o ateliê
D O P O E T A
Luís Camargo
Autor de livros para crianças
e Doutor em Literatura pela UNICAMP.
E.F.C.B. (1924) |
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Atelier
Caipirinha vestida por Poiret A preguiça paulista reside nos teus olhos Que não viram Paris nem Piccadilly Nem as exclamações dos homens Em Sevilha À tua passagem entre brincos
Locomotivas e bichos nacionais Geometrizam as atmosferas nítidas Congonhas descora sob o pálio Das procissões de Minas
A verdura no azul klaxon Cortada Sobre a poeira vermelha
Arranha-céus Fordes Viadutos Um cheiro de café No silêncio emoldurado
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No poema "Atelier", do livro Pau-Brasil (1925),
Oswald de Andrade pinta um r e t r a t o de Tarsila do Amaral. Como veremos, entrelaçando alusões biográficas e críticas
(sobre temas e procedimentos formais de sua pintura).
A primeira palavra do poema - caipirinha - alude a um quadro de Tarsila: Caipirinha (1923), diminutivo familiar
carinhoso que ela mesma se atribuiu em uma carta a seus pais: "Quero, na arte, ser a caipirinha de São Bernardo." (São
Bernardo é uma das fazendas em que passou a infãncia).
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Caipirinha (1923)
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A primeira estrofe faz referência a dados biográficos de Tarsila: nasceu em Capivari, cidade do interior paulista;
em Paris, vestia-se com o costureiro Paul Poiret. A preguiça alude à lentidão com que Tarsila pintava. Em uma carta,
Oswald escreveu a Tarsila: "Todos pedem que trabalhe incessantemente pois o seu único defeito é a preguiça..."
Piccadilly (bairro de Londres) e Sevilha (cidade da Espanha) são lugares por onde Tarsila
Autoretrato I (1924)
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viajou. O verso À tua passagem entre brincos alude aos brincos que Tarsila usava e com os quais, aliás, se
auto-retratou (Auto-retrato I, 1924). Em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, Sérgio Milliet
lembra que Tarsila "estudava com André Lhote e a todos encantava, não só pelo talento como pela beleza. Porque era uma das
mulheres mais bonitas de Paris, essa 'caipirinha' de Monte Serrat. Lembro-me de certa noite em que, no ballet des Champs
Elysées, toda a platéia se voltou para vê-la entrar em seu camarote, com a negra cabeleira lisa descobrindo e valorizando
o rosto e os brincos extravagantes quase tocando-lhe os ombros suavemente amorenados."
A segunda estrofe focaliza temas e procedimentos formais da pintura de Tarsila: locomotivas (E.F.C.B., de 1924,
e A Gare, de 1925), bichos nacionais (A Cuca, 1924), a geometrização e as cores puras (atmosferas
nítidas).
Os versos Congonhas descora sob o pálio/Das procissões de Minas são uma referência à viagem a Minas
A Cuca (1924)
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Gerais, em 1924, com Olívia Guedes Penteado, Blaise Cendrars, Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Gofredo da Silva
Telles, René Thiollier, Oswald de Andrade filho, então menino, um "grupo à descoberta do Brasil". Sobre suas
descobertas, Tarsila escreveu: "Encontrei em Minas as cores que adorava em criança. Ensinaram-me depois que eram feias
e caipiras. Segui o ramerrão do gosto apurado... Mas depois vinguei-me da opressão, passando-as para as minhas telas:
azul puríssimo, rosa violáceo, amarelo vivo, verde cantante..."
Essas cores são explicitadas na terceira estrofe: verde (verdura), azul klaxon, isto é, vivo,
"berrante" (klaxon é buzina, em francês, além de ser o nome de uma importante revista modernista paulista) e
vermelho (a poeira vermelha).
A quarta e última estrofe enfoca outro tema na pintura de Tarsila: a vida urbana, "o progresso de São Paulo"
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São Paulo 135831 (1924)
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(leia o poema "Canto do Regresso à Pátria", de Oswald de Andrade, também do livro Pau-Brasil), como nos quadros São Paulo (135831) e São Paulo (Gazo), ambos de 1924. Os dois últimos versos - Um cheiro
de café/No silêncio emoldurado - misturam impressões sensoriais da natureza diferente: olfato (cheiro de café),
audição (silêncio), e visão (emoldurado), figura de linguagem conhecida como sinestesia. Um cheiro de café alude à infância de Tarsila em fazendas de café e à brasilidade de
sua pintura. O silêncio emoldurado é uma metáfora para a pintura. Frei Francisco de São Carlos chamava a
pintura de muda eloqüência, imagem que remonta a Camões: em Os lusíadas, a pintura é chamada
muda poesia (Canto VII, estrofe 76) e a poesia, pintura que fala (Canto VIII, estrofe 41).
Os dois últimos versos sintetizam a pintura de Tarsila, retomando, de certa forma, o primeiro verso,
Caipirinha vestida por Poiret, imagem estranha, antiética e paradoxal, cuja explicitação das referências não
elimina - ao contrário, parece realçar - seu poder de sedução e estranhamento. É que essa imagem exprime aspectos
complementares da arte de Tarsila: a simplicidade e o refinamento, o nacional e o cosmopolita, a tradição e a vanguarda.
Além de retrato, o poema "Atelier" é uma declaração de amor: o poeta se dirige a uma interlocutora - a amada -,
sugerida pelos pronomes teus (olhos) e tua (passagem). Nem falta aqui a tradicional referência aos
olhos da amada.
"Atelier", já no título, dialoga com a tradição pictórica, em particular com o tema do pintor e seu modelo. Na
história da pintura, este é um tema predominantemente masculino: um homem, vestido como pintor, é representado com
materiais de pintura, próximo a uma mulher nua - ou seminua - que lhe serve de modelo. Já no poema de Oswald de
Andrade, o modelo é uma pintora e o ateliê focalizado é de uma pintora, rompendo com a ótica masculina que focaliza a
mulher predominantemente como um corpo para ser visto e desejado: aqui, o poeta pinta com palavras a pintora-amada e
sua pintura.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
:: AMARAL, Aracy. Tarsila: sua obra e seu tempo. São Paulo: Perspectiva/Edusp, 1975.
:: ANDRADE, Oswald de. Pau-Brasil. Pref. Haroldo de Campos. 3.ed. São Paulo: Globo: Secretaria de Estado da Cultura, 1990. (Obras completas de Oswald de Andrade).
:: GOTLIB, Nádia Battella. Tarsila do Amaral, a modernista. São Paulo: Ed. SENAC, 1998.
Leia também
No Instituto de Estudos da Linguagem, Atelier: história de um poema, texto de Maria Eugenia Boaventura.
O artigo demonstra a gênese do poema de Oswald de Andrade, através de sete versões diferentes.
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