Texto apresentado em
forma de comunicação no
Seminário Literatura para
crianças e jovens

- 13º COLE,
17 jul. 2001.

De volta ao remetente:
a correspondência entre
Monteiro Lobato e o menino Gilson



Eliane Santana Dias Debus
Doutora em Letras. Professora do Centro de Ciências da Educação
(PPG/MEN) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).




Ninguém jamais recebeu mais prêmios do que eu. As cartinhas de crianças que tenho, vindas de toda parte (ontem recebi uma de Santa Fé, na Argentina), fazem-me o homem mais rico do Brasil - o grande milionário. [1]


NOTA [1]
LOBATO, Monteiro. Cartas escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1964. p. 258.
Este texto focaliza a recepção da literatura infantil de Monteiro Lobato nas décadas de 20, 30 e 40 através de sua relação sui generis com o leitor: as cartas. O tema foi desenvolvido em nossa pesquisa de Doutorado, intitulada O leitor, esse conhecido: Monteiro Lobato e a formação dos leitores, defendida na PUC/RS, em 2001, sob orientação da professora Regina Zilberman.
O contato epistolar de Monteiro Lobato com seus leitores talvez seja o mais profícuo e original encaminhamento de recepção mirim de literatura de que se tem notícia, e acreditamos que essa atuação dos leitores contribuiu de forma efetiva para o desenvolvimento da sua literatura infantil. Ele considerava um prêmio as cartas que recebia diariamente de seus leitores. Elas eram postadas de vários recantos do país: tanto das grandes metrópolis, como Rio de Janeiro e São Paulo, como de pequenas cidades interioranas, como Conselheiro Lafayete, em Minas Gerais. As crianças liam os seus livros e lhe escreviam, algumas espontaneamente e outras motivadas por atividades escolares; mas escreviam porque sabiam da receptividade que aquele homem de grossas sobrancelhas concedia aos seus leitores.
Possivelmente, na mesma canastra em que Lobato guardava as cartas dos grandes (parentes, amigos, colegas escritores, políticos, etc.), guardava também as dos pequenos; porém este material como o outro foi se extraviando, já em 1946, quando Lobato se desfaz de grande parte ao ir para a Argentina e deixá-lo com Edgard Cavalheiro. Após a morte de ambos e a dispersão da papelada, a reconstituição da relação de Lobato com as crianças ficou mais difícil. Porém, o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP e o Museu Monteiro Lobato (localizado na Biblioteca Infanto-Juvenil Monteiro Lobato), ambos na cidade de São Paulo, ainda preservam registros dessa relação com a guarda de 385 cartas passivas.
Optamos aqui por fazer um recorte e apresentar a correspondência entre Monteiro Lobato e Gilson Maurity Santos na década de 30, quando o menino Gilson está com dez, onze anos de idade e busca insistentemente a sua inserção nas narrativas do Picapau Amarelo. Na década de 40, o mesmo leitor, então estudante de Medicina, retoma o contato epistolar com o escritor e registra a importância da literatura de Lobato na sua formação leitora. E, finalmente, na década de 90, Lobato de novo se torna presente, nas lembranças do médico aposentado, lembranças essas reavivadas por nossa pesquisa.
Fazemos um contraponto entre as cartas obtidas em consultas realizadas nas duas instituições já citadas e as cartas inéditas de Monteiro Lobato cedidas por Gilson para a pesquisa. Dessa forma, o testemunho da recepção da obra infantil de Lobato focaliza dois momentos distintos: as impressões descritas na infância e juventude nas cartas do leitor ao escritor, e os depoimentos atuais a partir de contato e entrevista com este leitor. A singularidade deste trabalho encontra-se nesse ponto, pois estamos diante de um registro próximo do ato da leitura, no seu momento de apreensão. E as reflexões posteriores desse mesmo leitor sobre sua prática de leitura possibilita evidenciar o papel desempenhado pelo autor e pela obra na sua formação.
Quando em 1999 escrevemos para Gilson, após consulta por telefone para confirmar se realmente ele era o menino que se correspondera com Lobato, enviando-lhe cópia de suas cartas da infância, presenteou-nos com a seguinte afirmação: "Daqui, da altura dos meus quase 80 anos eu me comovi lendo essas cartas, muito bem escritas, com propósitos claros e interpretações espertas". [2]
NOTA [2]
Resposta de Gilson Maurity Santos, quando lhe enviamos, em agosto de 1999, duas de suas cartas, escritas na década de 40, ao escritor Monteiro Lobato.

