Não temos muitas lembranças do primeiro auge da literatura infantil em língua alemã,
das décadas de 1920 e 1930, no Brasil.
Os fios de nossa memória, talvez, comecem a puxar alguns nomes somente a partir da
década de 1960. Quem não se lembra
de História sem fim, de Michael Ende (1979), do livro ou do filme? — Renata Nakano
Indicação, dos 8 a 80 anos
tendências da literatura infantil e juvenil em língua alemã
Em 1990, a LIJ de língua alemã ganha
um renovado destaque no cenário internacional,
devido
a repercussão do prêmio Hans Christian Andersen, do IBBY.
Desde o início dessa década, quatro ilustradores
de países de língua alemã receberam premiações da entidade:
a austríaca Lisbeth Zwerger (1990),
o suíço Jörg Müller (1994) e os alemães
Klaus Ensikat (1996) e
Wolf Erlbruch (2006).
“Seus notáveis picturebooks são reconhecidos pela sensível relação entre imagem e palavra”
— é o que nos diz Bettina Kümmerling-Meibauer, professora da Universidade de Colônia, na Alemanha.
É ela a autora do artigo Variety in genres and styles,
apresentado na Bookbird 2008 vol. 46 no.1,
a respeito da literatura infantil contemporânea em língua alemã,
que nos entusiasma:
“Talvez mais que qualquer outro gênero, o picturebook vem redesenhando fronteiras e expandindo
os horizontes literários em anos recentes. Os atuais ilustradores estão continuamente quebrando
paradigmas, mudando as formas e as convenções. Criatividade e projetos gráficos inovadores, em
freqüente e complexo diálogo entre texto e imagem, oferecem múltiplos níveis de significado.”
(Meibauer 2008: 6)
Mas não são apenas os picturebooks que inovam.
Em seu artigo,
Meibauer busca revela-nos uma pluralidade de novos subgêneros — e, entre eles,
dá destaque ao
romance infantil psicológico (psycological children`s novel) e ao
romance infantil retrospectivo (retrospective children`s novel).
Em relação ao primeiro tipo ou subgênero literário, encontramos uma menção ao livro
Ich ganz cool [Tranqüilize-me], de Kirsten Boie,
sem tradução para o português.
Ich ganz cool, de Kirsten Boie:
recria padrões da linguagem oral dos jovens na linguagem escrita.
“De maneira a reproduzir a linguagem do jovem, Boie incorpora gírias,
neologismos e a linguagem dos HQ, produzindo um criativo trabalho lingüístico
que busca imitar o padrão da linguagem oral dos jovens de hoje.”
A transposição da fala na escrita não é
um procedimento fácil, mas evidentemente
seus gestos de entonação e a afetividade não são novidades em nossa LIJ,
como ensinam Maria José Palo e Maria Rosa D. Oliveira
(1983):
“Ora, escrever como se fala implica, também, ler como se fala, e então não é mais possível seguir
uma regra imposta pelo código alfabético; é preciso estar atento para captar realidades que escapam
ao controle da sucessividade linear do dito pelo entredito das pausas, do gesto, das modulações
sonoras, numa orquestração de ritmos que desenham figuras conceituais, imagéticas, táteis e sonoras
num espaço-tempo, também linear, mas simultâneo, inclusivo e múltiplo.” (Palo & Oliveira 1983: 66)
Consoantes a esta idéia, os argumentos de Meibauer ganham força, quando
nos levam a crer que essa tentativa de re-criação da oralidade não busca simplesmente
uma identificação do jovem com o texto,
uma vez que o livro “desafia o leitor com suas ambigüidades (...),
com a transição entre o devaneio e o trivial, com o final aberto”.
Em sua segunda classificação, o subgênero do romance infantil retrospectivo,
a autora nos diz que, mais e mais, os autores recorrem às memórias de suas infâncias
ao escreverem histórias para crianças e jovens.
Meibauer adverte, no entanto, não se tratar de simples autobiografia,
argumentando que seria impossível, nessas obras, distinguir o real da ficção —
e esse é o principal motivo que a levou a denominar esses casos de
retrospective children`s novels, e não textos autobiográficos.
Se acompanhamos seu raciocínio, há muita LIJ brasileira cujos autores assumem recorrer
a memórias de infância em suas criações. Mas, outra questão aqui se insinua:
que diferentes procedimentos têm sido adotados pelos escritores ao tomarem
a memória particular como matéria a ser trabalhada literariamente?
A professora alemã, no entanto, não adentra essa abordagem, mas complementa
que esse tipo de narrativa “revela a complexidade que surge do confronto da
perspectiva espontânea da criança com a perspectiva reflexiva do narrador adulto.”
As fronteiras da destinação de uma obra parece estar se desfazendo na LIJ contemporânea
de língua alemã... e
alguns dos recursos de linguagem
mais presentes são:
a mudança de perspectiva ou pontos de vista no processo de narração,
a intertextualidade,
a ironia
e o final aberto.
Artifícios típicos da “literatura para adultos”, Meibauer frisa,
e atualmente respondem por um dos grandes desafios entre especialistas e críticos
da literatura contemporânea para crianças e jovens leitores.
Teríamos aí um rompimento com o domínio adulto?
Pois é preciso pensar: essa “literatura para jovens” também está conquistando
(e cada vez mais) os adultos,
ao mesmo tempo em que é cada vez mais freqüente a presença de autores que escrevem
para ambos os públicos (e Meibauer enfatiza a destinação por parte do autor a um
determinado leitor, o que ela chama de intended readership.)
Desta maneira, mudanças na fronteira entre a literatura infantil e "literatura adulta"
passam a constituir uma tendência
significativa na LIJ contemporânea:
“a literatura infantil de hoje reflete tendências dominantes da literatura adulta,
e uma ampla variedade de temas tabu e estratégias de narrativas complexas — incluindo
multiplicidade de gêneros, desvios da linearidade na relação espaço-tempo, ausência de
conclusão, ironia, intertextualidade — transgridem as tradicionais demarcações que separam
a literatura infantil da adulta”.