistido ao programa, numa relação de influência do segundo sobre o primeiro; e duas das professoras tiveram somente contato com a leitura dos livros de Lobato, uma porque morava no interior e não tinha televisão e outra porque sua infância ocorreu num período em que a TV não tinha muita audiência, já que existiam poucos aparelhos no Estado de Santa Catarina.
Das nove professoras que leram Lobato, somente uma cita o ambiente familiar como provocador da leitura dos livros desse escritor, em vez da escola, como afirmaram as demais. O fato se justifica, segundo a professora, porque na sua infância a leitura dos livros de Monteiro Lobato estava proibida pela censura.
Os depoimentos tornam-se precisos quando se solicitam as informações sobre o programa da televisão. Assistir ao seriado no final da tarde exigia o cumprimento de um ritual por aqueles que chegavam esbaforidos da escola: tomar um banho, colocar roupa limpa e tomar o lanche na frente da televisão: Eu lembro que eu estudava à tarde, chegava em casa, daí a mãe me dava aquele banho, botava uma roupa... e eu ia deitar e ficava ali assistindo... (Regina)
Ao solicitar às entrevistadas que citassem títulos de livros de Monteiro Lobato, 50% das professoras disseram não se lembrar, 12,5% informaram com dúvida e reticências, e 37,5% citaram alguns, entre eles
As fábulas,
As aventuras de Pedrinho,
Reinações de Narizinho,
Os 12 trabalhos de Hércules,
A reforma do mundo,
Serões de Dona Benta e
Emília no país da gramática.
A intervenção da televisão aparece de forma explícita quando as entrevistadas são questionadas sobre as personagens lobatianas, pois no imaginário de alguns leitores as personagens são descritas com as características do vídeo, e outros já não têm certeza se as lembranças são do lido ou do visto. Exemplo claro está na citação às personagens Saci Pererê e Cuca, que aparecem na ficção infantil de Lobato em uma única narrativa __
O saci,

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O Saci 56.ed. Brasiliense, 1994
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na qual o enfoque principal é o folclore brasileiro. Já na adaptação para o vídeo as duas personagens __ o menino traquinas e o bicho papão __ são elementos participativos e fixos no elenco, aparecendo com carinho e constância nas lembranças das professoras consultadas.
A memória televisiva prevalece porque não existe um repertório significativo da leitura do autor. Aqueles que ultrapassaram o espaço mediático da televisão e foram até a leitura do texto escrito criticam a incoerência de alguns episódios na passagem para o vídeo: Eu comparava a leitura com o que tava passando na televisão... mas era pra ver se tava trocando alguma coisa. Gostava, mas às vezes achava que eles trocavam um pouquinho, era a adaptação e eu queria a rigor. (Jane)
Porém, esse tipo de depoimento precisa ser analisado com ressalvas, porque provavelmente muito da experiência adulta encontra-se presente nesse trajeto de idas e vindas.
Onde se cruzam caminhos e já não basta mais ver: é preciso ler
Os depoimentos das professoras entrevistadas reconstroem a recepção da literatura infantil de Monteiro Lobato na década de 1970 e 80, ora através da leitura do texto escrito, ora pela adaptação para a televisão. Percebe-se que a segunda forma de recepção exerceu maior influência sobre o grupo. E, como foi colocado pelas professoras, a pouca leitura da literatura lobatiana, quer seja na infância, quer seja na formação profissional, não as credencia para avaliar a importância e a possibilidade de trabalho com essa literatura junto ao grupo de criança com que trabalham e/ou à Educação Infantil como um todo, já que isso exige um maior conhecimento dessa produção literária.
