Biblioteca Juvenil Internacional de Munique
Salmo Dansa *
Especial para News from Abroad, Dobras da Leitura
Para quem acredita em conto de fadas e quer saber mais sobre o assunto, existe um lugar perfeito que não fica nos Estados Unidos e nem se chama Disneylândia. Esse lugar fica em Munique, na Alemanha, e se chama Internationale Jugendbibliothek Munchen – IJM ou, em bom português, Biblioteca Juvenil Internacional de Munique. No chamado “castelo de livros”, anualmente alguns autores, escritores, ilustradores, educadores, especialistas em literatura infantil e juvenil passam três meses desenvolvendo pesquisas em seus campos de trabalho. Além dos bolsistas selecionados anualmente pela IJM, a biblioteca é visitada diariamente por pessoas de diversas nacionalidades, estejam ligadas ao universo literário ou simplesmente visitantes interessadas em conhecer o castelo — que é certamente uma das atrações turísticas de Munique.
Aqui estou, no meio de uma temporada como bolsista da Biblioteca de Munique. Quando cheguei, no começo de setembro, havia somente eu como pesquisador. Dos onze selecionados em 2008, oito optaram pelo primeiro semestre e já haviam partido. Foi uma sensação estranha, pois, quando aqui estive em 2007, eram pelo menos cinco pessoas de diferentes origens e línguas — entre elas, a escritora Socorro Acioli pesquisando as publicações de Monteiro Lobato em outros paises do mundo. Socorro foi uma das pessoas que me incentivaram a me candidatar à bolsa. Naquele momento eu vinha de Bratislava onde participei da Bienal e Ilustrações a BIB 2007, Veneza e Kassel, onde participei de um workshop sobre arte contemporânea na Bienal de Veneza e Documenta de Kassel, onde fui convidado para expor no Brüder Grimm-Museum Kassel em 2008. Meses depois, dois dias antes do natal chegou um e-mail da IJM informando que meu projeto havia sido aprovado. O título do e-mail “Nice surprises” já era em si um presente de Natal.
No fim de agosto, poucos dias antes de embarcar para Alemanha, procurei a nossa madrinha, a ilustradora Regina Yolanda Werneck, que me contou sobre a sua estadia como bolsista da IJM nos anos 70. Foi uma tarde agradável em sua casa na ilha de Paquetá, no Rio de Janeiro, onde ela me emprestou textos e me presenteou com cartazes de Bratislava, onde atuou por muitos anos como palestrante e jurada da Bienal de Ilustrações de Bratislava - BIB. Regina, que tem ascendência Alemã, conheceu a biblioteca quando ainda era no centro de Munique, na Kaulbachstrasse 11ª, o primeiro endereço da IJM conseguido e inaugurado em 14 de setembro de 1949 pela própria Jella Lepman.
A Biblioteca de Munique disponibiliza quinze bolsas de pesquisa por ano, mas esse ano foram somente dez até agora. Nesse momento somos dois: eu - carioca, ilustrador e mestre em Design buscando informações sobre “Narrativas Visuais” num mar de livros nunca dantes navegados e no dia 13 de setembro chegou a simpática escritora iraniana Taraneh Matloob. Ela está pesquisando sobre “Interculturalidade na Literatura Infantil e Juvenil” um tema realmente interessante e muito pertinente por aqui.
Taraneh fez mestrado na Inglaterra e é uma jovem bastante atuante no Irã; além de ter livros publicados em persa, o idioma oficial do Irã, e títulos traduzidos para o inglês, ela é integrante da seção iraniana do IBBY, trabalha em um banco e se prepara para iniciar um doutoramento em Literatura. Seu tema me pareceu bastante apropriado ao lugar uma vez que a IJM traz esse conceito de interculturalidade desde sua inauguração há quase 60 anos atrás.
Foi no período pós-guerra em agosto de 1946 que Jella Lepman, judia de origem alemã, iniciou seu trabalho com uma exposição internacional de Literatura Infantil e Juvenil em Munique com 4000 livros de 20 paises diferentes que percorreu as cidades de Stuttgart, Frankfurt, Berlin, Hamburg, Hannover e Braunschweig com a intenção de criar novos valores e esperanças após ter vivido os terrores nazistas durante a guerra. A exposição teve muito sucesso com mais de um milhão de visitantes.
Para chegar a IJM nos primeiros tempos as pessoas precisavam passar por cima dos escombros deixados pela guerra, a maior parte da cidade estava destruída, mas ainda assim a biblioteca vivia cheia de crianças ávidas pelos livros que chegavam de diversos países, o que fazia da biblioteca um tipo de oásis onde as crianças passavam tardes inteiras e onde tinham os raríssimos momentos de entretenimento possíveis naquele momento.
