BECK, Iná Janete.
Viagens de Gulliver: uma releitura. Porto Alegre, 2001. Tese (Doutorado em Letras) UFRGS, 2001.
Resumo
Este trabalho consiste em releitura das Viagens de Gulliver, a partir de uma reconsideração de seu contexto original, com vistas a restabelecer a estética swiftiana e, assim, facilitar uma recepção que corresponda à natureza e intenção da obra. A releitura é feita a partir da relação que julgamos poder estabelecer entre Swift e Rabelais. A percepção dessa relação nos permite resgatar elementos da cultura cômica popular e, mediante os mesmos, identificar e compreender os recursos satíricos de Swift. Para situar o leitor na problemática da tese, retomamos a história da recepção das Viagens de Gulliver. Verificamos que a estética burguesa dos séculos XVIII e XIX interpreta a obra de Swift a partir de um ideário estético pré-concebido, depreciando a intenção do autor com a "Viagem ao país dos Houyhnhums" e identificando a personagem principal, Gulliver, com o autor Swift. No século XX, a crítica literária recupera as chaves históricas, que permitem resgatar o contexto político da sátira. Entretanto, não consegue reconhecer o caráter cômico e as imagens escatológicas, entendidas ainda como tropeço do autor. Tendo em vista esse panorama, procuramos, neste estudo, analisar o espaço cômico do texto através das imagens do realismo grotesco. Comparando as Viagens de Gulliver com Gargantua, evidenciamos que o texto de Swift ainda se insere na cultura cômica popular. Das imagens do realismo grotesco, privilegiamos a "dos excrementos", por constituir, em nosso entender, o foco dos ataques às Viagens de Gulliver. Apoiando-nos na estética bakhtiniana, reconhecemos nessa imagem um recurso literário, usado para a função específica de rebaixamento e a renovação. Ainda apoiados na estética bakhtiniana, recorremos à personagem Dom Quixote para compreender a seriedade da personagem Gulliver. Com base em estudo da história literária, percebemos o contexto de Swift e das Viagens de Gulliver como momento de transição entre antigos e modernos valores estéticos, sociais e filosóficos. Contrastando Swift e Defoe, evidenciamos a polarização das opiniões. Verificamos que os antigos valores explicam o sucesso inicial das Viagens de Gulliver, ao passo que os novos esclarecem a cáustica recepção posterior. Nesse contexto, vemos Gulliver como imagem do inglês urbano do início do século XVIII. O fine gentleman pauta seu comportamento pela etiqueta da corte, adotando os princípios morais de Hobbes. Ao aportar no país dos Houyhnhnms, seres governados pelos princípios da razão, encontra "o paraíso dos filósofos racionalistas" e torna-se prosélito do sistema de governo correspondente, baseado na filosofia política de Hobbes e Locke e no sistema moral de Shaftesbury. Gulliver crê no racionalismo e suas possibilidades utópicas. Revela-se, assim, um homem urbano moderno que está sendo bem enganado. "Ser benm enganado" é um conceito da estética swftiana. Para compreender-lhe o significado e uso, especialmente na última viagem, analisamos A Tale of a Tub e outros textos de Swift. Constatamos que a "Viagem ao país dos Houyhnhnms" representa uma sátira às filosofias da moda, e não constitui a norma satírica de Swift. A natureza de Yahoos e Houyhnhms traduz o riso motejador de Swift a Descartes, aos seguidores da religião natural e aos neoplatônicos. A Descartes, apresenta-os como animais-máquina, de conduta "inscrita em sua própria estrutura mecânica". Aos seguidores da religião natural, aponta a natureza como mãe dos Houyhnhms e madastra dos Yahoos. Finalmente, aos neoplatônicos, desenha-os como caricaturas de uma fábula, com Houyhnhms representando a natureza superior dos que confiam na razão. Concluímos que Gulliver, felizmente, não conseguiu converter-nos ao racionalismo estóico, de tendência totalitária, dos Houyhnhms.
Palavras-chave
Viagens de Gulliver
Gargantua
A Tale of Atub
paródia
literatura comparada
Orientador
Kathrin Holzemayr Lerrer Rosenfield

Membros da Banca
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Financiamento — CNPq
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