Notícias de Chicago
com Ana Lúcia Brandão — Especial para News from Abroad, Dobras da Leitura



Terça-feira, 8 de julho de 2008 16:18
Assunto: Uma paródia à velha e prolífica fonte da literatura infanto-juvenil:
o sentimento de orfandade



Desde os Contos de Fadas dos Irmãos Grimm, como João e Maria, passando por Snicket, Rowling e agora Brian Selznick, a orfandade tem sido um tema explorado na literatura. Atualmente, o sentimento de abandono mantém uma forte presença nos livros infantis e juvenis por se coadunar com a falta de tempo dos pais em estarem com os filhos, com o forte sentimento de solidão e de desconcerto diante do mundo atual.

Eu estava na Seminary Coop da Rua 57, uma livraria que parece ter sido feita para os dias de inverno, porque lembra uma caverna, com salas que vamos adentrando, com seções de livros. Entre os infanto-juvenis, havia o


Capa do livro The Willoughbys
The Willoughbys, de Lois Lowry, em destaque porque uma leitora frequentadora da livraria, de oito anos, deixou sua opinião sobre o livro, dizendo que ele era muito divertido. Lois Lowry tem uma extensa obra de livros para pré-adolescentes. Começou com séries, ficou famosa e agora escreve títulos dispersos, ainda bem. The Willoughbys conta a historia de quatro irmãos que odeiam os pais porque eles são negligentes e os desprezam a todo momento. Eles então planejam enviar para os pais um pacote de turismo com viagem a terras em que há terremotos, aventuras radicais e tal. Os pais caem na proposta e deixam os filhos com uma babá muito legal. A babá logo entra nas brincadeiras e códigos que eles mantêm entre si. Pouco antes de os pais viajarem, eles encontram um bebê abandonado na porta de casa. Lógico que a mãe os obriga a se livrarem de mais uma criança. Eles então deixam a criança na porta de um homem, dono de uma “fábrica de chocolates", que perdeu a mulher e o filho em uma viagem de férias a Suíça. O homem está fechado em seu luto que se torna uma depressão e este bebê lhe traz novo alento de viver. Ele então inventa novos chocolates, passa a arrumar a casa que ficara anos abandonada. E, para completar, acaba se apaixonando pela babá, casa-se com ela e adota todos os meninos.

Como os irmãos Tim, Barnaby A. e Barnaby B. e Jane são grandes leitores, a todo momento eles relacionam acontecimentos diários com acontecimentos vivenciados pelas personagens de livros clássicos como O jardim secreto, A canção de Natal e tantos outros. Ou seja, este é o primeiro livro que leio em anos em que as crianças escolhem e batalham para ter os pais que gostariam. Chega desse negócio de órfãos terem uma herança maldita de riqueza econômica como em Desventuras ou uma maldição espiritual como em Harry Potter. Uma proposta leve, bem-humorada e inteligente que deveria ser traduzida no Brasil, eu acho. O mercado editorial de juvenis andam parco desta incrível expressão possível da literatura: o humor. Mesmo as graphic novels são assim: aventura, drama e terror. Humor só mesmo em Dragonball.
Kisses,
Ana Lúcia Brandão



Quarta-feira, 9 de julho de 2008 14:55
Assunto: O amor perfeito entre bichinhos de pelúcia e livros infantis


Na Seminary Coop, há estantes baixas com livros cartonados para as crianças manipularem. Elas vêm de carrinho ou então acabaram de deixar a fralda e visitam a livraria porque a mãe as leva. Param na seção infantil, pedem para a mãe ler uma história. Na livraria Barnes & Noble do centro, no prédio da Universidade DePaul, a seção fica no fundo da livraria, do lado direito. Há mesas baixas com quatro cadeiras para crianças curiosas xeretarem os livros, se familiarizarem com os livros e com os bichinhos de pelúcia, que têm uma prateleira só para eles.

