

Artigo em duas partes condensado do trabalho de conclusão de curso
de Espe-cialização em História Moderna/UFF,
sob orientação do Prof. Dr. Ronald Raminelli -
agosto/2006

* no detalhe, imagem do frontispício de
Prophéties perpétuelles, de T.-J. Moult,
editado pela Casa Garnier, século XVII.
Bibliothèque virtuelle du Médiathèques de l'Agglomération Troyenne (Bbl288)

| |
SEGUNDA PARTE
textos ao alcance de todos
Adriana Maria Loureiro
Pedagoga do Colégio Técnico da
Universidade Federal Rural
do Rio de Janeiro — UFRRJ
A simples observação dos passageiros do metrô em qualquer grande cidade do mundo nos mostra algo interessante.
Vivendo a época da imagem, em pleno século XXI, fica difícil imaginar que as pessoas a caminho do trabalho ou
de casa estão, com muita freqüência, acompanhadas da leitura. São jornais, livros ou revistas, onde buscam
informação e lazer. Independentemente da classe social, os textos circulam entre elas em meio a partidas,
paradas ou sinais. Uma atividade individual, silenciosa, apesar de tantos ruídos rondarem aquele local.
Ruídos que seriam maiores se as práticas de leitura não tivessem se modificado ao longo dos anos. Imaginemos
a confusão que seria se, em pequenos grupos, esses trabalhadores lessem as notícias ou os romances em altos brados,
como se fazia há cinco séculos.
A cultura européia na era pré-Gutenberg era baseada na oralidade. Os textos sofriam alterações de acordo
com os interesses de quem lia e repassava os conteúdos. Estes, por sua vez, sofriam novas modificações
quando recontados. É o famoso “quem conta um conto, aumenta um ponto”. A substituição da leitura em voz alta
pela silenciosa foi a grande novidade para a formação do leitor moderno.
Houve o surgimento de um diálogo íntimo entre leitor e texto. Segundo Michel de Certeau, houve uma libertação do leitor, pois afirma que a leitura:
não é mais acompanhada, como antes, pelo rumor de uma articulação vocal, nem pelo movimento de
manducação muscular. Ler sem pronunciar em voz alta ou à meia voz é uma experiência ‘moderna’, desconhecida
durante milênios. Antigamente, o leitor interiorizava o texto; ele fazia de sua voz o corpo do outro; ele era,
ao mesmo tempo, autor. Hoje o texto não impõe o seu ritmo ao indivíduo, ele não se manifesta mais pela voz do
leitor. Essa suspensão do emprego do corpo, condição de sua autonomia, equivale a um distanciamento do texto.
Ela é o habeas-corpus do leitor (Chartier, 1999: 23).
Essa individualização do leitor modifica para sempre sua relação com o texto. Jean Hebrárd afirma que “para a sociologia das práticas culturais, a leitura é uma arte de fazer, que se herda mais do que se aprende” (2001: 37). O trabalho da leitura é, principalmente, o de produção de sentido.
|
 Retrato de um homem com um livro, de Parmigianino (1503-1540).
Artfund.

 Leitoras, de Jean Raoux (1677-1734).
Musee de la Societe Archeologique, Montpellier - França © The Bridgeman Art Library. Fonte:
Easy.Art.

|
A velha “moral da história” foi substituída por diferentes morais, visto que cada um passou a interpretar o que lia à sua maneira, de acordo com a sua leitura de mundo.
Antes, presente entre os nobres, o livro foi se espalhando entre os ditos, homens comuns. O acesso das camadas populares aos textos começou a se fazer presente com o aumento da circulação dos livros escritos em línguas vernáculas. Menocchio, citado anteriormente, é um exemplo. Valentin Jamerey-Duval, outro. Expulso de casa pela miséria da família aos treze anos, este camponês não escolarizado do século XVIII, tornou-se, aos vinte e cinco anos, professor de História e de Antiguidades na academia de Lunèville, no ducado de Lorena. Autodidata, a trajetória de Jamerey-Duval é uma amostra da popularização do livro e do novo leitor que se formou na Europa — com possibilidade de ascensão social pela leitura.
Os homens do século XVIII habitavam um universo mental que não existe mais. A eles importava muito a aparência do livro, pois isso também representava a importância do texto. A Idade Moderna trouxe uma necessidade de criação de aparência, seja no vestuário, nos modos, e até no que era lido. A beleza da encadernação era tão importante quanto o escrito. Somos os filhos desses leitores modernos ávidos pelo conhecimento e em busca da novidade, embora vivamos hoje em uma sociedade em que saber ler não é somente poder decifrar um livro único, mas mobilizar as múltiplas riquezas da cultura escrita, para a utilidade ou prazer.
A Biblioteca Azul
A maior parte do comércio de armarinhos da cidade de Troyes é feita com os ambulantes que vêm abastecer-se da Biblioteca Azul.

