As cartas dos leitores
como possibilidade de reflexão para
uma metodologia do ensino de literatura
no Ensino Fundamental:
a voz e a vez do leitor
As estratégias textuais: os vazios no texto
As estratégias utilizadas pela autora, na construção de Um Amigo Muito Especial, deixam em suspenso informações que provocam seus vazios, tais como a fragmentação do discurso, ora dirigido por um narrador onisciente, ora pelas lembranças da personagem Lauro e seu conflito entre o passado vivido com o pai e o futuro, a esperança de sua volta, interrompendo a coerência do texto. O desaparecimento do personagem pai, implicitamente remete ao processo ditatorial e de censura do período militar - lembrar-se de que o texto foi escrito em l980, anterior à reabertura democrática no País.
Os esquemas do texto (estratégias) trabalham com dois pontos na construção de imagem pelo leitor: um que apela para o conhecimento existente, outro que oferece informações específicas em que a intenção do objeto não dado exige a sua representação [9]. A operação exigida do leitor, no entanto, não se processa de forma idêntica, fato que se pode observar nas seguintes correspondências:
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NOTA
[9] ISER, Wolfgang. _____. "A interação do texto com o leitor". In: LIMA, Luiz Costa (org.). A literatura e o leitor: textos de estética da recepção. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.
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Edmar, estudante da 7a série do I grau em São Bernardo do Campo, já havia escrito, em 10 de abril de 1981, sobre Recordações de Um Agente Secreto; escreve à autora, em 12 de novembro do mesmo ano, com dúvidas, na dificuldade de preencher os espaços vazios do texto Um Amigo Muito Especial:
Eu gostaria que você me mandasse uma carta com a resposta, me falando o que aconteceu com o pai de Lauro, pois no livro todo Lauro falava que gostaria que seu pai voltasse, e Lauro sempre se lembrava dele, mas no livro não fala para onde o pai de Lauro havia ido. A outra dúvida que eu tenho, é que se no final nós mesmos teríamos que terminar, se não for para terminarmos, gostaria que me dissésse o que iria acontecer.
A estratégia textual do final em aberto de Um amigo Muito Especial, percebido pelo leitor, deixa em suspenso sua expectativa em relação a um final concluído, ao despertar dúvidas em relação ao destino das personagens. O leitor, no entanto, busca uma resposta na autora, como se somente essa pudesse dar o fecho "correto" à narrativa. O leitor quer obras de estruturas plenamente explicitadas, enquanto a autora trabalha com final aberto, uma característica da narrativa moderna, um texto repleto de vazios e indeterminações que desafiam o leitor.
Na mesma linha é a carta da leitora Mara Marly, 13 anos de idade, aluna da 7a série do I grau em Santo Amaro, São Paulo, cuja carta, de 22 de novembro de 1983, comenta: "D. Lourdes eu não entendi direito o que aconteceu com o pai de Lauro, sei que ele queria que todos tivessem os mesmos direitos, mas qual foi o seu fim?"
A interrupção da coerência do texto e a fragmentação do discurso pelo narrador deixam implícitos o destino da personagem pai. As referências sociais e culturais encontradas na narrativa, que poderiam levar o leitor a elaborar o destino da personagem, não encontram eco nas vivências da leitora.
As dificuldades da leitura dos vazios muitas vezes são superadas com a ajuda do adulto, como nos relata Silvia Renata, aluna da 7ª série do I grau em São Paulo, em correspondência do dia 30 de agosto de 1983: "Depois de trocar ideias com papai (que também leu sua obra) entendi parcialmente o significado da luta do pai e avô de Lauro."
A leitora necessita da mediação do adulto, no caso específico o pai, também leitor do texto, que vai auxiliá-la quanto às referências sociais, necessárias para legibilidade da ausência da personagem pai.
A leitora Ana Izabel, aluna da la fase de Enfermagem na Universidade Federal de Santa Catarina, leu o livro por sugestão da professora de Língua Portuguesa, apesar da "surpresa com o gênero indicado", e teve contato com a autora, em debate promovido pela mesma professora, escrevendo depois à autora, a 10 de novembro de 1981:
Há muitos pontos do livro que se tornam 'subentendidos', deixando margem para que pensemos a respeito. Gostaria de saber se numa composição (redação, conto, romance, etc), esse aspecto de 'entre linhas' torna o que escrevemos mais interessante?
A leitora apresenta uma visão mais crítica a respeito da construção narrativa, em relação aos leitores do I grau, visto que seu repertório de leitura é possivelmente mais amplo. Sua leitura e questionamento implicam exatamente com as estratégias utilizadas pela autora, que tornam implícitas algumas questões. A troca de idéias se dá no intuito de desvendar o fazer literário, que é de interesse da leitora, por sua propensão para escrever. Outro recorte se faz elucidativo da relação leitor, obra e autor: "Creio que talvez os autores dos livros, sintam-se motivados com a opinião dos leitores que se comunicam com eles."
