Artigo em duas partes condensado do trabalho de conclusão de curso de Espe-cialização em História Moderna/UFF, sob orientação do Prof. Dr. Ronald Raminelli - agosto/2006

* no detalhe, imagem do frontispício de Prophéties perpétuelles, de T.-J. Moult, editado pela Casa Garnier, século XVII. Bibliothèque virtuelle du Médiathèques de l'Agglomération Troyenne (Bbl288)



PRIMEIRA PARTE
a nova ordem do livro

Adriana Maria Loureiro
Pedagoga do Colégio Técnico da
Universidade Federal Rural
do Rio de Janeiro — UFRRJ





Em A maior flor do mundo, José Saramago (2001) se propõe a escrever uma história para crianças, admitindo desde o início, não saber realizar tal tarefa. O leitor é incentivado pelo autor a recontar com suas palavras a bela história do menino de uma pequena aldeia que salva uma flor de proporção gigantesca. Tarefa instigante.
        Contar histórias é um hábito presente em nossas vidas. Mães contam aos seus filhos; professores, aos alunos. Todas as noites, muitas pessoas se sentam diante da TV para ouvirem parte de uma história. A Sherazade eletrônica invade as casas sem medo da morte, narrando seus capítulos, há muito mais do que mil e uma noites. E a audiência é cada vez maior.
O costume de se contar histórias vem de uma época em que nem todos tinham acesso ao escrito e a oralidade assim predominava. Camponeses contavam histórias sobre a nobreza, geralmente com um cunho pejorativo — o que poderia ser considerada uma forma de vingança. O Gato de Botas é um exemplo... E essas histórias circulavam, sem autores, mas cheias de coincidências e adaptações.
As reuniões para ouvir histórias sofriam interferências dos contadores e do público, tanto em relação às narrativas quanto aos comentários feitos. Sendo que a interpretação era sempre a de quem detinha o conteúdo. Era assim nas igrejas, nos serões nobres e populares. Com a prensa e a difusão dos textos escritos, surgiu um público leitor e um novo mercado. Um livro para uma pessoa de cada vez. O silêncio imposto por esta nova prática permitiu o surgimento de um novo diálogo — os comentários, antes dos ouvintes, passaram a ser exclusivos do leitor, assim como a interpretação dos textos.
Hoje, em pleno século XXI, essa prática está se modificando novamente. Como professora do Ensino Médio há quase dez anos, observo o mundo letrado de meus alunos. Suas carteiras escolares são decoradas com imagens e formas escritas: são poemas, declarações de amor, xingamentos, desenhos, grafites e pichações que fazem com que os jovens se comuniquem entre si por meio de códigos próprios. Contraditoriamente, nas salas de professores, as falas mais comuns são sobre a ausência da leitura na vida dos alunos. Parecendo esquecer das novidades de nossa época, muitos depreciam a tecnologia e a alta comunicação existente entre eles — no Orkut, por exemplo. Desejam que meninos e meninas, bombardeados por imagens, sons e letras o tempo todo, leiam como antes. Difícil para todos.
Se hoje há problemas, podemos imaginar como fora a mudança da prática de leitura no período moderno. Mexeu muito mais com a ordem do que o computador agora, pois alterou a forma de pensar e libertou as idéias, até então adormecidas. Se hoje vivemos um período de liberdade de expressão, devemos àqueles homens e mulheres que desceram do muro da conformidade e mudaram o mundo, literalmente. Se antes, o livro pertencia aos nobres e ao clero, o povo pôde, finalmente, ter acesso a ele.
O objetivo deste artigo é apresentar a formação do novo leitor dentro de um contexto histórico, destacando a importância de Gutenberg e sua prensa para a divulgação do escrito e, mais especificamente, tratar da Biblioteca Azul: livros que se popularizaram entre os camponeses. O desejo de possuir este objeto mudou a Europa e a entrada dele no campo criou um novo homem, capaz de ler e interpretar o mundo a partir de sua própria realidade. Um homem cujas experiências lhe dariam poder e liberdade — ou até mesmo, risco de morte, pois aos detentores do poder foi difícil aceitar a novidade. Quando Saramago recomendou aos seus leitores que recontassem sua história, sabia que cada uma seria diferente da anterior, fruto deste pensamento que pôde se libertar e recriar o que já existia a partir de seu conhecimento de vida. E é importante que valorizemos esse homem do campo, que através do livro, promoveu uma revolução tão grande nas idéias que acabou por mudar a ordem de um mundo em formação.

Gutenberg e a nova ordem do livro
A arte da impressão disseminará tanto conhecimento que as pessoas comuns, sabedoras de seus direitos e liberdades, não serão governadas de forma opressora.