Memorial redigido em 1760
|
A história do impresso está diretamente relacionada à história de uma prática cultural. A sociologia histórica da leitura possui dois objetivos fundamentais em seus estudos: estabelecer as correlações entre pertença social e produções culturais, além de identificar objetos (textos) próprios aos diferentes meios sociais. Estudos mostram que nas sociedades dos séculos XVI a XVIII, os materiais tipográficos (entre eles, o livro) estavam mais presentes e partilhados do que se pensou, sendo que os mesmos textos são objetos de múltiplas decifrações, contrastantes socialmente. O novo leitor lê diferentemente dos anteriores. Não há mais a rigidez da interpretação. E o livro se torna um objeto de desejo. Bourdieu afirma que “um livro muda pelo fato de que ele não muda quando o mundo muda” (apud Chartier, 1999: 22), mas quando seu modo de leitura muda. Foi isso que ocorreu progressivamente nas sociedades modernas.
Os chapbooks na Inglaterra ou os pliegos de cordel na Espanha mostram que a Biblioteca Azul não foi uma originalidade francesa, mas os registros existentes sobre esses livros, saídos da região de Troyes, na Champagne, apontam para a importância de um movimento que tinha o objetivo de levar textos impressos às camadas mais populares da sociedade. Esse processo não foi simples, mas teve a Biblioteca Azul como um dos principais impulsos. Os livros deveriam chegar a todas as camadas da sociedade, ampliando o público de leitores, em um período em que somente às elites cabiam os livros. Mas, como dar às massas condições de conhecerem e interpretarem textos? Um processo de adaptação foi operado no texto de obras apropriadas pela Biblioteca Azul, reescritos em uma matriz cultural diferente daquela de seus destinatários originais. Com isso, diversas vezes era grande a distância entre a primeira publicação do material e sua entrada na Biblioteca Azul.
Brochuras normalmente encapadas em papel (nem sempre azul) e com um custo de produção de menos de um centavo por exemplar (o preço de revenda era maior, mas ainda acessível), os livros azuis se tornaram progressivamente, entre 1660 e 1780, um elemento particular da cultura camponesa. Textos de ficção cômica, conhecimentos úteis e exercícios de devoção agradaram de forma imediata às camadas popular e rural. A Biblioteca Azul constitui-se de um acervo que buscava o leitor — ia até ele e isso foi um ponto importante para seu sucesso: as distâncias entre livro e leitor foram encurtadas pelos mascates. Não era mais preciso ir às cidades para ler. A leitura chegou ao campo.
Publicados por editores como Oudot ou seu rival, Garnier, a prática era buscar entre os textos já editados aqueles que se julgava como os mais adequados ao grande público.
| 
Um caminho inesperado: a Bibliothèque Bleue primeiramente
chegou ao campo antes de conquistar leitores em toda França.
Capa de A vida, as aventuras galantes e os divertimentos do Duque de Roquelaure,
obra burlesca pertencente à "biblioteca azul" de Troyes, impressa por Baudot.
Frontispício de um exemplar popular da História de Jean de Paris. Troyes: Baudot.
Conversa agradável de dois camponeses sobre assuntos do cotidiano,
obra burlesca impressa por Jacques Oudot.
 Exemplares do acervo virtual da Médiathèques de l'Agglomération Troyenne.