Percebe-se que o preenchimento dos interstícios, os vazios, que para Iser deve resultar efetivamente no processo comunicacional entre obra e receptor, não se processa de forma linear. Pois vai depender da experiência de leitura e da forma como o leitor constrói o mundo que o texto lhe apresenta.
A carta de Sandra Aparecida não traz identificação pessoal da leitora, mas ela está inserida no segundo grupo de leitores de São Bernardo do Campo, em 13 de novembro de 1981:
Eu achei um detalhe muito importante que você expõe no seu livro, que foi a época difícil de muita luta, saiba também que ao começar ao ler o livro eu achei uma frase se eu não me engano, foi quando o pai de Lauro dizia mais ou menos assim: - Se todos se unirem a lei será cumprida. Sabe, isso me lembrou a época das greves aqui, em que os metalúrgicos se uniram e conseguiram o que queriam.
A leitora interagiu sua vivência em São Bernardo do Campo, foco de reivindicações dos trabalhadores metalúrgicos no início da década de 80, com a leitura do livro, que não define o ambiente, mas fala da luta de um trabalhador por melhores condições de trabalho. Dessa forma, a transposição do ficcional para dados de sua vivência, da realidade que o cerca, faz com que o leitor interaja com o texto lido.
As estratégias textuais utilizadas na narrativa de Um Amigo Muito Especial acabam por gerar questionamentos dos leitores. As indeterminações e vazios deixados no texto, a problemática do final em aberto, a ambiguidade da linguagem literária, as sugestões entrelinhas, foram constantes nos depoimentos citados. Ora como reconhecimento da elaboração literária, ora como incapacidade de compreensão do texto.
Se pensarmos que as narrativas fechadas, prontas, resultam numa linguagem autoritária, com tendência a impor à criança e jovem à submissão e, que, as narrativas em aberto, ambíguas, com vazios exigem maior participação do leitor; pois ele acaba por atuar como co-produtor do texto; por que tantas dúvidas por parte do leitor? Pelas vozes dos leitores, percebe-se que os textos fechados, prontos e acabados fazem parte de suas vivências leitoras, pois sentem dificuldade em entrar no jogo imaginativo do texto inconcluso.
O leitor que lê e se vê, ao se ver, escreve: a identificação
A representação das personagens (João Oscar, Regina, Ana, Leonardo) gira em torno de suas ações em busca pela afirmação da individualidade, sua identidade no contexto social; contrária as narrativas que destacam o comportamento das personagens. Nesse sentido a trama ficcional colabora para o enriquecimento do leitor como indivíduo, representando conflitos próximos da sua vivência.
Na identificação com a personagem é a representação do Outro, que não é o leitor, mas apresenta comportamentos próximos aos seus, que lhe permite interagir com o lido e o vivido, provocando uma rearticulação na realidade extratextual. A identificação se processa não pela norma transmitida pela personagem - prática das narrativas tradicionais, mas por seu comportamento frente aos obstáculos.
Liliana, estudante em Jundiaí, São Paulo, leu o livro Recordações de Um Agente Secreto, escolhido numa relação de livros indicados pela professora, e escreve, em 22 de julho de 1980:
Sabe eu fiquei tão envolvida com o livro que perdi até a minha novela predileta. É incrível como você entende nossos pequenos problemas de adolescente, entende até mesmo a chateação do domingo. Eu e João Oscar temos muitas coisas incomum, nosso diário secreto, gostamos os dois de James Bond e até mesmo o outro eu...
Um enunciado marcado pela relação conflituosa e bastante debatida: a leitura e a televisão. Se lermos em voz alta, percebe-se um tom de admiração da leitora em ter "perdido" "até" o seu programa televisivo. Gostaríamos de crer que ela tenha ganho com a perda. As identificações com o diário e James Bond nos remetem a contextos extratextual do período: o registro no diário e os filmes de James Bond freqüentes no cinema e televisão nessa década. "O outro eu" não é datado, faz parte de uma curiosidade comum ao ser humano.
Luiz Henrique, aluno da 7a série do I grau, em São Bernardo do Campo, escreve, em 10 de abril de 1981:
Vou confessar uma coisa, toda vez que lia um capítulo, me dava um nó na garganta, ou então, uma alegria muito grande, e começava a rir (minha mãe perguntava-me se o livro era tão bom assim e eu respondia-lhe que sim). Mas eu acho que Recordações de um Agente Secreto, é um livro recomendável à qualquer um, ensinando o que ensina todos deveriam lê-lo.
O depoimento do leitor deixa vir à tona o seu envolvimento emotivo com o livro na realização da leitura. O extravasamento do efeito da leitura se dá pela resposta à mãe.
Regina Antonia, 13 anos, aluna da 7a série do I grau em São Bernardo do Campo, escreve, em 19 de maio de 1981, sobre o livro: Recordações de Um Agente Secreto:
Eu ainda ñ tenho idade o bastante para criticar um livro de autora famosa, ótima autora como você, mas gostei demais desse livro, tem muita ação e eu gosto disso sabe? O principal personagem o João Oscar, é um menino de 12 anos, que pela sua idade é inteligente e quer ser compreendido pelos pais, aliás, isso eu também quero.