NOTA [3]
PIEB/ARAS. Carta de 19 de
dez. 1933.

NOTA [4]
Ibidem.
Carta de 23 de
fev. 1934.
O menino Gilson, que lutava boxe e desejava viver uma aventura no Sítio do Picapau Amarelo, é hoje médico aposentado e reside na mesma cidade da qual se correspondeu com Lobato há quase 70 anos, o Rio de Janeiro. Ele escreveu cinco cartas a Lobato no período infantil, uma em fins de 1933 e as outras em 1934; tinha então onze anos de idade. Na metade da década de 40, o jovem estudante reata o contato epistolar com o escritor através de duas cartas. Nas cartas escritas no período infantil, o leitor reúne sua voz ao coro da criançada que insiste em visitar o mundo mágico do Sítio do Picapau Amarelo: "Quero agora ir para o Sítio do Picapau Amarelo me meter em Aventuras. Quero ler muitos livros onde eu estou em aventuras com Pedrinho etc. (principalmente com Emília e o Visconde)" [3] ou "Quero que responda se deixas ou não deixas entrar nas aventuras do Sítio do Picapau Amarelo?". [4]
Monteiro Lobato não ficou alheio ao pedido desse menino e de outros que lhe escreviam, e quando traz a público o Picapau Amarelo, em 1939, um grupo inusitado de visitantes aparece na narrativa:

Dona Benta nunca deixou que os meninos dessem o seu endereço a ninguém, e isso porque milhares de crianças andavam ansiosas por passar temporadas lá - e se soubessem onde o sítio era, seriam capazes de abandonar tudo pelo gosto de conhecer a Emília e experimentar os bolinhos de tia Nastácia. Mas quem pode com certas crianças mais espertas que as outras?
Quem pode, por exemplo, com a Maria de Lourdes? Ou com a Marina Piza, ou a Maria Luísa, ou a Björnberg de Coqueiros, ou o Raimundinho de Araújo, ou Hélio Sarmento, ou a Sarinha Viegas, ou a Joyce Campos, ou a Edite Canto, ou o Gilbert Hime, ou o Ayrton, ou o Flávio Morretes, ou a Lucília Carvalho, ou o Gilson, ou a Leda Maciel ou a Maria Vitória, ou Nice Viegas, ou os três Borgesinhos (Stila, Mário e Marila), ou o Davi Appleby, ou o Joaquim Alfredo, ou a Hilda Vilela, ou o Rodriguinho Lobato e tantos e tantos outros? [5]

NOTA [5]
LOBATO, Monteiro.
O Picapau Amarelo.
São Paulo: Brasiliense, s/d. p. 840.
Quem seria esse bando de crianças? Nomes escolhidos aleatoriamente? Já à primeira vista parece que não, principalmente porque o autor coloca o sobrenome para melhor identificação dessas personagens de carne e osso. O que se constatou é que, das 24 crianças citadas, duas fazem parte de suas relações familiares, os netos Joyce e Rodrigo; dos 22 nomes restantes não conseguimos identificar dois: Hélio Sarmento e Joaquim Alfredo. Os demais eram leitores que escreveram para Lobato na década de 30 e, na sua maioria, solicitavam a visita ao Sítio do Picapau Amarelo. E entre eles está Gilson, que, embora aparecendo sem o sobrenome, as cartas de Lobato confidenciam isso. Mas como tudo isso começa? Em que momento os caminhos do menino e o do escritor se cruzaram?
O discurso de Gilson sobre a lembrança dos acontecimentos da infância é cauteloso, pois sente que alguns dados não podem ser restaurados com a precisão do momento. Ao ser questionado sobre a maneira como obteve o endereço do escritor, o leitor acredita que tenha enviado carta para a Editora Brasiliense (Rua Barão de Itapetininga, 93). Tal possibilidade pode ser viável no caso das cartas datadas na década de 40, mas não no das emitidas nos anos 30. [6]
NOTA [6]
A Editora Brasiliense é idealizada e fundada em 1943, por Lobato e seu amigo Caio Prado Júnior.