Samuel Hartlib, exilado do Leste europeu na Grã-Bretanha, em 1641

Em 1450, a invenção de uma prensa gráfica por Gutenberg na Europa, modificou o rumo da história da leitura. Não era uma novidade absoluta, pois na China e no Japão já havia impressão desde o século VIII, com blocos de madeira talhados imprimindo uma única página — mas a invenção ocidental possibilitou o surgimento de uma nova ordem. Foi o fim do monopólio do clero sobre textos e o início da popularização de um artigo que se tornou, com o passar dos tempos, rentável, além de uma fonte de transmissão de informações variadas e um objeto de lazer.
O novo invento pode ter ocorrido devido a rumores sobre o que acontecia no Oriente e é certo que, em 1500, já existiam 80 máquinas de

Uma antiga oficina de impressores. Ao fundo, dois homens montam matrizes com os tipos móveis; em segundo plano, um artesão retira uma prova enquanto outro limpa o excesso de tinta; à frente, uma pilha de páginas impressas ao lado do papel em branco. Imagem sem créditos, extraída de um projeto do Centro Educional de Ciência e Tecnologia, Universidade de Tel-Aviv.

impressão na Itália, 52 na Alemanha e 43 na França. Apenas cinqüenta anos após o feito de Gutenberg, 13 milhões de livros circulavam em uma Europa de 100 milhões de habitantes. Mas, como qualquer novidade, o livro enfrentou resistência. Os escribas, ameaçados pela nova tecnologia, eram contra a impressão gráfica. Para a Igreja, era uma ameaça, pois permitiria aos leitores que ocupavam baixa posição na hierarquia social e cultural do clero estudar os textos religiosos por conta própria, não mais confiando no que as autoridades afirmavam. Até os jornais (que hoje apóiam a difusão do pensamento) no século XVII veriam problemas: na Inglaterra, na década de 1660, publicavam que “mais males que vantagens eram causados ao mundo cristão pela invenção da tipografia”. E o poeta inglês, Andrew Marvell, em 1672, viria a dizer: “Ó Tipografia! Como distorcestes a paz da Humanidade” (Burke, 2004: 28).
O conflito de opiniões sobre as publicações impressas se dava pelo seguinte: ao mesmo tempo em que elas tornariam o conhecimento acessível a um público maior, permitiriam às novas gerações participarem do trabalho intelectual das gerações anteriores. Isso ameaçava seriamente a ordem européia. As verdades absolutas, até então incontestáveis, poderiam se tornar alvo de críticas ou dúvidas.


Popular entre as elites,
o livro atingiu a um público novo e ávido,
no mundo moderno.
O interesse do camponês pela leitura coincidiu
com a Reforma Religiosa, com as Luzes e a mudança da ordem européia.
Contudo, sob resistência ou não, houve uma explosão de informação, algo semelhante ao que temos em nossos dias com a Internet: muitos amam, muitos não compreendem, mas é inegável a quantidade de informação que por ali circula.
Voltemos ao passado: a tradução da Bíblia para o alemão por Lutero, entre 1523 e 1530, foi importantíssima para a difusão dos textos que se iniciou na Idade Moderna, dando início ao declínio do latim para a comunicação escrita. No campo da política, em 1539, o rei da França, Francisco I, ordenava que os documentos legais fossem escritos em francês, coincidindo com o fortalecimento de um nacionalismo emergente. O uso da escrita em língua vernácula também foi de extrema importância para o sucesso da comercialização do material impresso e, contrastando com a Idade Média, em 1550, houve um boom de títulos. Com isso, surgiu a necessidade de ampliação de bibliotecas, além da criação de catálogos, não apenas para facilitar a divulgação do material impresso, mas também para tornar a escolha do leitor uma tarefa mais simples. Mais adiante, no século XVII, resenhas das publicações passariam a ser feitas para ajudar os leitores a decidirem sobre o que ler.
No entanto, vale lembrar que as mídias oral e escrita coexistiam e interagiam na Europa dos séculos XV e XVI. A suposta “morte” da tradição oral não ocorreu, até porque só uma minoria da sociedade era letrada, enquanto a comunicação oral se fazia em dialeto local. Havia os sermões, importantes tanto para católicos quanto para protestantes (Lutero considerava a nova técnica “a maior graça de Deus”, mas a igreja, “uma casa da boca”, expressando a importância dada à fala); o ensino nas universidades, baseado em palestras, debates ou disputas que testavam a habilidade lógica dos estudantes; o canto (especialmente a balada, canção que contava uma história); os boatos (estudados cronologicamente por Lefebvre, que os usou como evidência das tensões sociais). A cultura oral permaneceu, assim, forte. As histórias camponesas compõem outro exemplo: antes de passarem por uma modificação para atingirem ao público infantil, séculos depois, diferentes versões das histórias de Cinderela ou de João e Maria circulavam pela Europa, sem uma única linha escrita.
Outro aspecto interessante, evidentemente, diz respeito à censura — e não somente a textos impressos. Peças de teatro foram proibidas, além de imagens (como a ordem para a ocultação, por grandes folhas, dos corpos do Juízo Final, de Michelangelo). Entre os séculos XVI e XVII, a Igreja Católica criou o Index dos Livros Proibidos: um catálogo de obras que os fiéis estavam proibidos de ler, como um antídoto ao protestantismo e à impressão gráfica. Foram proibidos três tipos de livros: heréticos, imorais e mágicos. Podemos imaginar o que seria da série Harry Potter ou de O Código da Vinci, se o Index ainda estivesse em vigor... Na verdade, o Index escondia o medo de que as pessoas começassem a pensar por si só — como aconteceu a Mennochio, o moleiro italiano, considerado herege pela Inquisição por pensar diferente do outros porque sabia ler e que, por isso, foi executado na fogueira em 1599. Mas não apenas a Igreja católica promoveu a censura. Embora de forma menos eficaz, certos livros também eram proibidos aos protestantes. Tal ineficiência deve-se à sua fragmentação em diferentes igrejas: ao contrário da obediência ao Papa, aos protestantes houve divergências entre o que era proibido ou não.
Embora alvo de críticas e perigos, a impressão gráfica tornou-se uma atividade lucrativa, difundindo-se na Europa e modificando a estrutura ocupacional das cidades européias: os novos artesãos – os impressores – eram, necessariamente, letrados. Outras ocupações também surgiram ao longo desses séculos,

