
* Décio Teobaldo na noite de entrega do IV Prêmio Barco a Vapor de Literatura Infantil e Juvenil,
no SESC Vila Mariana, em São Paulo, 26.ago.2008. Saiba mais »

* foto: Peter O'Sagae 
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O texto abaixo recupera a fala forte de Délcio Teobaldo, vencedor do
IV Prêmio Barco a Vapor, na noite de entrega do prêmio, em São Paulo.
Seu discurso soou como uma provocação aos retratos literários, no ano de centenário de Machado de Assis,
e uma reverência às heranças que navegaram da África para nós.
A nosso convite, o escritor
rememora as palavras daquele instante para compartilhar com os leitores de Dobras da Leitura. — Peter O'Sagae
moleques e mestiços no mesmo Espelho.br
Délcio Teobaldo *
“Quero dividir os parabéns desta noite com os jurados que me concederam o Prêmio Barco a Vapor.
Parabéns pela sensibilidade social e percepção histórica que permitiram a Pivetim entrar aqui
e participar desta festa. Caso contrário, ele estaria ali, com o nariz pregado na porta, tentando adivinhar
o que estava acontecendo aqui dentro e, mesmo assim, ele seria invisível, como quaisquer meninos de rua.
Este livro me custou muito para ser escrito. Ele foi pensado durante muitos anos de pesquisa
e contatos com as populações de rua, mas escrito num penada só. Na verdade, ele amadureceu de uns quatro anos
pra cá, quando comecei pesquisas para escrever um romance — felizmente terminado, só precisando de editora —
sobre a infância desconhecida do escritor Machado de Assis.
Moleque preto, epilético, gago, prognata, favelado, órfão de pai e mãe,
Machadinho, como era conhecido na infância, era igualzinho a estes pivetins que nos incomodam
e desafiam nossa caridade ou medo, seja na Praça da Sé, em São Paulo;
na Praça da Estação, em Belo Horizonte;
no Largo da Carioca, no Rio de Janeiro,
em Guajamirim, Bolívia, onde estive recentemente,
ou em quaisquer praças, becos e morros deste país.
Quando Pivetim começou a tomar forma como personagem, eu trabalhava como editor executivo do programa
Atitude.com, da TVE — um programa interativo que discutia inserção social, com foco na geração digital ou www.com.
Paralelamente a este trabalho, comecei a prestar atenção na população infantil de rua e, diante do discurso
de inclusão digital, contrapuz argumentos sobre essa grande maioria que não tinha acesso a nada e,
quando crescesse, continuaria anulada.
Primeiro, por não ter memória da sua herança;
segundo, por não ter consciência de cidadania e, ao adquirir uma cédula de identidade que,
por direito lhe permitiria inserção numa sociedade legalmente protetora, apenas os tornaria visíveis —
aptos para serem fichados e sujeitos às penalidades da lei. Para os meninos de rua, crescer é o grande pesadelo.
Por mais contraditório que pareça, curtir uma infância invisível é uma condição que lhes dá, mesmo “aspadas”,
segurança, companheirismo e vivência libertária.
Pivetim cresceu desta reflexão. Brasileiríssimo, teria o espírito de
um Curupira, um Saci, um Erê, um Exu, um Abaçaí. Transgressor, inquieto, irreverente, sonhador.
Malabariasta de sinal de trânsito. Trombadinha na hora do rush. Um pé descalço equilibrando-se no fio da navalha.
Guardadas as devidas proporções, o moleque mestiço Machado de Assis era o seu reflexo. Miravam-se no mesmo espelho.
Assim como Pivetim, Machado de Assis permaneceu invisível, do seu nascimento em 1839 até 1854,
às vésperas de completar 15 anos, quando foi visto pelo livreiro Paula Brito que lhe deu a oportunidade
de publicar o poema “Ella”, seu primeiro texto tipográfico.
Quando vejo um Pivetim com uma lata de cola entorpecente ou um trezoitão engatilhado,
penso em Machado de Assis, vendendo doces nas praças de um Rio de Janeiro pestilento, ameaçador à infância,
como permanece ainda hoje. A disgrafia sócio-histórica que aproxima Machado de Assis dos pivetes contemporâneos
é que, ambos sempre portaram armas letais. Tanto quanto o revólver, o canivete, os furetes e os cacos de vidro
dos nossos meninos de rua, Machadinho era uma ameaça à sociedade iletrada dos oitocentos,
porque ele gostava de livros. Vivia com eles nas mãos. Aos 12 anos de idade, lia Tomás Antônio Gonzaga,
Victor Hugo, Virgílio e admirava Giacomo Leopardi.
Da mesma forma que os pivetes contemporâneos que vivem e sonham circunscritos às suas comunas,
Machadinho nasceu de uma encruza de Inquices (ou Orixás, da cultura Jêje-Nagô). Assim,
Kibuco (Xangô) tirou de Machadinho o dom da palavra, mas em troca ou acerto, lhe deu o dom da escrita;
Mungongo (Ogum) cruzou o peito dele com os ferros e o preparou para enfrentar a morte, uma constante na sua obra
e, por fim, Congobira (Oxossi), o terceiro Inquice da demanda, riscou um círculo com a ponta da flexa
e nunca permitiu que Machado de Assis arredasse pé do seu terreiro, ou seja,
que saísse do seu domínio: a cidade do Rio de Janeiro. Neste espaço, aparentemente limitado, ele construiu
uma obra única e universal.
Machado de Assis, apesar das limitações físicas e circunstâncias sociais, teve oportunidade. Os pivetins de
hoje reclamam isto. Reclamam uma mão estendida para que vivam a infância plena e esqueçam de vez o medo de crescer.
Se o livro Pivetim contribuir para provocar discussões neste sentido,
a conquista do quarto prêmio Barco a Vapor valeu à pena”.
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