NOTA [7]
Resposta de Gilson Maurity Santos, em 30 de agosto de 1999, sobre seus primeiros contatos com os livros infantis de Monteiro Lobato.
Embora duvide um pouco de sua memória, Gilson observa que tomou sozinho a iniciativa de escrever ao criador dos livros de que ele tanto gostava.
É provável que a leitura do primeiro livro de Lobato, o que aconteceu na sua segunda infância (entre os seis e onze anos de idade), foi estimulada por familiares através de presente natalício: "Daí em diante eu pedia à minha mãe ou meu pai para comprar os que iam sendo publicados". [7] O leitor confessa que provavelmente leu todos os livros de literatura infantil de Monteiro Lobato, desde Reinações de Narizinho até A reforma da natureza.
Em sua primeira carta a Lobato, o menino apresenta-se como admirador incondicional das aventuras do Picapau Amarelo e informa estar sempre atento às novas publicações: logo que algum título sai no mercado solicita à sua mãe que o compre. Destaca As caçadas de Pedrinho como o livro preferido e pergunta ao escritor sobre o paradeiro da pele da onça da Toca Fria.
Embora resida no Rio de Janeiro, o leitor declara gostar muito de São Paulo e que toda a sua família torceu pela cidade durante a Revolução de 30. A carta é concluída com um pedido insistentemente repetido nas posteriores: a sua introdução no universo das narrativas do Picapau Amarelo, participando de aventuras com as personagens Pedrinho, Emília e o Visconde. [8]
NOTA [8]
IEB/ARAS. Carta de 19 de
dez. 1933.

NOTA [9]
Todas as cartas-respostas de Monteiro Lobato são inéditas e foram cedidas pelo leitor para esta pesquisa. Três são destinadas ao menino e duas ao jovem.
A resposta de Lobato é imediata, datada de 20 de dez. 1933, o que demonstra o comprometimento do escritor com as crianças que lhe escreviam, redigindo-lhes a resposta o mais breve possível. Quem responde e assina a primeira carta a Gilson é a personagem Visconde de Sabugosa: "Estou escrevendo esta carta em nome de Monteiro Lobato, que me emprestou a sua máquina. Eu sou o Visconde, sabe?". [9]
Esta missiva reúne assuntos diversos, a maioria relacionados ao Sítio do Picapau Amarelo. Através do Visconde, o escritor dá notícias de todos no Sítio: Rabicó come abóboras; Emília amola o Visconde junto à máquina, batendo o ponto de interrogação; Tia Nastácia na noite anterior cozinhou chuchus recheados... Quanto à pergunta do leitor sobre a pele da onça da Toca Fria, o escritor informa que Dona Benta a enviou à cidade para ser curtida.
O desejo do leitor de participar concretamente da narrativa é questionado pelo Sabugo, quando informa que ele mora muito longe, o que dificultaria a visita. Contudo, sugere a sua mudança definitiva para o Sítio: "peça licença a seu pai e venha...". O leitor é avisado que em breve, "daqui uns dois meses", o encontrará em uma nova aventura que poderá ser lida em Emília no país da gramática; e que Emília batizou o rinoceronte de Quindim.
Porém, o mais surpreendente da resposta ao leitor fica por conta da ironia com que Lobato trata os desmandos do governo Getúlio Vargas:

Então você torceu por São Paulo na revolução? Fez muito bem. Nós aqui também torcemos muito, menos Emília que é da ditadura. Ela anda com planos de fazer uma revolução para botar o Getúlio abaixo e ficar no lugar dele. Nesse caso tia Nastácia irá ocupar a pasta da Fazenda e Rabicó o ministério da Educação. Eu serei Ministro do Exterior - e você vai ver que nós endireitamos este país. Emília é uma danada! [10]

NOTA [10]
Carta de 20 de dez. 1933.

NOTA [11]
Carta de 23 de fev. 1934.