Os bichinhos de pelúcia são mesmo bichinhos, em geral, personagens de histórias infantis ou


Peter Rabbit
simplesmente personagens como os da Vila Sésamo. A seção infantil da Borders já não é tão acolhedora. Mas as mães levam as crianças e passam pela seção para dar uma olhada nos livros, que estão sempre meio fora de ordem nas estantes por causa dessa maneira de aproximação: retirar da estante e manipular o livro. Cheirá-lo, olhar suas imagens. Nessas estantes, estão os livros cartonados de Eric Carle, de formato pequeno. A famosa lagarta esfomeada virou um bichinho de pelúcia e vem junto com o livro em uma caixa. Portanto, brincar com bichinhos de pelúcia e livros é um habito das crianças daqui, incentivadas pelas mães. Advinha o quanto eu te amo, do autor inglês Sam McBratney, também vem nessa versão cartonada com o boneco do coelho. Little Bunny Bedtime, de Jane Johnson, tem uma versão em livro de pano. Os livros de pano são muito adotados pelos pais daqui. Eles chegam nas livrarias, ocupam um display em destaque e somem em poucos dias. Claro, trata-se de fraldas ilustradas, que delicadamente ensinam as crianças a virar as páginas e iniciar-se no processo de observação da representação do mundo real em figuras.

Outro livro cartonado muito delicado é o Love is a Handful of Honey, de Giles Andrae. Ele trata do amor entre mãe e filho de forma doce e extremamente afetiva. Já o What makes a rainbow?, de Beth Schwartz, é um livro cartonado, encantador, que ensina sobre as cores. Nele, a cada virar de página, aparece uma nova cor de fita e, na última, elas formam o arco-íris, cujas cores aparecem na natureza por meio das flores, campos e bichos.


As histórias de Peter Rabbit, de Beatrix Potter, em duas partes.



[AMPLIAR SEQÜÊNCIA 1]



[AMPLIAR SEQÜÊNCIA 2]


Para dar conta da literatura clássica, temos Peter Rabbit, de Beatrix Potter, na forma de bichinho de pelúcia e livro cartonado pequeno. O bichinho é sempre igual ao protagonista da história. Livros de banho são mais raros. O único que vi na Borders trata-se de Rainbow Fish Bath Book, de Marcus Pfister. A editora Manole o publicou em formato grande, há uns quinze anos, para crianças de aproximadamente seis anos.

Vários outros livros tratam da questão da mãe contar uma história para a criança antes de dormir. Há uma lenda tradicional aqui do Sandman, de um velhinho que sofria de insônia até que, certo dia, ele encontra um dragão, arranca-lhe uma escama, leva-a até sua casa e a mói como uma farinha. Ele passa essa “areia” (Sandman, o homem de areia) nos seus olhos e finalmente tem uma maravilhosa noite de sono. Sandman é um homem pequenino, que anda em um pequeno tílburi puxado por um ratinho. A partir dessa bela noite de sono, ele se impõe a tarefa de visitar as crianças que não conseguem dormir e lhes passa a mágica areia nos olhos, que as deixa sonolentas até que adormecem, entregando-se ao mundo dos sonhos. Estes livros com bichinhos são como o Sandman. Ajudam a criança a aceitar o acolhimento das noites vindouras.

Kisses,
Ana Lúcia Brandão



Sexta-feira, 11 de julho de 2008 16:50
Assunto: Crianças pequenas e leitura


Passeando pelas estantes, encontrei na Women and Children's Books Beatrice doesn't want to, de Laura Numeroff, ilustrado por Lynn Munsinger e publicado pela Candlewick Press. Nesse livro, a ilustradora optou por metamorfosear crianças em cachorros.


Beatrice doesn't want to
Beatrice é uma cadelinha pequenina com um irmão mais velho. O irmão precisa fazer uma pesquisa na biblioteca e leva a irmãzinha junto. Ela acha tudo muito chato: não sabe ler e não entende o que é estudar e pesquisar. Henry precisa pesquisar sobre dinossauros, e Beatrice o deixa enlouquecido. Quer a todo momento sua atenção. Ele, entretanto, persiste em leva-la até a biblioteca.

Um dia, ele a empurra até a sala de leitura infantil. Lá ela acaba se envolvendo com uma hora da leitura e, no final, a bibliotecária empresta o livro da história ouvida. Ela esta lá entretida com as ilustrações e o irmão a chama para ir embora.


Olívia ajuda no Natal
E ela, claro, dá a mesma clássica resposta de sempre: “Eu não quero ir”.

Essa visão do universo infantil, no que ele tem de mais sutil e terno, é algo que anda faltando nos livros infantis. Eles andam “adultizando” as crianças antes do tempo. Por isso, este, como os livros de Lucy Collins (Ninoca), Eric Carle (A lagarta esfomeada, hoje fora de catálogo no Brasil), Audrey Wood (A casa sonolenta e outros), a personagem Olivia (que aqui tem uma série e no Brasil só dois livros) e os nossos Eva Furnari e Liliana e Michele Iacocca são tão importantes de serem sempre reeditados.

