Estas breves notas partem de dois pontos iniciais: as leituras que tenho feito do livro de Philippe Ariès, História social da criança e da família, e o artigo de Shima Tayo, “Picturebooks: Art that traverses time and culture”, publicado na revista Bookbird vol. 45 (4), 2007, que retoma o tema do discurso proferido pela especialista, durante o Congresso do IBBY 2006, em Macau (China). A quem puder, recomendo a leitura de Picture Books as Art Traversing Time and Culture para conhecer um pouco mais sobre as relações entre a arte japonesa e o mundo ocidental. — Renata Nakano

Iwase Bunko Library
Picturebooks e ukiyo-e
a localização da criança na hierarquia social

“... os velhos contos que todos ouviam na época de Colbert e de Mme. de Sévigné foram pouco a pouco abandonados, primeiro pelos nobres e a seguir pela burguesia, às crianças e ao povo do campo. Este último abandonou-os também por sua vez quando o jornal substituiu a Bibliothèque Bleue; as crianças tornaram-se então seu público...”

Philippe Ariès (1981: 122)


Em sua obra, Philippe Ariès nos apresenta muitos exemplos de hábitos, objetos e bens culturais que, socialmente abandonados pela nobreza e pela burguesia ocidental do século XVII ao XVIII, foram posteriormente adotados e compartilhados por crianças de classes dominantes e camponeses. Na epígrafe, o autor refere-se aos contos tradicionais, dando-nos pistas a respeito da posição culturalmente inferior ocupada pelas crianças da época. O trabalho de Ariès é um estudo basicamente centrado na cultura ocidental, em particular na França.
No entanto, com o centenário da chegada do navio Kasato-Maru ao Brasil e todas as atenções voltadas ao país do sol-nascente, consideramos pertinente focar nossos olhos no Japão, traçando breves linhas comparativas entre a posição da criança na sociedade e a história do picturebook (livro ilustrado) japonês que, além de representar um “objeto de consumo” infantil, possibilita um paralelo com o gênero, nosso conhecido, dos contos de fada.

E-maki de J. Shigisan: História Lendária do Templo do Monte Shigi.
Museu Nacional de Nara, Japão.
Desde o fim do século XI, o Japão mantinha uma tradição de registrar sua história em pergaminhos ilustrados — os e-makis, muitas vezes recheados de narrativas populares e lendas budistas. No período Edo, entre 1603 e 1867, surgiu o kusazoshi, um livro encadernado e ilustrado com aproximadamente dez páginas. Em seu artigo, Shima Tayo o considera a raiz do atual picturebook realizado no Japão — e notamos muitas similaridades entre eles: o kusazoshi possuía um “texto fácil e ilustrado”, o que permitia sua leitura por pessoas simples e, conseqüentemente, pelas crianças que ainda não dominavam totalmente a escrita, sendo disseminado em todas as classes sociais, assim como os livros de contos de fadas ocidentais, no mesmo período. No entanto, há uma diferença interessante entre eles: seus difusores.
Enquanto no Ocidente do século XVII, a difusão dos livros era exercida principalmente pelos editores, durante o período Edo, quem promovia os kusazoshi era a classe comerciante, considerada a mais baixa dentro da hierarquia social japonesa da época. Muitos kusazoshi eram ilustrados por artistas ukiyo-e, um estilo bastante disseminado no Japão até o século XIX e pode ser traduzido, literalmente, como uma pintura que descreve o mundo transitório. Na Era Edo, a palavra ukiyo se referia aos costumes, à moda e aos hábitos que caracterizavam a sociedade japonesa da época, em especial, a classe comerciante, responsável por essa manifestação artística.


In the Hollow of a Wave off the Coast at Kanagawa,
ukiyo-e de Hokusai (1760-1849)
Com a abertura de suas fronteiras, na metade do século XIX, o Japão foi bastante influenciado pela Europa e por um modelo de sociedade industrial voltada para a produção em massa. Os navios mercadores chegavam ao Japão com muitas novidades, entre elas, a fotografia e as novas técnicas de impressão. Ao mesmo tempo, os ukiyo-e eram levados ao Ocidente — o que influenciou a arte européia, criando um movimento artístico chamado Japonismo, do qual participaram os impressionistas, como Manet, Monet, Degas e Renoir. Enquanto isso, no Japão, o estilo ukiyo-e começava a cair em desuso para dar lugar à fotografia — sem, no entanto, deixar de influenciar, com suas composições e formas, os picturebooks que começavam a ser produzidos no país. As novas técnicas de impressão possibilitaram, assim, a disseminação dos picturebooks entre crianças de classes sociais inferiores e não apenas às de classes mais abastadas.
E aqui trazemos um trecho do relato de Shima Tayo que parece extraído do livro de Ariès: “Assim, os velhos ukiyo-e que todos apreciavam, na época dos kusazoshi, foram pouco a pouco abandonados às crianças” De fato, as novas técnicas de impressão possibilitaram a disseminação dos picturebooks entre crianças de todas as classes sociais. No entanto, a história do livro ilustrado japonês reproduz um caminho similar à história do livro para crianças na cultura ocidental. No período entre guerras, por exemplo, esse material passaria a desempenhar uma função declaradamente pedagógica em detrimento dos aspectos artísticos. Ainda segundo a especialista, embora representassem uma expressão de vanguarda, os picturebooks privilegiaram o uso da informação e a propaganda ideológica através da ficção. Tudo isso nos faz chegar a uma constatação: a criança japonesa e a criança ocidental vivenciaram o mesmo processo de verem seus livros domesticados por uma função utilitária.
Hoje, em um mundo cuja última fronteira parece ser a diferença entre as línguas, vemos parte considerável dos catálogos nacionais e estrangeiros destinar o picturebook exclusivamente às crianças, em uma equação matemática: a quantidade de texto é diretamente proporcional à faixa etária. Lembremos Walter Benjamin (1985: 250): “E, mesmo que a criança conserve uma certa liberdade de aceitar ou rejeitar, muitos dos mais antigos brinquedos de certo modo terão sido impostos à criança como objeto de culto, que somente graças à sua imaginação se transformaram em brinquedos.”


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Leituras de apoio e referências


ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família.Rio de Janeiro: LTC, 1981. :: BENJAMIN, Walter. Livros infantis antigos e esquecidos. In: Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política. Trad. Sérgio Paulo Rouanet. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1996. :: HIRATSUKA, Lucia. Ehon: o livro ilustrado no Japão.Disponível em www.luciahiratsuka.com.br. Acesso em: 20 jan. 2008. :: Enciclopédia Britânica. emaki. Acesso em: 20 jan. 2008. :: Catálogo da exposição “As cinqüenta e três vilas da estrada Tokaido”, s/d. :: LAJOLO, Marisa;ZILBERMAN, Regina. Literatura Infantil: histórias e histórias. São Paulo: Ática, 2006. :: Nara National Museum. Nara, Japan. Getting to Know Illustrated Handscrolls. Acesso em: 26 fev. 2008. :: TAYO, Shima. “Picturebooks: Art that traverses time and culture”. In: Bookbird, v. 45, nº 4. ISSN 006-7377. Basiléia, IBBY, 2007.


Dobras da Leitura
Ano VIII - N.º 53 - mar. 2008
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