NOTA [12]
Ibidem.
Passados dois meses, o leitor reata a sua correspondência com o escritor. Sem constrangimentos, o menino diz que seu pai, Dr. Maurity Santos, presidente da Faculdade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, fará uma conferência na Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo e que Lobato deveria ir vê-lo: "Pega uma folga e vai lá ver meu pai". [11] O menino pergunta sobre a veracidade do lançamento de Emília no país da gramática e exige uma resposta precisa e contundente sobre a sua aparição no Sítio: "Quero que respondas se deixas ou não deixas entrar nas aventuras do Sítio do Picapau Amarelo?". [12]
Em carta assinada pelo próprio punho, Lobato acalenta o sonho do leitor de figurar como personagem em suas narrativas, dizendo que havia respondido na carta anterior e que o menino participará, sim, de aventuras com os netos de Dona Benta. O escritor observa ainda que esses pedidos são constantes por parte das crianças leitoras: "Há tantos meninos e meninas que querem entrar nessas aventuras que a pobre da dona Benta está tonta - e anda pensando em comprar um novo sítio para aumentar o que já tem". [13]
NOTA [13]
Carta de 26 de fev. 1934.

NOTA [14]
Ibidem.
O plano de Dona Benta, comentado por Lobato em tom de brincadeira, é executado cinco anos depois, ao escrever o livro Picapau Amarelo. Nessa narrativa a matriarca do Sítio expande os seus limites, adquirindo terras novas para acolher as personagens do mundo maravilhoso e, por extensão, as crianças do mundo real que aparecem em visita, entre elas o menino Gilson. Lobato explica-lhe que o lançamento de Emília no país da gramática sofreu contratempos e sairá somente no mês de abril: "Demorou por causa do homem que ia fazer os desenhos e que ficou atrapalhado". [14]
O livro Emília no país da gramática vai ser tema da próxima carta do menino que estava curioso em saber as asneiras que a Emília dirá da gramática, e insistentemente retorna ao velho assunto de sua participação, agora como integrante dessa narrativa: "o meu nome sairá em Emília no país da gramática?". [15]
NOTA [15]
Carta de 2 de mar. 1934.
No mês seguinte, o leitor relata o término da leitura de História do mundo para as crianças, que ficara por último na sua predileção devido ao extenso volume de páginas. Aponta seu encantamento por todas as personagens do Picapau Amarelo, caracterizando-as individualmente: "Emília com suas asneiras, Narizinho com suas perguntas, Pedrinho com sua valentia, Tia Nastácia com seus quitutes, Dona Benta com suas maravilhosas histórias, o Visconde com sua sabedoria, o Marquês com sua gulodice e finalmente o rinoceronte com sua mansidão". [16]
NOTA [16]
Carta de 2 de mar. 1934.
Na infância, Gilson identifica-se com o Visconde e o considera a mais camarada das personagens lobatianas. Comenta suas tristezas e alegrias, ao longo de suas peripécias, primeiro por saber da morte do sabugo, depois por sua ressurreição, tristeza redobrada por vê-lo como doutor Livingstone e alegria pelo retorno do velho e conhecido Visconde.
O leitor quer manter-se atualizado a respeito do poço fundo que Lobato disse estar cavando e pede que Emília não brigue mais com Tia Nastácia, pedido já feito em carta anterior: "Diz a Emília para brigar menos com Tia Nastácia porque senão ela morre (ouvi dizer que Emília é de pano mas é forte como quê)". [17]
NOTA [17]
Carta de 2 de mar. 1934.
Lobato, que não respondera a carta de março, justifica a ausência de resposta devido ao seu envolvimento na confecção de Emília no país da gramática. O livro com "quase cem desenhos do Belmonte" exigia revisões tipográficas para que não saísse com erros. Conta ao leitor que Emília está com idéia de escrever suas memórias e informa que o poço já está com 800 metros, faltando 200 para o necessário: "se sair petróleo, vai ser uma beleza. O Visconde irá montar uma refinaria de fazer gasolina e Emília vai comprar uma dúzia de automóveis para gastar a gasolina que o Visconde fizer". [18]
NOTA [18]
Carta sem data, escrita provavelmente no início de maio de 1934.

