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Ana Lúcia Brandão analisa a ilustração
na literatura infantil
Há tempos Ana Lúcia de Oliveira Brandão dedica-se à literatura infantil, com destaque
às ilustrações. Formada em Letras, Ana Lúcia fez mestrado em Comunicação e Semiótica,
oportunidade em que apresentou uma dissertação sobre o humor na obra infantil da escritora
Sylvia Orthof. Mais recentemente, defendeu outra tese sobre a ilustração do livro infantil.
"A dissertação sobre o humor na obra da Sylvia teve a ver com minhas 'contações' de histórias
na biblioteca Monteiro Lobato, em São Paulo. Já a tese sobre ilustração infantil surgiu depois
de um projeto que desenvolvi com ilustradores e crianças chamado 'Caracol da Ilustração'",
diz Ana Lúcia. Neste último projeto, sua intenção era levar a experiência para a universidade
e refletir teoricamente sobre ela.
Ela lembra que a concepção do livro infantil de apresentar três linguagens em diálogo
- texto literário, imagem e projeto gráfico - foi consolidada pela produção de livros
deste segmento na Editora Ática no começo dos anos 80, com as coleções "Gato e Rato",
"Lagarta Pintada" e "Pique".
A seguir, acompanhe a entrevista exclusiva que Ana Lúcia concedeu ao Boletim Ática,
na qual fala sobre a qualidade das ilustrações em livros infantis e juvenis brasileiros,
detendo-se especialmente no recente lançamento da Ática O médico e o monstro,
da coleção "O Tesouro dos Clássicos".
Boletim Ática: De uma maneira geral, as ilustrações dos livros brasileiros,
particularmente dos direcionados a crianças e jovens, são do seu agrado?
Ana Lúcia de Oliveira Brandão: Há ilustradores que se preocupam com a qualidade do seu trabalho
e da produção do livro em si. São criadores, verdadeiros artistas que buscam fazer uma leitura original
e estética sobre uma determinada história. Entre eles tenho a citar
Angela Lago, Roger Mello, Ziraldo,
Helena Alexandrino, May Schuravel, Eliardo França e outros. Claro que tudo depende da formação do ilustrador
em termos de literatura, formação em artes plásticas e conhecimento sobre elaboração de projeto gráfico.
É isso que enriquece as possibilidades de leitura de um livro infantil.
Boletim Ática: A respeito de O médico e o monstro, qual sua opinião sobre
os desenhos de Ludovic Debeurme?
Ana Lúcia: O trabalho de Debeurme é o de um artista plástico expressionista. É uma beleza a leitura
que ele propõe sobre este clássico da literatura universal.
Boletim Ática: Mesmo sendo uma obra muito conhecida - o chamado clássico -,
O médico e o monstro é constituído por uma concepção sofisticada. Quanto mais complexa a concepção
de um livro, melhor ou mais complicada se torna a solução do ilustrador?
Ana Lúcia: Sem dúvida alguma, quando a proposta do texto é densa e complexa, mais desafiador
torna-se o trabalho do ilustrador. Na verdade, o bom ilustrador é aquele que se desafia a cada livro
que ilustra, em termos de técnicas, idéias, originalidade. Não é à toa que o texto de
Alice no País da Maravilhas já foi ilustrado por mais de duzentos ilustradores no mundo todo.
Só no Brasil temos cinco ilustradores que aceitaram a proposta.
Boletim Ática: Voltando especificamente ao trabalho de Ludovic Debeurme.
Você entende que houve influências notáveis nas ilustrações que fez para O médico e o monstro?
Ana Lúcia: Sim, seu trabalho é baseado no movimento expressionista. A caracterização das personagens
tem um tom misterioso e teatral. As cores que utiliza são fovistas [adeptas do fauvismo, escola que utiliza
cores vibrantes e livre tratamento da forma na representação do mundo] e a relação entre luz e sombra
também o é. Arrisco-me a dizer que algumas das personagens criadas por ele têm inspiração na obra do
pintor colombiano Botero.
<Boletim Ática: Ilustrar a adaptação de um clássico interfere na qualidade
das ilustrações?
Ana Lúcia: Não, a boa adaptação mantém a essência do texto original. E, na verdade, se pensarmos
que esse texto de Stevenson tem mais de um século de vida, Jung já nos diria que ele pertence
ao inconsciente coletivo, ou seja, quem não se identifica com essa história de algum modo? Creio que
a maioria das pessoas já teve contato com alguma adaptação do texto para o cinema, os quadrinhos
ou o desenho animado.
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