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O texto de Cesário Alvim fora
uma mensagem divulgada através da lista de discussão da Comunidade Virtual da
Linguagem – CVL, em 02.jul.2003. Por nossa sugestão, a
conversa agora se estende aos leitores de Dobra da
Leitura. Agradecemos o autor pela colaboração.
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especial É o aluno – e o aprendizado da leitura?
Cesário Alvim Pereira Filho
Formado pela UFES, Mestre em Língua Espanholas e Literaturas Hispânicas pela UFRJ,
Professor da Cesat e do Curso de Línguas para a Comunidade da UFES
Há bolo podre no reino da Dinamarca, ou melhor, no Brasil. Supõe-se
que o aluno vá pegar o livro que goste e irá ler. Mas isto de fato é verdade?
Lamentavelmente, vivemos 'os brasis' das suposições. Supõe-se que o aluno
aprendeu, supõe-se que ele leu, e supõe-se que...
Enfim, suposições sem fim.
Ainda hoje, no Ensino Fundamental e Médio, como é que se
trabalha a leitura? Sempre que ouço alguém comentar que pediu aos alunos um
resumo de uma leitura, imediatamente pergunto: Você tem por hábito ensinar
de fato o que é um resumo, as etapas as quais devem ser obedecidas e
respeitadas para se fazer um resumo? Sempre ouço: não. Isto é muito sério,
não se pode pedir aquilo que não foi ensinado. "Não brincamos de aprender, mas
podemos até aprender brincando". Fazer resumo não é tarefa fácil. Mas tem
gente que acha que resumir é resumir. E no ensino, todos sabemos que não há e
nunca funciona o tanto faz.
Culpo
as escolas? não. Culpo os professores? também não. Apenas culpo a
incoerência.
Certa vez, conversei
com alguém que me perguntou: Você acha que o ensino de língua materna é
especial? Eu disse que não é, especial é o aluno, porque ele como elemento
social tem um compromisso de devolver ao meio aquilo que realmente aprende(u)
na escola. Mas se não aprende, irá devolver o quê à
comunidade?
Chateia-me ainda
ouvir algumas pessoas falarem algo do tipo: dá um texto para estimular os
alunos. Por acaso texto é comprimido? Texto é estimulante tão
somente?
Texto é algo sério.
Aluno tem que gostar, sim, do texto que lê. É bom gostar do que se faz. No
entanto, só gostamos daquilo que conhecemos. E o aluno sabe o que é ler?
Quando alguém me diz que não gosta de música erudita, me pergunto será que ele
já ouviu toda a obra de Bach? Ouvir apenas a introdução das Quatro
estações de Vivaldi, não diz em nada que alguém seja um amante de
música clássica.
Ler, enquanto ou
como exercício de aprendizagem, também é feito na sala de aula. Acredito que
não se passa o envolvimento com a leitura somente pelo simples fato de gostar
ou não. Nós, alunos, temos que ler. Necessitamos
ler.
Ler não é obrigação, ler
é um exercício da cidadania. Ler é compromisso pessoal. Não se lê somente o
que se gosta, não se trabalha somente onde se gosta, não se estuda
exclusivamente na escola que se gostaria... Nem sempre moramos na cidade que
gostamos, mas temos que procurar fazer o melhor com aquilo que está ao nosso
alcance.
Já imaginou se o
professor de Faculdade não trabalhar com Drummond porque o aluno simplesmente
não gosta? Ou então o aluno não querer ler Chomsky ou Sausurre porque não
"acha legal" ou sentencie: não gosto. A pergunta é: acaso o aluno conhece bem
e a fundo a idéia dos autores? É inconcebível que isto exista ou venha a
existir em nosso ensino porque há leituras que são necessárias: ler é preciso,
assim como disse o poeta que navegar é preciso.
Também não se vai enfiar goela abaixo do aluno Machado de
Assis, porque ele tem que ler Machado, por ler. Entretanto, acredito que há
algumas leituras que têm que ser ou que são obrigatórias na formação
curricular do estudante. Respeitar o gosto do aluno obedece a um limite desde
que esse gosto não atrapalhe, ameace ou impeça repassar a cultura — não uma
cultura em que não se reflita sobre o que se lê, mas uma cultura de sala de
aula em que se lê para conhecer e discutir o universo social e cultural que
nos cerca. Portanto, há autores fundamentais para se compreender nossa bela e
vasta cultura, nossa tão querida história, uma vez que se compreende a
finalidade da escola, em que se situa a leitura, como sendo também a
manutenção e a perpetuação da cultura.
Diante das manchetes de jornal, do quadro de que "mais da
metade dos estudantes brasileiros não compreende o que lê", permanece a
pergunta: a culpa é do aluno? Ah! se alguém disser isto, então voltamos ao
paraíso?! O aluno é o Adão e a aluna é a Eva? E quem é a
cobra?
A busca de soluções é a
saída mais sensata para todos nós, mas há aqueles que ainda preferem
unicamente uma saidera. Pessoalmente, gosto muito da afirmação de Frank
Smith: "Não há nada de especial na leitura, a não ser tudo que nos
possibilita fazer. O poder que a leitura proporciona é enorme, não somente por
dar acesso a pessoas distantes e possivelmente mortas há muito, mas também por
permitir o ingresso em mundos que, de outro modo, não seriam experimentados,
que, de outro modo, não existiriam. A leitura permite-nos manipular o próprio
tempo, envolvemo-nos em idéias ou acontecimentos em uma proporção e em uma
seqüência de nossa própria escolha. Não possuímos este poder quando escutamos
alguém falar, ou quando vemos um filme."
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