NOTA [19]
Ibidem.
Lobato conclui a última carta escrita ao leitor no período infantil estimulando-o à leitura e saudando-o de uma forma no mínimo surpreendente, como se os papéis de repente se invertessem: "Adeus, mestre Gilson. Parabéns por ter lido a História do mundo. É lendo que os meninos aprendem, por isso não perca a gramática da Emília". [19]
Remetente: Gilson Maurity Santos. Endereço: Rua das Laranjeiras, 433, Rio de Janeiro. Os dados no envelope são os mesmos das outras cinco cartas; a diferença reside na data da emissão. Quem escreve não é mais um menino que treina boxe no colégio e vive a sonhar com a turma do Sítio; por trás daquela letra quem se apresenta é um jovem de 21 anos, estudante de Medicina, mas ávido por reavivar o velho diálogo com o escritor que lhe marcara a infância.
Motivado pelos sentimentos de gratidão, amizade e admiração, o jovem Gilson (re)apresenta-se a Lobato relembrando a troca de correspondência na infância: "E mais, para lembrar que daquela meninada cheia de entusiasmo pelos seus escritos pelo menos uma (tenho certeza que existem outras como eu) nunca o esqueceu e guarda com carinho a lembrança do Lobato". [20]
NOTA [20]
Carta de 24 de mar. 1943.
O original encontra-se de forma incompleta no arquivo do IEB e existe uma cópia completa no Museu Monteiro Lobato (SP).
O leitor confessa que os livros infantis de Monteiro Lobato lidos na infância lhe estimularam a vontade e o entusiasmo pela leitura, bem como o "carinho" com que trata o material lido. Diz ainda que: "Com os seus livros na cabeça, quase decorados, eu fiz os meus primeiros alicerces literários". A loucura pelo ato da escrita e o poder imaginativo que o leitor diz possuir deve-os à influência de Lobato na sua formação leitora.
A carta traz ainda um registro curioso da expectativa do leitor diante do livro O escândalo do petróleo, pois acreditava que encontraria ali seus velhos conhecidos do Sítio do Picapau Amarelo, já que era de autoria Monteiro Lobato. Descreve o prazer da compra sem restrições, o trajeto para casa dentro do bonde com o livro entre os braços, "como se tivesse a proteger dos outros", e a persistência com que manteve a curiosidade em alerta, não abrindo o pacote até chegar em casa. Porém, declara que a primeira leitura o decepcionou e entre "tropeços" nada entendeu, afirmando que "só há pouco tempo vim a lê-lo todo e com entusiasmo e revolta". [21]
NOTA [21]
Ibidem.
Provavelmente Lobato não se lembrou de imediato do seu antigo correspondente e, para certificar-se, recorreu à canastra onde acolhia as cartas dos leitores, pois, ao responder ao jovem leitor, comunica que ainda tem arquivado as suas cartas de menino. E destaca o prazer que as suas palavras provocaram: "Você não imagina, Gilson, que prazer me deu com o que disse. Prazer de pai que descobre um filho ignorado. E que filharada imensa eu tenho! Só eu sei..." [22]
NOTA [22]
Carta de Lobato de 30 de mar. 1943.
Gilson em sua carta expõe a sua disposição para a produção escrita. No entanto, achava-se muito imaturo para publicar-se; por outro lado alguns íntimos o incentivavam. O escritor, seguindo a sua própria experiência, aconselha-o em nome de Dona Benta:

Não tenha pressa em aparecer diante do público. Inúmeras vocações se perdem por precipitação. A pressa em publicar-se traz decepções e desânimo. O certo é ir-se formando de modo que ao aparecer surja com uma obra que se imponha de maneira absoluta. O gênio é uma longa paciência - e por melhor que seja a qualidade duma laranja, ela só é saborosa e doce quando madura. Aperfeiçoe-se incessantemente. Decore a fábula dos filhos da coruja e duvide sempre da beleza dos teus produtos literários. E decore também a fábula do Menino, do Velho Aldeão e do Burrinho. Com isto você ficará uma excelente laranja bem cheia de qualidades - quando amadurecer. Antes disso, será o que nós todos, homens e laranjas, somos antes da maturação - imaturos, verdes... [23]