|
Não podemos deixar de mencionar que a livraria ambulante não era dedicada apenas às obras antigas; havia uma busca pela novidade, por títulos da moda — resultando daí a diversidade do repertório de Troyes — textos que podiam ser comprados por um vasto número de leitores, em resposta a uma expectativa partilhada, seja da ordem da devoção, da utilidade ou do imaginário.
O catálogo dos textos transformados em livros azuis não era deixado ao acaso. Tratavam da vida de Santos, de contos de fadas, romances de cavalaria, receitas culinárias, aprendizado, discursos sobre as mulheres, etc. Eram ligados ao cotidiano e obedeciam a certas estruturas ou narrativas que empregam temas comuns. Mais do que os temas, o parentesco das estruturas textuais explica a escolha dos impressores, pois deviam estar em sintonia com as competências culturais do público alvo.
Os originais sofriam alterações a fim de facilitar a vida do leitor: a apresentação do texto era remodelada, com multiplicação dos capítulos e aumento do número de parágrafos — o que seria de auxílio para a retomada do texto quando a leitura fosse interrompida. Cortes eram feitos nos romances azuis, amputando narrativas supérfluas e descrições de propriedades sociais ou estados psicológicos. Havia também uma modernização de fórmulas gramaticais envelhecidas ou difíceis, com um enxugamento das frases. Tudo era dirigido pelo modo de leitura que os editores pensavam ser o da clientela almejada. A redução dos textos objetivava, em alguns casos também, censurar referências à religião e depurar a narrativa de tudo o que aparecesse como blasfematório. Esse trabalho de adaptação era feito principalmente por clérigos, letrados e dignitários champanheses, que buscavam dar uma nova legibilidade aos livros azuis, mesmo que os cortes tornassem os textos, por vezes, difíceis de serem compreendidos, pois geravam incoerência.
Porém, tais problemas não afetavam a venda dos livros. A relação do texto azul com seu comprador é diferente da relação do leitor tradicional e seus livros. O livro azul até poderia ser considerado inútil, mas nem por isso deixava de vender. Há quem diga que os livros azuis não eram comprados para serem lidos — e os erros nos livros de aritmética, por exemplo, dão suporte a essa afirmação, pois suas explicações matemáticas jamais foram contestadas. A posse do livro valia mais do que a própria leitura e às incoerências não era atribuída importância...
Naturalmente, a Biblioteca Azul visava a uma prática de leitura diferente da elite erudita ou daqueles já familiarizados com o livro. Seus leitores eram numerosos e cambiantes. O pré-conhecimento das narrativas ou qualquer outro conteúdo era utilizado para a compreensão dos textos. Assim, a leitura do catálogo azul caracteriza-se mais como uma modalidade de reconhecimento do que uma leitura de descoberta, como se pode ver nas memórias de Jamerey-Duval:
“Era um daqueles livros que formam o que se chama na França biblioteca azul e que tinha por título a Vida de Jesus Cristo com a de Judas Iscariotes, impressa em Troyes na Champagne (...) Os habitantes do campo o sabiam de cor e o punham nas mãos de seus filhos para aprender a ler”. (Chartier, 2004: 282)
Como não se tratava de uma idéia original, a fórmula da Biblioteca Azul não foi utilizada apenas pelos troyenses, que não detinham o monopólio dos livros azuis. Em outras cidades, como Besançon ou Dole, impressores lhes faziam concorrência. A difusão desses livros era feita por diferentes revendedores, sedentários ou itinerantes, que pudessem atingir a todas as clientelas possíveis. Não soa estranho que os títulos e a própria apresentação dos livros da Biblioteca Azul tivessem sido, assim, alvos de crítica e contestação. Normalmente, uma ilustração era colocada no começo de um livro para induzir à leitura. Fazendo parte do corpo do livro, as ilustrações azuis eram diferentes e serviam como suporte sensível para melhor compreensão do texto por parte de um leitor em formação.
Considerada uma leitura dos rústicos, a Biblioteca Azul era um forte elemento da cultura camponesa, entre 1660 e 1780. Mas, ao final do século XVIII, os livros troyenses – ou seus equivalentes – passaram a circular pelas cidades e atingiram uma sociedade urbana que desejava possuir os livros azuis, não importando se as edições fossem ou não eruditas, como pode ser visto no quadro Heures de Loisirs, testemunho tardio de Georges Croegaert, no século XIX. Práticas plurais de leitura foram assim se materializando, mas nenhum arquivo guarda vestígios de como eram conduzidas. O grande indício do uso da Biblioteca Azul é o próprio conjunto de livros remanescentes, popularizados em um período de desejo de libertação das idéias.
Considerações Finais
Alvo de adoração e crítica, o livro teve sua morte anunciada com o desenvolvimento tecnológico. O áudio livro seria uma solução para a vida corrida — os textos passados a mídias específicas como um retorno à contação de histórias. Outro suporte, o e-book permite o arquivamento de obras inteiras, ocupando um espaço mínimo — além do tempo, sofremos com a diminuição do espaço em nossas casas hoje.
Em 1953, um autor americano de ficção científica, Ray Bradbury, também se preocupou com o fim dos livros. Em Fahrenheit 451, bombeiros de uma sociedade futurista queimam bibliotecas e às pessoas só eram permitidos momentos de “diversão” em suas casas, com telões interativos que ocupavam três, quatro paredes de um mesmo cômodo. Pensar seria considerado um ato criminoso; possuir livros, passível de condenação legal. Se compararmos a ficção de Bradbury ao que as pessoas comuns viviam nos séculos XVI e XVII, o que veremos são muitas coincidências. Não só livros foram queimados, mas leitores também, dependendo do que liam. As formas de divulgação da cultura oral também devem ter inspirado o escritor americano: em sua história, os livros queimados estavam armazenados nas mentes de professores de filosofia e literatura para serem, um dia, reescritos — assim como as histórias camponesas que circulavam pela Europa (e que até hoje contamos às crianças), os livros consagrados seriam, no futuro, modificados ao sabor e interesses de cada livro-vivo e sua platéia.
Entre nós, as comunidades de leitores do século XVII passam a ser recriadas nas comunidades virtuais onde os jovens expõem suas opiniões e desejos — o livro como fonte de lazer que as pessoas buscam intimidade. A Biblioteca Azul e sua aproximação com as camadas mais populares servem de espelho para nós até hoje: e não há motivos para inquietação.
Facilidade os títulos sublinhados você encontra na
|
| |
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRIGGS, Asa; BURKE, Peter. Uma história social da mídia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.
BURKE, Peter. A escrita da história: novas perspectivas. São Paulo: Unesp, 1992.
CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do leitor ao navegador. São Paulo: Unesp, 1999.
:: A ordem dos livros: leitores, autores e bibliotecas na Europa entre séculos XIV e XVIII. Brasília: UnB, 1999.
:: (org.) Práticas da leitura. 2.ed. São Paulo: Estação Liberdade, 2001.
:: Leituras e leitores na França do Antigo Regime. São Paulo: Unesp, 2004.
|
|