Biblioteca: tempos e espaços de uma leitura
Carlos Rizzon
Universidade Estadual de Santa Cruz – BA
Tomando a biblioteca como imagem de um território polifônico que reúne diferentes tempos e espaços de escrita e de leitura, desejo, nesta comunicação, tecer breves e pontuais considerações acerca de algumas reflexões que possibilitarão o desdobramento de alguns conceitos para indicar o caráter de produtividade do texto e o trabalho do leitor na construção do seu universo literário. Para isso, parto da idéia de biblioteca não como um acervo estático de livros, mas segundo a noção trazida por Jorge Luis Borges, onde a biblioteca é “aquilo que outros chamam de universo”, ou seja, um lugar dinâmico, lugar de trabalho e de prazer. Idéia que se aproxima à formulação apresentada por Jean Christophe Bailly, em Le propre du langage, onde compara os livros aos vinhos e a biblioteca a uma adega:
Se as bibliotecas são literalmente as cavernas do saber humano (na obscuridade dos livros fechados o sentido trabalha continuamente), os livros apresentam sempre sobre as garrafas a vantagem de poder ser bebido (lido) a todo momento e de se conservar sem limitações, assim eles são inesgotáveis: mesmo bebido de um trago, a garrafa continua cheia. (BAILLY, 1997: 23)
Si les bibliothèques sont littéralment les caves du savoir humain (dans l’obscurité des livres fermés le sens travaille continûment), les livres présentent toutefois sur les bouteilles l’avantage de pouvoir être bus (lus) à tout moment et de se conserver sans limitation, ainsi que celui d’être inépuisable: même bue d’un trait, la bouteille reste pleine.
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Como aponta o crítico francês, a exemplo dos bons vinhos, também os livros devem submeter-se ao trabalho dos anos. O tempo vai conferir às obras o gosto especial e particular de cada uma delas. Mas os livros, ressalta Bailly, têm uma vantagem sobre os vinhos: eles são inesgotáveis porque estão sempre construindo outros sentidos. Essa noção de trabalho do texto nos remete ao pensamento de Roland Barthes:
O texto é uma produtividade. Não quer dizer que ele é o produto de um trabalho (...), mas o teatro mesmo de uma produção onde se juntam o produtor do texto e seus leitores: o texto “trabalha”, a cada momento e em qualquer lugar que o tomemos, mesmo escrito (fixado), ele não pára de trabalhar, de alimentar um processo de produção. (BARTHES, 1996: 998)
Le texte est une productivité. Cela ne veut pas dire qu'il est le produit d'un travail (...) mais le théâtre même d'une production òu se rejoignent le producteur du texte et son lecteur: lê texte “travaille”, à chaque moment et de quelque côte qu'on le prenne; même écrit (fixé), il n'arrête pas de travailler, d'entretenir un processus de production.
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Esse trabalho de produção do texto se dá através da sua relação com outros textos. Ao contrário do vinho, que depende muito da região geográfica onde é produzido, os livros têm a liberdade de serem cotejados às obras escritas em qualquer lugar, sem limites nacionais. Ao conceituar Weltliteratur, em 1827, Goethe buscava opor-se às classificações restritas e compartimentadas entre literatura nacional e literatura
mundial
para resgatar na poesia um patrimônio comum da humanidade. Esse patrimônio seria uma espécie de biblioteca formada por grandes obras, não importando a nacionalidade do autor, mas sim o critério do bom e do belo literário. Dessa forma, sua visão possibilitava uma interação entre literaturas através de trocas interculturais, onde as literaturas nacionais sofreriam transformações pelo contato entre autores e obras de diferentes países. Nessa perspectiva, adquire vital importância o processo de tradução, caracterizado por Goethe como mediação e interação entre as transações culturais. No entanto, Octavio Paz observa que a tradução não é apenas uma supressão das diferenças, mas mais plenamente ela revela os modos distintos de expressão e pensamento de cada cultura, implicando em uma transformação do texto original. Diz o escritor e ensaísta mexicano:
O texto original jamais reaparece (seria impossível) na outra língua; no entanto, está presente sempre porque a tradução, sem dizê-lo, o menciona constantemente ou o converte em um objeto verbal que, ainda que diferente, o reproduz: metonímia e metáfora. (PAZ, 1981: 44)
El texto original jamás reaparece (sería imposible) en la otra lengua; no obstante, está presente siempre porque la traducción, sin decirlo, lo menciona constantemente o lo convierte en un objeto verbal que, aunque distinto, lo reproduce: metonimia o metáfora.