O seriado de televisão exibido atualmente é visto com restrição pelas professoras, e percebe-se que a nostalgia do programa assistido na infância faz com que a avaliação do atual seja até certo ponto depreciativa. Tal postura tomou conta também da imprensa, e muitos argumentaram contra o papel da boneca Emília ser representado por uma criança, Dona Benta comunicar-se pela Internet e Tia Nastácia cozinhar no micro-ondas, remetendo ao programa da década de 70. Porém se esquecem de que esse também atualizou e contextualizou a obra de Lobato para as vivências da época. Basta lembrarmos o comentário de Enéas Athanázio, ao analisar a adaptação do Sítio do Picapau Amarelo, realizada por Marcos Rey para a Rede Globo. Athanázio avalia as críticas ao “modernismo tecnológico” da série como infundadas e acredita que Lobato, como homem de seu tempo, não se surpreenderia em ver a personagem Pedrinho “numa asa delta” (1987: 32).
Creio que também não se surpreenderia de ver sua literatura sendo adaptada para a televisão, pois durante muito tempo namorou uma parceria com o cinema, e não foi por falta de tentativas que seus personagens não apareceram nas telas de Hollywood e daí para o mundo inteiro.
Após a estréia do atual seriado de televisão, a necessidade de refletir sobre a produção literária de Monteiro Lobato fica mais evidente, levando a refletir sobre a viabilidade concreta de trabalhar com seu texto, principalmente para ultrapassar a representação estilizada da televisão e apresentar a leitura original das narrativas de Monteiro Lobato às crianças.
Os caminhos se cruzam, e aquela geração de ontem que, embebida pela imagem televisiva, não descobriu o prazer da leitura lobatiana precisa hoje, diante dessa nova geração seduzida pelo vídeo e de sua responsabilidade como professora, refazer o seu caminho leitor: folhear o livro e descobrir nas letras, quem sabe, o mesmo prazer do controle remoto.
Literatura infantil: o mundo de Monteiro Lobato
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NOTA [2] -
Parte deste texto foi apresentado como comunicação na III Mostra Educativa (“Vivência dos pequenos grandes artistas da Educação Infantil do Município de Florianópolis”) Divisão de Educação Infantil de Florianópolis, realizada no período de 29 de outubro a 02 de novembro de 2002.
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Entre os objetivos do projeto de pesquisa A recepção contemporânea da Literatura Infantil de Monteiro Lobato, estava o desejo de oportunizar aos professores a reflexão teórico-prática sobre o trabalho com a produção literária para crianças de Monteiro Lobato. E a intervenção junto ao grupo de professoras, sujeitos dessa pesquisa, ganhou uma força redobrada após a sua inserção na televisão.
O referencial teórico da Estética da Recepção (Jauss, 1994) auxiliou na construção do projeto,
ao entendermos que a historicidade da obra literária se consolida pela atualidade
determinada pelo leitor, pois não depende, nesse caso, da época em que foi escrita,
mas de quando foi lida. Essa postura rompe com a noção de cadeia temporal, uma vez
que o autor e a obra começam a fazer parte da história no momento em que são lidos,
no momento em que são aceitos pelo público leitor.
O leitor compreende a obra dentro dos limites do seu momento, inserido em um contexto, tendo o texto algo a lhe dizer; o texto, por sua vez, guarda em si uma resposta ao contexto sócio-cultural da escrita, resultando no que Hans Robert Jauss denomina de fusão de horizontes e lógica da pergunta e da resposta. Partindo desse pressuposto, acreditávamos/acreditamos que a produção literária de Monteiro Lobato destinado às crianças ainda seria/é viável ao leitor contemporâneo.
A proposta de formação aos professores como forma de intervenção priorizou os encaminhamentos sugeridos pelos próprios professores durante a pesquisa realizada no ano de 2001, como:
- conhecer a obra para poder despertar e motivar a criança. Fazer leitura mais atenta de seus livros e fundamentação teórica sobre literatura infantil, para que o trabalho seja concretizado;
- adaptar as narrativas para contá-las oralmente. Propiciar uma linguagem acessível às crianças. Resumir as narrativas;
- utilizar recursos para contar as histórias de Monteiro Lobato
- utilizar-se do método adotado por Lobato nos serões de Dona Benta: o leitor competente faz uma leitura atenta e depois conta a narrativa oralmente.