* NOTA – Mascates vendiam material mais barato e simples, como brochuras ilustradas, embora as figuras fossem tiradas de livros já publicados que, muitas vezes, pouco tinham a ver com o texto – é o caso da Biblioteca Azul.
como os vendedores de livros*, bibliotecários, contadores, notários, carteiros — todas ligadas à escrita. O fluxo da informação seguia o fluxo do comércio, criando um elo que se tornaria cada vez mais estreito. A indústria de livros se desenvolvia continuamente e a comercialização do lazer incluía a leitura. Livros de piadas ou romances eram impressos e bem consumidos pela população. Era o princípio do conceito de leitura como fonte de prazer.
Surgiu, neste período, o conceito de propriedade intelectual. Escrever era um passo rumo à fama individual. No século XVIII, a regulamentação legal fortaleceu a idéia da propriedade literária, além de garantir um monopólio de curto prazo sobre a impressão de determinado livro. Na Inglaterra, em 1709, a Lei de Direitos Autorais deu aos autores de livros (ou seus procuradores) o direito de imprimir seus trabalhos por 14 anos.

A questão que nos move é: Gutenberg promoveu uma revolução? Para Marshall McLuhan (1962), houve a mudança do foco auditivo para o visual: a “cultura das publicações” — ligação entre a nova invenção e as mudanças culturais no período. Segundo Elizabeth Eisentein (1979), a impressão gráfica foi uma “revolução não reconhecida”, seu papel como agente de mudança não foi devidamente valorizado.

Impressiona-nos a quantidade de pinturas que retratam o livro, como Heures de Loisirs, de G. Croegaert, século XIX (acima), ou Les Deux Soeurs, de Renoir, 1889 (Chartier, 1999).

A leitura, mais do que um hábito, é apresentada como elemento com quem o leitor possui grande intimidade, mostrando a importância dada ao livro, que deixou de ser apenas um sinal de status social, tornando-se uma fonte de reflexão, sabedoria e diversão para o leitor moderno.
No entanto, ao observar a materialidade e os modos de composição do livro, Roger Chartier (1999) afirma que “a transformação não é tão absoluta como se diz: um livro manuscrito e um livro pós-Gutenberg baseiam-se nas mesmas estruturas fundamentais – as do códex”. A montagem dos cadernos, a paginação, numeração são heranças que o livro moderno carrega. E, curiosamente evidencia-se hoje que, antes do códex, o texto corria lateralmente, no pergaminho; agora corre verticalmente na tela do computador. Vivemos a era pós-códex.
Talvez a grande revolução tenha sido a mudança da língua utilizada. O latim limitava muito o acesso aos textos. A popularização do livro se deu a partir do uso das línguas vernáculas. Se todo o processo de impressão mantivesse a comunicação em latim, não teríamos a tal explosão de títulos. O pensamento só se difundiu e tornou-se passível de críticas ou discussões a partir do momento em que as pessoas entenderam o que estava escrito. Isso, sim, foi importante para o leitor e, ao mesmo tempo, perigoso para os críticos da prensa.
A epígrafe deste capítulo fala sobre a importância da leitura para a liberdade do leitor. A expansão da cultura letrada representaria o fim de qualquer opressão. O desejo de manutenção do status quo fez com que os livros se tornassem inimigos dos detentores do poder ao longo dos tempos. Livros proibidos ou até queimados são exemplos do poder deste objeto sobre as pessoas. Será que Gutenberg imaginou que seu invento, possibilitando a difusão do pensamento através dos textos, causaria tantos conflitos?


Dobras da Leitura
Ano VIII - N.º 41 - jan. 2007
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