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Para Octavio Paz, o processo de tradução resulta em uma transcriação, onde o texto traduzido será a um só tempo o mesmo texto original, mas também um outro. A busca pela literatura do outro e sua reciprocidade preconizada por Goethe revela o que Todorov considerou como significação compartilhada, ocasionando então as transformações das literaturas nacionais a partir das trocas universais não pela perda das especificidades, mas no reconhecimento da universalidade do que lhe é próprio de cada manifestação literária. Assim é possível reconhecer na linguagem sertaneja de um Guimarães Rosa reflexões de questões existenciais amplas e profundas capazes de compreensão em qualquer cultura. Porém o resgate do nacional em meio ao universal também deve ser considerado. O próprio Guimarães Rosa reconhecia essa direção, pois via em Goethe um sertanejo que pensava no infinito. Guimarães Rosa era capaz de receber as idéias estrangeiras para incorporá-las a sua própria cultura, sem contudo entregar-se a elas. Eloá Heise explica esse duplo movimento: “o universal interage com o nacional, torna o nacional mais atuante, fazendo, por sua vez, com que o nacional se abra rumo ao universal.” (HEISE, 2000: 82)
A universalização contrapõe-se à globalização de mercado tão presente nos dias de hoje. Enquanto a globalização ajusta uma uniformidade ditada por padrões comerciais, padrões expansivos e dominadores, a universalização reconhece uma pluralidade cultural e busca seus intercâmbios, que possibilitam o conhecimento a partir da perspectiva de alteridades, a partir das múltiplas visões de diferentes povos.
Avançando em relação à idéia de Weltliteratur trazida por Goethe, que reunia na sua biblioteca, no patrimônio comum da humanidade, as obras significativas, hoje faz-se necessário reconhecer na universalização não só obras canônicas, mas também, em sentido mais amplo e mais literal de Weltliteratur,
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Bibliotecas: Elas não são mais apenas para a leitura...
Online: John Jones's blog (University of Texas, Austin)
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aquelas narrativas dos escritores da periferia do pensamento etnocêntrico, propiciando um diálogo maior. Conforme propõe Homi K. Bhabha, “o estudo da literatura mundial poderia ser o estudo do modo pelo qual as culturas se reconhecem através de suas projeções de alteridade.” (BHABHA, 1998: 65)
Em La biblioteca de Babel, Jorge Luis Borges descreve a biblioteca composta por um número indefinido, “tal vez infinito”, de galerias hexagonais repletas de livros. Essa biblioteca é uma esfera, “cuyo centro cabal — lemos no conto — es cualquier hexágono” (1989: 521). Não há, portanto, para a literatura, um centro de onde emanaria um saber principal, a produção cultural por excelência, e ao redor do qual gravitariam hexágonos periféricos. Esse hexágono central, durante muito tempo no estudo da literatura (e da produção cultural em geral), foi a Europa. Ainda hoje, o senso comum assinala o velho continente como a origem e o centro da civilização e da cultura. Mas, no conto de Borges, o centro é qualquer hexágono, é qualquer continente, qualquer nação. E, sendo assim, o centro é também lugar nenhum. Se quisermos considerar cada hexágono como um país ou um continente, não teremos mais a noção de centro entre eles. Nem de dívida da literatura de uma nação para com a de outra. As literaturas asiática, africana, americana, européia, brasileira – se pensarmos nelas como hexágonos – estarão interligadas, sem possibilidade de isolamento ou de estabelecimento de hierarquias.
A coletivização do conhecimento expressa-se pela intertextualidade, onde se constrói uma rede de relações que constitui em um novo texto as leituras de textos anteriores, configurando no processo de escrita um processo de releitura e no processo de leitura um processo de reescrita, o que estabelece o caráter de produtividade do texto. Dessa forma, um texto sempre representa a leitura de outros textos. Disso não escapamos, como observa Ricardo Piglia, lembrando o lamento do escriba egípcio Khakheperresenb em um escrito do ano de 2000 a.C.:
“Oh, se pudesse encontrar frases desconhecidas, palavras novas em uma língua pura e nunca usada, palavras livres e despojadas de repetições e não estas palavras ditas e gastadas e usadas já pelos antigos”. (PIGLIA, mímeo)
Oh, si pudiera encontrar frases desconocidas, palabras nuevas en una lengua pura y nunca usada, palabras libres y despojadas de repeticiones y no estas palabras dichas y gastadas y usadas ya por los antiguos.