Ao retornar o contato com as professoras entrevistadas em 2001, ocorreram alguns desencontros: três haviam sido transferidas para outras unidades; duas, recém-concursadas, estavam trabalhando em outro município. Questões de disponibilidade de horário e a interferência na organização das instituições também inviabilizaram a sistematização que havíamos pensado primeiramente.
Assim, numa proposta mais aberta e quantitativa dentro do cronograma de formação continuada da Divisão de Educação Infantil da Rede Municipal de Educação de Florianópolis, desenvolvemos
o curso Literatura Infantil: o mundo de Monteiro Lobato
com quatro grupos de 40 participantes, totalizando 12 horas cada grupo no período de abril a junho de 2001.
O curso teve como objetivos principais sensibilizar os professores que atuam na Educação Infantil para a importância da literatura de Monteiro Lobato na formação leitora das crianças de ontem e de hoje; e refletir sobre as possibilidades de trabalho com as narrativas desse escritor com as crianças pequenas.
O presente relato procura descrever a metodologia utilizada nos encontros e a trajetória de leituras e reflexões percorrida pelos professores e professoras presentes. O curso foi dividido em uma parte teórica e uma prática. A primeira buscava trazer para a cena Monteiro Lobato como escritor e cidadão, a importância da sua literatura no contexto em que foi escrita e a sua possibilidade de leitura hoje. A parte prática não objetivava trazer atividades prontas, mas que os próprios professores, em pequenos grupos, desenvolvessem estratégias para a leitura e socialização dessa literatura junto às crianças pequenas.
Parte Teórica: Lobato e os textos
Para a compreender a concepção de Monteiro Lobato sobre a leitura, o leitor criança e a literatura infantil, realizou-se a leitura prévia de três textos escritos por ele: Livros fundamentais (1920), Diálogo de Dona Benta e Narizinho (1943) e A criança é a humanidade de amanhã (década de 40), que estão sintetizados, na medida do possível, nas próximas linhas.
A falta de escoamento da produção literária __ planejamento sistemático de distribuição e divulgação por parte dos livreiros __ é uma entre as muitas causas apontadas por Lobato da não-disseminação da leitura em terras brasileiras. As mais importantes destacadas por ele seriam: o alto índice de analfabetismo (80% da população era analfabeta nas duas primeiras décadas do século XX); culto à cultura estrangeira (valorização da literatura francesa); o custo do livro (“objeto de luxo”). As duas classes de leitores (a elite e a popular) viviam, segundo o autor, encurraladas pela escola com “seus horrorosos livros de leituras didáticas” que os ensinava a considerar “a leitura como um instrumento de suplício”.
A percepção que Monteiro Lobato tem da infância repudia a visão da criança como adulto em miniatura: “A criança não é potro que se doma”; “a criança é a humanidade de amanhã”. Para a nossa mentalidade contemporânea, tratar a criança como um vir-a-ser é no mínimo não respeitar a sua completude no seu tempo provisório. Porém na década de 20 e 30 do século XX, pensar assim significava estar comprometido com as formas mais modernas de refletir a infância. Por outro lado, Lobato respeita e atende a criança no seu tempo presente, ficcionalizando personagens crianças que se atrevem a questionar o mundo adulto, estabelecendo um diálogo emancipador.
Para o escritor, o leitor-criança com suas especificidades, merecia uma literatura com linguagem própria, o que não queria dizer “pieguice” ou puerilidade. A busca por uma linguagem “clara como água de pote/transparente como clara de ovo” acompanhou a sua trajetória. No entanto, a criação de uma gama de jogos lingüísticos evidencia que a simplicidade e clareza perseguida por Lobato não era sinônimo de simplificação __ palavras como borboletograma (telegrama nas asas da borboleta), “quebramento”, “descomem”, “escrevedor”, “mudador”, entre outros.