Às vezes estou falando com meus pais e eles deixa eu escutar a televisão depois você fala. Eu ñ sou tão mais velha que João Oscar tenho apenas 13 anos e com essa idade meus pais dizem que sou criança ainda que estou cheirando leite! Eu acho engraçado, porque que para uma coisa sou criança e para outras sou velha demais ou já estou na idade, por exemplo, pra namorar sou criança e para fazer serviço em casa já está na hora. Sabe? , às vezes fico triste com meus pais por eles me tratarem como criança. Nessa fase de adolescência nós passamos por cada apuro!!! (...) Acho isso de pai ou mãe ou outra pessoa adulta ñ acreditar nos adolescentes é ruim, desse modo nós nos sentimos diminuídos e que ñ crescemos ainda. Adorei seu livro porque ele nos disse a verdade a respeito da imcompreensão dos pais a respeito de seus filhos adolescentes.
No primeiro parágrafo a leitora retoma assuntos já refletidos, como a inferioridade de ser criança, e por isso não ser levada a sério, principalmente suas críticas frente a um texto literário; no entanto, demonstra o despertar de seu espírito crítico ao externar preferência pela narrativa que "tem muita ação".
O texto se comunica de imediato com a leitora, ao representar um personagem com os mesmos problemas: a incompreensão dos pais. A leitora quer ser valorizada, compreendida pelos pais. Confissões de adolescente, provocadas por sentir na personagem um modelo mais definido, mais decidido, que enfrenta seus problemas e é "considerado gente". A Projeção da narrativa para o cotidiano do leitor, aparece na insistência da leitora em afirmar que, também, sente-se incompreendida pelos pais.
Elaine Cristina , 12 anos, estudante da 7a série do I grau, em Joaçaba, Santa Catarina, ao ler o livro Segredos do coração, escreve, em 11 de março de 1994:
No começo pensei que era um reino, como mostra no primeiro capítulo, mas depois que fui lendo, percebi como era e descobri que tinha algo haver comigo: eu me acho feia, magricela, nariguda, cabelo espantado, perna torta, mas minha mãe, meu pai e meus três irmãos sempre fizeram com que eu me achasse linda, uma verdadeira "princesa"; também em partes do livro, como a parte que fala que Regina não gostava de Português, da análise sintática, dos objetos diretos e indiretos, eu também não gosto muito disso. Sinceramente, teve partes que eu quase chorei, meus olhos se encheram de água, e eu não sei porque, me deu um aperto no coração.
A leitora percebe as inovações utilizadas na construção da narrativa, que joga com a repetição dos elementos literários tomados dos contos de fadas e as normas selecionadas na realidade extratextual, que lhe aproxima da personagem adolescente. Aponta como ponto em comum com a personagem o desengonçamento da adolescência e as atividades escolares. A leitora se envolve emocionalmente com a narrativa.
Marianah, natural de Curitiba (PR), em 19 de julho de 1994, escreve, a propósito do livro Irmão-sanduíche:
Eu adorei seu livro! Ele conta uma história muito legal. Vou te contar uma coisa eu sou irmã-sanduíche pois tenho entre mim dois meninos o Tiago e o João, vou te fazer um pedido, que você fizese o livro irmão pão que é o maior! Ou irmão alface. Para formar um tipo de uma coleção de livro, pois sei que quase ninguém lê mas só sei que eu te curto de montão.
A leitora ousadamente dá sugestões de produção literária: fazer uma coleção com a temática do irmão-sanduíche, possivelmente influenciada por coleções de livros, prática editorial muito freqüente para o público infantil e juvenil; sua sugestão advém de conquistar outros leitores "pois sei que quase ninguém lê", demonstrando uma consciência crítica.
Na identificação com as personagens, um fato é bastante claro quanto às impregnações de uma formação social machista: as meninas admitem a identificação com personagens masculinos, o que não acontece em relação às cartas dos meninos; por isso, talvez, tenhamos encontrado pouco testemunhos masculinos de identificação com relação a Ana levada da breca e Segredos do coração, narrativas que trazem personagens femininas como protagonista. Já as meninas identificam-se com as atitudes e conflitos de Leonardo ou João Oscar, como se soubessem que essa identificação não interferirá na sua feminilidade; isso não ocorre, assim parece, em relação aos meninos.
Na maioria das leituras se processa a modalidade catártica, pela identificação imediata do leitor com a personagem. Em alguns depoimentos a catarse se restringe à liberação das emoções; em outras, leva o leitor a uma reflexão e análise sobre o representado.
Se retomarmos as colocações de Hans Robert Jauss, de fruição compreensiva e compreensão fruidora, talvez possamos melhor avaliar a importância de temáticas e personagens próximos à vivência dos leitores, visto que o leitor só poderá gostar daquilo que compreende e compreende com maior intensidade e facilidade aquilo de que gosta, que lhe é próximo.
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