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Em La biblioteca de Babel, Jorge Luis Borges também faz constatação de que os símbolos ortográficos são restritos, “los libros, por diversos que sean, constan de elementos iguales: el espacio, el punto, la coma, las veintidos letras del alfabeto” (1989: 518), no entanto isso não impede que as obras sejam diferentes.
Nesse conto, um dos bibliotecários encontra um livro com uma linguagem estranha e difícil de ser reconhecida, porém conclui-se que o dialeto empregado constitui-se pela influência de várias línguas: “Antes de un siglo pudo establecerse el idioma: um dialecto samoyedo-lituano del guaraní, con inflexiones de árabe clásico” (1989: 519). Percebe-se que a obra referida traz as marcas de textos mais antigos e não canônicos, o que demonstra que o diálogo intertextual proporciona a manifestação de outras culturas. Vemos aqui a concepção de pluralidade em Borges, que amplia a noção de Weltliteratur para além do espectro das obras representativas, idéia presente em Goethe. Para Borges, a biblioteca é lugar de todos os saberes e de todas as literaturas, espaço interminável e total.
Nesse sentido, conforme aponta o escritor Carlos Fuentes, uma biblioteca ou um livro representam todas as bibliotecas e todos os livros, pois formam um conjunto em que autores e obras de diferentes tempos e dos mais variados lugares encontram-se reunidos em um mesmo momento e em um mesmo espaço, contemporâneos uns dos outros. Resgatando o pensamento de Giambattista Vico, historiador do século XVIII que concebeu a história não em um tempo linear, mas em um movimento cíclico, Fuentes questiona a idéia de um tempo único de escrita e de leitura:
Que tempo e espaço são conceitos relativos e criações da linguagem. (...) Que o passado tem uma presença e que a literatura é a forma potencial onde tempos e espaços marcam um encontro imaginário, se conhecem e se recriam. (FUENTES, 1992: 35)
Que tiempo y espacio son conceptos relativos y creaciones del lenguaje. (...) Que el pasado tiene una presencia y que la literatura es la forma potencial donde tiempos y espacios se dan cita imaginaria, se conocen y se recrean.
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Segundo Fuentes, aqueles que podem perceber a simultaneidade de obras de diferentes tempos são os leitores, que constrõem a sua biblioteca colocando Cervantes junto a Verissimo, Verissimo junto a Borges, Borges junto a Lélia Almeida... A leitura a partir de diferentes lugares e de diferentes épocas é que possibilita a pluralidade das leituras. É a experiência de leitura do leitor que possibilitará a releitura de obras anteriores através das relações intertextuais. Em texto do final dos anos 90, João Alexandre Barbosa observa uma preocupação para que possamos construir a nossa biblioteca do futuro: “No momento, no difícil momento de fim de século, o que resta, como restava para aqueles homens que viviam os difíceis momentos de entre-guerras, é cuidar de nossa biblioteca imaginária, metáfora para o cânone daquele tempo que virá”. (BARBOSA, 1996: 58)
Portanto, cabe a nós, leitores, no nosso ato de leitura, a escolha do universo que queremos, da biblioteca que queremos construir.
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Referências Bibliográficas
BAILLY, Jean-Christophe. Le propre du langage . Paris: Seuil, 1997.
:: BARTHES, Roland, Texte (théori du). In: Enciclopedya universalis . Paris, 1996, p. 998.
:: BARBOSA, João Alexandre. A biblioteca imaginária ou o cânone na literatura brasileira . São Paulo: Ateliê Editorial, 2003. 2ªed.
:: BHABHA, Homi K. Introdução: Locais da cultura. In: O local da cultura . Belo Horizonte: UFMG, 1998.
:: BORGES, Jorge Luis. La biblioteca de Babel. In: Ficciones. Obras completas . Buenos Aires: Emecé, 1989.
:: FUENTES, Carlos. Valiente mundo nuevo . México: Fondo de Cultura Económica, 1992.
:: Lectura. In: En esto creo . Barcelona: Seix Barral, 2002.
:: HEISE, Eloá. Goethe, um teórico da transnacionalidade. In: ABRALIC. Revista Brasileira de Literatura Comparada , nº 5. Salvador, 2000.
:: PAZ, Octavio. Traducción: literatura y literalidad . Barcelona: Tusquots, 1981.
:: PIGLIA, Ricardo. Vivencia literaria. (mímeo)
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