De acordo com ele, a literatura infantil teria que falar à imaginação dos leitores, e que aqueles que tivessem na infância o contato com uma leitura prazerosa estenderiam o “progresso auto-educativo” para a fase adulta. Segundo Lobato (1964: 250): “Quem começa pela menina da capinha vermelha pode acabar nos Diálogos de Platão, mas quem sofre na infância a ravage dos livros instrutivos e cívicos, não chega até lá nunca. Não adquire o amor da leitura”.
Por acreditar que a leitura e análise das narrativas escritas entre 1921 e 1931 que compõem o livro
Reinações de Narizinho são imprescindíveis para o desenvolvimento do trabalho pedagógico com as narrativas lobatianas, no primeiro dia dos dois primeiros grupos, dividimos oito das 11 narrativas que compõe o livro em oito grupos de cinco componentes e solicitamos que individualmente lessem o texto durante o decorrer da semana para que, na data prevista, todos o tivessem lido. Nos demais grupos foram divididas seis narrativas de
Histórias diversas, e um grupo apresentou
A reforma da natureza.
Em primeiro lugar, houve uma dificuldade dos participantes em encontrar os títulos solicitados. Resolvido esse problema, as narrativas que não ultrapassavam o número de dez páginas foram consideradas longas, e a falta de tempo para a leitura foi uma das alegações mais constantes dos professores.
Foi explicado desde o início que as narrativas deveriam ser adaptadas, sem perder a legitimidade e originalidade, para que as crianças pequenas pudessem apreciá-las sem achá-las cansativas ou monótonas. A idéia era que cada grupo encontrasse a sua possibilidade de contar e a apresentasse ao grande grupo no último encontro.
Nesse intervalo de leitura, que obviamente não poderia se dar no curto período do encontro, foram apresentadas algumas possibilidades de trabalho com o vídeo “No reino das Águas Claras”, as músicas do CD e a construção de fantoches.
A utilização do vídeo “No reino das Águas Claras”, que constitui os primeiros episódios da “nova” série do Sítio do Picapau Amarelo, é interessante pois apresenta fortemente a “fidelidade” com o texto escrito, em especial nos diálogos das personagens. Retirado o volume da televisão, acompanhou-se a leitura do diálogo travado entre o Príncipe Escamado e o Mestre Besouro, a Dona Aranha e Narizinho, entre outros.
Reflexões sobre os avanços tecnológicos e a coerência na adaptação foram necessárias para desmanchar o olhar nostálgico de muitos professores que traziam para discussão as suas lembranças da série televisiva das décadas de 1970 e 1980.
Os episódios retratados no vídeo foram extraídos e adaptados do livro
Reinações de Narizinho. Percebem-se claramente em tais episódios as narrativas Narizinho arrebitado, O marquês de Rabicó e O casamento de Narizinho, e também implicitamente a narrativa O Saci, quando são apresentadas ao telespectador as personagens Saci, Cuca e Tio Barnabé. Vale ressaltar que tanto o Saci quanto a Cuca aparecem exclusivamente nessa narrativa de Monteiro Lobato, isto é, são personagens secundárias na produção literária mas que, no programa de televisão, são fixos.
Ao conhecer as narrativas, o professor poderá se apropriar das características das personagens para apresentá-las, pois cada uma tem sua história própria e surge no Sítio em períodos e narrativas diversas. Como observa Regina Zilberman, “A obra de Lobato vai além do próprio texto (...). Em alguns projetos, vale a pena trabalhar apenas com referência aos personagens dele” (Nova Escola, 1997: 10). Por esse viés, confeccionar as personagens com material de sucata, massa de modelar ou qualquer outro recurso não é descartado, sempre lembrando que cabe ao professor mediar esse encontro.
Parte prática: em cena o professor
As apresentações dos grupos foram diversificadas: algumas causaram surpresas; outras, incertezas e dúvidas quanto à presença da literatura lobatiana na Educação Infantil. Nos quatro grupos, faltaram muitos participantes, o que desfalcou os pequenos grupos. A leitura do texto de forma integral para as crianças pequenas é, sem sombra de dúvidas, demorada e cansativa. Ficou comprovado que nem mesmo os adultos conseguem permanecer atentos diante de uma leitura feita sem entonação, realizada de maneira desmotivada e sisuda.