A Biblioteca de Munique era uma iniciativa muito revolucionária; as crianças podiam pegar os livros que mais lhes interessassem nas prateleiras e levar para casa, o que chocava bastante os especialistas; pedagogos e bibliotecários da época que não entendiam aquela atmosfera de criatividade e liberdade desfrutada pelas crianças. Havia fóruns discussão com jovens representantes de diversos paises, a participação ativa de escritores como Erich Kästner, ilustradores, pedagogos, bibliotecários etc. Uma rádio que transmitia programas e “audio-novelas” ao vivo produzidos diretamente na biblioteca, oficinas de teatro infantil, ateliês de arte para crianças, conduzidos pelo pintor Ferdinand Steidle, que proporcionava oportunidades para os jovens artistas participarem de concursos de pintura, muitas vezes em outros paises com o apoio da IJM.
A jornalista Jella Lepman conduziu os primeiros passos da instituição com o idealismo de uma criança e a energia de major do exército. De fato, era com a farda do exército americano que ela e apresentava durante o tempo que dirigiu a biblioteca. Ela era uma mulher muito determinada e enérgica no
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trato com os adultos, mas extremamente delicada e doce com as crianças.
Hoje em dia a biblioteca continua bastante visitada, certamente a beleza do lugar ajuda. O schloss Blutemburg é um castelo medieval que abriga hoje a maior coleção de literatura infantil e juvenil do mundo com mais de 560.000 livros. Os acervos estão distribuídos basicamente em três lugares: a biblioteca de pesquisa, os museus e a biblioteca de empréstimo.
A biblioteca de pesquisa disponibiliza 80.000 livros infantis históricos publicados entre 1570 e 1950 e 30.000 volumes de literatura secundária aos interessados em livros teóricos, 530.000 livros infantis e juvenis em mais de 130 línguas e jornais especializados para consulta interna.
Nos quatro museus de acervo fixo estão preservadas e expostas as obras e objetos pessoais de autores como: Erich Kästner, James Krüss e Michael Ende e a ilustradora Binette Schroeder. Durante o ano a biblioteca também monta diversas exposições sempre ligadas aos temas da literatura infantil e juvenil em salas como a Schuartzkamer (Sala do tesouro), Galeria Wehrgang, sala Kleiner e sala Jella Lepman.
Existe ainda uma biblioteca de empréstimo onde os leitores podem escolher entre os 25.000 livros e outras mídias em 15 diferentes línguas e levar para ler em casa sem nenhum custo. As crianças ainda são convidadas a tomarem parte de diversas atividades de promoção da leitura, assim como educação artística e cursos de pintura em um atelier de verdade, cheio de tintas, potes de pinceis, argila e trabalhos produzidos por crianças ao longo dos anos.
No dia 25 foi encerrada a exposição em homenagem aos Irmãos Grimm onde minha versão de João e Maria em parceria com Júlio Emílio Braz esteve exposta por um ano ao lado do Chapeuzinho vermelho e outras histórias por imagens do nosso mestre Rui de Oliveira, uma primeira edição de “A branca de Neve” de Walt Disney, “Hänsel e Gretel” de Susanne Janssen, vencedor do prêmio de Literatura Infantil e Juvenil da Alemanha 2008 na categoria Ilustração entre outros livros de diversas origens e épocas, alguns de mais de 100 anos.
Em setembro a IJM e a cidade de Munique fizeram aniversário. A cidade completou oitocentos e cinqüenta anos e a biblioteca cinqüenta e nove e vários eventos aconteceram como comemoração pela cidade e na biblioteca como inicio de uma longa comemoração pelos 60 anos. No centro de Munique houve um coquetel de abertura da exposição de fotos, objetos e desenhos infantis contando a história da biblioteca, onde representantes da instituição, autoridades da cultura germânica e “convidados especiais” participaram de uma mesa redonda e deram seus depoimentos a respeito da IJM. O ponto alto da descontraída conversa foi quando um senhor que fora freqüentador da biblioteca quando criança declarou ter ainda hoje alguns livros com o carimbo da Internationale Jugendbibliotek Munchen pegos “emprestados” nos anos 50 quando era criança. Fato comum já que as crianças da região não tinham nenhum brinquedo após a guerra e o controle era bastante flexível.
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 Cartaz da exposição comemorativa da IJM. |
No dia 28 de setembro houve uma grande festa de abertura da exposição sobre Robinson Crusoé de Daniel Defoe no castelo Blutemburg. A exposição com centenas livros traz publicações em diversas linguas e técnicas de ilustração, raridades do acervo histórico e ainda outros relacionados à obra como A Ilha Misteriosa de Julio Verne. Fomos presenteados com uma linda tarde de sol e muitas crianças participando intensamente de rodas de leitura, jogos, brincadeiras e diversas oficinas como: argila, construção de barquinhos, pedra sabão, construção de uma casa com galhos de árvores.