Kisses,
Ana Lúcia Brandão



Domingo, 13 de julho de 2008 15:42
Assunto: Leitura, Chicago e Peter Sis



O mensageiro das estrelas


A árvore da vida
Peter Sis acabou de ganhar um prêmio por seu novo livro, The Wall: growing up behind the iron curtain (Fariar/Frances Foster). Ele já foi premiado com o Caldecott Honnor Book por seu O mensageiro das estrelas, publicado no Brasil pela Editora Ática, que conta a história do astrônomo italiano Galileu. A mesma editora publicou A árvore da vida , outra biografia sobre a vida de Charles Darwin.

Estes e outros livros de Sis são estonteantes de tão belos. Suas ilustrações nos remetem aos mapas antigos, seu trabalho parece realizar uma arqueologia do desenho no tempo e no espaço. É como se ele pegasse o leitor e o levasse para o tempo em que viveu Galileu ou Darwin. Os tons amarelados, de cobre e marrom, causam no leitor a impressão de ser a memória de um tempo perdido.

Esse escritor e ilustrador, e também cineasta, nasceu em uma pequena cidade da antiga Tchecoslováquia, nos tempos da cortina de ferro, em que a Guerra Fria entre o capitalismo americano e o comunismo soviético prevaleciam. Sis nos dá a impressão de ter sido salvo pela arte. A arte fez parte de sua vida sempre. Seu pai também foi cineasta.

Peter Sis tem outro livro chamado Tibet, que é autobiográfico. Ele conta a história dele e da irmã, cujo pai cineasta foi chamado para filmar o Tibet. Só que nesse ínterim a


Jogo de labirinto baseado no livro Tibet,
de Peter Sis
China invade o Tibet e eles ficam sem contato com o pai. É uma pena que este livro não tenha sido publicado no Brasil. Eu o conheci na Biblioteca da Juventude de Munique, em 1995. Naquele ano, seu trabalho foi exposto na área de ilustradores.

Sis estudou na Academy of Fine Arts de Praga e no Royal College of Art de Londres. E, graças a um trabalho que ele desenvolveu nos Estados Unidos, conheceu Maurice Sendak, que o apresentou ao mercado editorial americano. Sorte nossa. Sis tem muito a dizer. Após anos discorrendo sobre sua admiração a personalidades fascinantes, como Galileu, Darwin e Cristóvão Colombo (este não publicado no Brasil, apesar da ótima “desculpa” da comemoração dos 500 anos...), ele passou a escrever histórias autobiográficas de alto teor literário e artístico. Há ainda seu trabalho contundente que defende a liberdade de expressão artística em um mundo como o nosso, tão cheio de injustiças e vilipêndios.
Kisses,
Ana Lúcia Brandão



Segunda-feira, 14 de julho de 2008 18:07
Assunto: Verão, História e histórias em Chicago



Fotos históricas do Natal em Chicago
Chicago não é uma cidade de longa história. É mais nova que São Paulo. E é louca por História. Por isso mesmo, ela quer incutir nas crianças o amor pelas histórias. Talvez por isso o Chicago History Museum seja tão atrativo para as crianças. Há uma locomotiva e um trem antigos para se passear e ouvir um pouco da História da cidade, tão marcada pelas imigrações, incêndios, arquitetura moderna e feiras monumentais de negócios.

Para nós, que já passamos dos 500 anos, o museu é como uma brincadeira de criança. E, por sinal, está cheio de famílias com crianças de várias idades. Há uma sala com maquetes que marcam os eventos históricos da cidade. Invasão francesa, invasão inglesa, índios contra americanos, gente vinda do Mississipi para fugir da escravidão, influência católica graças às imigrações polonesa, mexicana e outras. E, na loja do museu, há livros e jogos para as crianças depois relembrarem a história da cidade.

Talvez contaminada por isso, a comunidade sueca tenha criado o Swedish American Museum das crianças. Esse é todo feito de bonecos em situações cotidianas que representam a viagem dos suecos, a chegada na cidade, a contribuição do povo sueco a sociedade americana. E claro uma loja com brinquedos suecos, livros infantis e de culinária e CDs de música infantil.

E assim vai a cidade de Chicago, fazendo histórias e História das antigas com as novas gerações.

See you!
Ana Lúcia Brandão





Dobras da Leitura
Ano IX - N.º 58 - dezembro 2008
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