As narrativas foram apresentadas com teatro de sombra, fantoches, avental, dramatização com caracterização das personagens. A narrativa O casamento de Narizinho, por exemplo, foi contada a partir do ponto de vista das personagens. Sem fugir ao texto original, o grupo acrescentou um novo olhar e leitura à obra.

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NOTA [3] -
As atividades foram registradas em vídeo e fotografias
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A avaliação oral e escrita dos grupos sobre o curso é importante para compreensão do que realmente esperam os professores. Uma grande parcela dos participantes entendeu a contextualização da concepção de Monteiro Lobato sobre leitura, literatura infantil e leitor criança, bem como a sua trajetória e importância para a formação de um público leitor como escritor, editor e promotor da leitura como apresentação biográfica.
Nos dois primeiros encontros, achei o curso cansativo, pois era muita teoria e vim na expectativa de movimento, de como contar uma história diferente, que recursos utilizar, não queria “receitas prontas”, mas sugestões... Mas nos dois últimos foi fascinante, principalmente o último onde os grupos apresentaram seis histórias, de várias maneiras e com muita riqueza de materiais.
Essa avaliação exemplifica alguns depoimentos que chegaram a colocar como sugestão “menos teoria”. O que causa desconforto é que, por vezes, não poucas, os professores não percebem a construção da caminhada: a teoria era necessária para que chegássemos à prática.
A III Mostra Educativa (31 de outubro a 02 de novembro) permitiu a socialização dos projetos desenvolvidos junto às crianças de 0 a 6 anos da Rede Municipal de Educação de Florianópolis. Ali se percebeu que muitos projetos desenvolvidos nas Creches e Núcleos de Educação Infantis contemplaram as narrativas de Monteiro Lobato. O que para alguns pode parecer exagero pelo número de projetos, fica compreensível para quem participou da formação do grupo de professores, pois havia uma carência de conhecimento sobre o autor e a sua produção literária.
Professor-leitor: exigência necessária para o exercício da profissão
Para um trabalho efetivo com a literatura lobatiana é necessário crer na competência do leitor ouvinte, desse leitor que aprende a ler pela voz do outro, que se habilita a entrar no mundo mágico da leitura antes mesmo de decodificar o signo lingüístico da escrita. Crer na competência do professor que terá que adentrar na leitura desarmado de conceitos preestabelecidos em relação a sua própria capacidade de adaptar textos mais complexos.
O encontro do professor com a leitura literária e a sua prática leitora vão ser de importância fundamental para a disseminação e formação leitora de suas crianças. Ana Maria Machado destaca falta de literatura na formação dos atuais professores e que não há como entusiasmar sobre algo que não se tem. Programas de fomento à leitura não vingarão com professores que “Não lêem, não vivem com os livros uma relação boa, útil, importante. Sem isso, não dão exemplo e não conseguem verdadeiramente passar uma paixão pelos livros __ e sem paixão, ninguém lê de verdade” (Machado, 2001: 118).
Por isso, mais do que levar as crianças à literatura de Monteiro Lobato, é necessário que os professores a conheçam, leiam os livros, escolham as narrativas que lhes agradam. Antes de exercitar o “como trabalhar”, “as estratégias” a utilizar para contar as histórias aos pequenos, deve-se ter a preocupação de conhecer esse universo literário.
Sem a pretensão de encerrar o assunto, acredito que tenha comprido com os objetivos traçados para os encontros, principalmente aquele de “sensibilizar” os professores para a importância da literatura de Monteiro Lobato. No entanto, cabe ao professor a tarefa de encontrar no prazer da solidão da leitura literária a possibilidade de disseminar esse prazer para as suas crianças pela oralidade.
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