Peter O'Sagae
Dobras da Leitura
Onis são demônios destruídores da cultura que o homem semeou sobre a terra. No
começo do conto, Momotaro decide salvar os moradores da região onde mora da
terrível ameaça. Temos, mais uma vez, a eterna luta do Bem contra o Mal!
Os Onis representam forças elementares de influência Yin. Ligam-se aos temores,
às trevas, às águas abissais, às profundezas do Ser... Na China antiga, o Oni
era simplesmente o espírito humano desencarnado, um fantasma mau, enquanto que
nesta antiga narrativa japonesa, eles aparecem como monstros demoníacos que
afligem os homens, vitimando colheitas como praga -- e são descritos com um ou
dois chifres bovinos no alto da cabeça, possuem mandíbulas afiadas na boca...
Esses monstros-demônios podem ser vermelhos ou azuis, vestem-se com uma pequena
tanga de pele de tigre. Quando não atormentam os homens, os Onis vivem reclusos
em uma ilha distante na imensidão do mar azul.
Na batalha final, as trevas e o clarão de raios e trovões se enfrentam -- e,
dessa cena, tanto quanto abusamos da analogia com as forças Yin-Yang, podemos
formar uma imagem plástica ricamente tingida de azul sombrio e de amarelo solar.
Um azul profundo, de funduras como o mar, o inferno, a distância, a ser invadido
pela luminosidade intensa e violenta do amarelo -- cor aguda, estridente.
Um choque contra a plácida quietude e a morbidez cerúlea do reino inferior...
Na simbologia das cores: amplo e cegante, como um fluxo de metal em fusão,
o amarelo é a mais quente, a mais expansiva, a mais ardente das cores, difícil
de atenuar e que extravasa sempre dos limites em que qualquer artista deseja
encerrá-la. Os raios do Sol, atravessando o azul celeste, manifestam o poder
das divindades superiores. O amarelo é cor masculina, cor da eternidade porque
o Ouro é o metal da eternidade. Cor da terra fértil, cor do Sol que nos olha
do alto.
No entanto, seria esperado que o bravo menino que nasceu do pêssego exterminasse,
com um só golpe, os monstros que desejava enfrentar. Ao contrário, o que
presenciamos nesta narrativa, após um enfrentamento sem vencedores, é o
rendimento das forças do mal através da palavra. E um pacto (que à mente
ocidental pode soar estranho) é estabelecido: os monstros não são derrotados,
nem mortos, como na maioria das histórias tradicionais em que aparecem bruxas
más, lobos, duendes malvados e dragões... Os Onis permanecem vivos, em troca
dos bens e riquezas que haviam saqueados aos homens.
Neste acordo, reside a sabedoria do equilíbrio, entre o Bem e o Mal, entre
as forças antagônicas do Yin-Yang --- mas complementares, necessárias uma a
outra, como a luz precisa da escuridão para iluminar(-se). Momotaro mostra-se
herói na mesma medida em que pode manter sua vigilância sobre os perigos
que ameaçam seu povo. O Mal nunca tem hora para chegar; no entanto, a surpresa
desagradável está sobre controle. Podemos dizer que a Voz do menino é a própria
expressão do "Eu" glorioso, mortal e divino a um só tempo, com a consciência
sobre os aspectos positivos e negativos -- e, é claro ;-) com força de mil homens
pois ele havia se alimentado do melhor bolinho de arroz de todo o Japão!
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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