Em meio ao turbilhão de vozes da algazarra infantil em uma festa ao ar livre em um dos raros dias de sol desde o começo de setembro, enquanto conversava com Sra. Christiane Raabe, diretora da IJM, perguntei se ela esperava que o evento fosse atingir tamanho sucesso, ela me fez concordar que o segredo estava em grande parte na escolha do tema que, além a riqueza literária, possibilitava desenvolver diversas atividades para as crianças relacionadas a história. Naturalmente, como líder, atribuiu o sucesso também ao trabalho de equipe da IJM.
De fato Robinson Crusoé é uma aventura fascinante e de certa forma me fez pensar sobre a idéia do estrangeiro e as diferenças culturais que se vivencia em uma estadia desse tipo, para muitos de nós “Robinsons ao contrário”. Para quem se encontra em terra estrangeira esse clima de contrastes culturais vira um estado de constantes surpresas que se acendem a todo o momento, sobretudo quando se está só e não se fala a língua mãe do lugar. As diferenças são logo percebidas; horários precisos para entrada, almoço, saída, ônibus, trem... Até mesmo as estações do ano são demarcadas e pontuais. Como bom brasileiro confesso que às vezes tudo parece certo demais.

Cartão postal do castelo Blutemburg. | |
Dento da biblioteca existe sempre o clima de entrosamento entre as diferentes culturas. A comunicação é sempre em inglês e o tratamento aos bolsistas o melhor possível. Para se ter uma idéia, a biblioteca disponibiliza o acervo, orienta o pesquisador como ter acesso às diferentes seções como literatura infantil, teórica, livros históricos etc e ainda acessa em outras bibliotecas alemães através de um sistema integrado (ALEPH) publicações que por ventura não haja no acervo da IJM. Esses são entregues em uma semana. O diretor do departamento de línguas estrangeiras Jochen Weber é bastante acessível e orienta os bolsistas durante as pesquisas. Além de diversas línguas, fala o espanhol perfeitamente o que facilita bastante a comunicação.
Eu pude vivenciar um grande exemplo da cordialidade e generosidade da equipe da Biblioteca de Munique. Desde que tomou conhecimento da minha exposição em Kassel, agendada para o segundo mês da minha estadia, a biblioteca participou em cooperação com o Brüder Grimm-Museum Kassel da produção da exposição mantendo contato telefônico e via e-mail com o staff do museu a respeito da divulgação do evento, da minha estadia em Kassel e ainda financiando minha ida para o vernissage no dia 11 de outubro.
Da mesma forma, a biblioteca financia todos os anos a ida dos bolsistas à Feira de Bologna na Itália, que acontece nos meses de abril e à Feira de Frankfurt nos meses de outubro. Este ano eu e Taraneh estivemos em Frankfurt por três dias participando da maior feira de livros do mundo e mais uma vez a IJM nos propiciou toda infra-estrutura, incluindo passagens e estadias. Pudemos contatar editores e pessoas de diversos países e ver de perto as últimas novidades do mercado.
Logo que chegamos, no hall onde ficava o stand da biblioteca se notava uma pequena multidão de...punks? excêntricos? loucos? Não, eram todos aficionados dos mangás e em grupos, duplas ou individualmente copiavam seus ídolos se produzindo em roupas, cabelos e acessórios iguais aos seus personagens preferidos dos quadrinhos japoneses. Uma mania colorida e moderna, com jeito de musica eletrônica e movida pela leitura. Uma loucura das mais saudáveis.
Interessante também perceber as ligações entre Frankfurt e Munique e o ponto alto dessa ligação foi sem dúvida a cerimônia de entrega do prêmio de Literatura Infanto-juvenil Alemã. A primeira seletiva é feita por críticos especializados e anunciada em Bologna no início do ano. Dos seis pré-selecionados uma comissão de jovens integrantes de clubes de leituras situados em diversas cidades da Alemanha votam para a escolha dos vencedores de cada categoria do prêmio. A festa é grandiosa e faria Gutenberg se orgulhar de ter nascido na Alemanha. O país homenageado esse ano na Feira de Frankfurt foi a Turquia, no próximo será a China o que já é prenúncio de grandiosidade. O aniversário de 60 anos da Biblioteca de Munique também promete, visto que muito das comemorações deste ano já foram anunciadas como parte desse aniversário.
De volta a biblioteca, muito trabalho ainda por fazer em pouco mais de um mês que ainda me resta por aqui. Muito já caminhei e sei não volto igual de uma temporada intensa e produtiva. Ano que vem, espero que assim como eu outro brasileiro tenha a mesma oportunidade que eu tive de compartilhar da hospitalidade e generosidade deste castelo encantado e quem sabe, encantar o castelo com a criatividade brasileira.
* Salmo Dansa, ilustrador brasileiro, foi bolsista da Biblioteca Juvenil Internacional de Munique, entre setembro e novembro de 2008.
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