NOTA [23]
Ibidem.
Em carta de 1º de abril de 1943, o leitor confessa que interrompeu a leitura da resposta por três vezes, contagiado que estava pelo sentimento de emoção em recebê-la e pela expectativa da reação de Lobato ao deparar-se com um leitor há muito esquecido: "Começava a imaginar, você escrevendo, você lendo a minha carta, você rindo, você sentindo-se contente, como eu esperava, de não se saber esquecido em mais um coração". [24]
NOTA [24]
IEB/ARAS.
O conselho de Dona Benta, segundo o leitor, tinha a validade de trinta cartas. A dúvida entre o editar ou não seus textos freqüentemente persistia em sua mente. Porém, sentia-se tímido em pedir opinião alheia, e Lobato o fizera, como que adivinhando o seu desejo. As palavras do escritor tocaram forte no leitor que continuou escrevendo, sem contudo publicar seus textos, que ficaram restritos a suas próprias leituras e a de alguns amigos
NOTA [25]
MAURITY, Gilson. Poemas de ontem, de anteontem e prosa onírica. Rio de Janeiro: Armazém das letras, 1999. Recentemente Gilson publicou outro título: Prosa em verso. Rio de Janeiro: Mastergraph, 2000.
íntimos. Somente no início de 1999, já aposentado e participando de grupos de intelectuais e escritores, Gilson trouxe a público alguns de seus textos escritos nas décadas de 60 e 70: Poemas de ontem, de anteontem e prosa onírica.
[25]
A última correspondência entre o escritor e o leitor dá-se em dezembro de 1945, quando Lobato lhe escreve felicitando pela conclusão do curso de Medicina. A carta não tem o tom formal e aproxima-se de uma despedida, como se o leitor, agora homem feito, tivesse outro caminho a seguir. Contudo, restava ao escritor os novos leitores que lhe continuavam a escrever, como outrora Gilson o fizera:

Você começou comigo, mas cometeu a asneira de crescer e hoje já está longe, e só com os olhos da saudade revê o sítio onde 'morou'. Mas o afluxo de Gilsons é constante. Escrevem-me de todos os lados e às vezes aparecem alguns excepcionais. Ontem recebi uma cartinha dum Modesto Marques, de Tatuí, que tive de classificar como o menino número 1 destes últimos tempos. [26]

NOTA [26]
Carta de 8 de dez. 1945.
Gilson afirma que a influência de Lobato incorporou-se aos seus valores éticos, morais, afetivos, culturais: "o meu caráter e a ética que me tem guiado na vida". E vai além destacando outros pontos que considera fundamentais na sua formação e que acredita dever, entre outros fatores, às leituras de Lobato:

A minha revolta contra a injustiça, contra o autoritarismo, contra o fascismo na política, contra a crendice e o uso sub-reptício da ignorância dos que não tiveram oportunidade de aprender a usar sua inteligência, com intenção de justificar o domínio de uns sobre os outros - isso tudo e mais coisas que a gente nem sabe que tem por dentro são resultantes do que essa enorme personalidade que foi o brasileiro José Bento Monteiro Lobato causou em mim. Para não falar da importância da crítica, do uso da crítica diante de qualquer idéia ou ação - mas isso eu acho que veio diretamente da Emília!

As respostas de Lobato demonstram que ele não se eximiu de tratar com os seus leitores de assuntos políticos, como a Revolução de 32 ou a Ditadura de Getúlio Vargas. Relatava também com minúcias suas façanhas com o petróleo, informando sobre escavações ou mesmo ironizando sua provável morte, afogado num poço de petróleo.
Lobato possuía um modo especial de escrever às crianças, até mesmo em respostas às cartas que lhe chegavam: ora criava pequenas histórias, ora respondia como se fosse uma das suas personagens. Aos leitores, procurava sempre incentivá-los para novas leituras, dava conselhos literários, estimulava-os para atividades relacionadas com a leitura. Enfim, contribuía à sua maneira para o desenvolvimento intelectual de seus destinatários.
O acesso à correspondência entre o menino leitor e o escritor e o depoimento desse já adulto nos possibilitam evidenciar a recepção da obra lobatiana pela próprio punho e voz do leitor. Assim, acreditamos que Lobato antecipou-se no tempo e viveu experiências com o público leitor que ainda hoje são consideradas utópicas: a interação dialógica entre leitor, leitura e escritor.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LOBATO, Monteiro. Cartas escolhidas. São Paulo: Brasiliense, 1964. p. 258. :: _____. O Picapau Amarelo. São Paulo: Brasiliense, s/d. p. 840. :: MAURITY, Gilson. Poemas de ontem, de anteontem e prosa onírica. Rio de Janeiro: Armazém das letras, 1999. :: _____. Prosa em verso. Rio de Janeiro: Mastergraph, 2000.

Dobras da Leitura
Ano II - N.º 6 - jul.ago.set. 2001
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