Os Viajantes da Ilha: análise e aventura no arquipélago de histórias tradicionais do Japão
Ciclo de palestras com Dora F. Baseio
e Peter O'Sagae,
no espaço cultural da Livraria Alemdalenda - 08 de julho/1998.

Momotaro e
a luta contra os Onis

Peter O'Sagae
Dobras da Leitura




Onis são demônios destruídores da cultura que o homem semeou sobre a terra. No começo do conto, Momotaro decide salvar os moradores da região onde mora da terrível ameaça. Temos, mais uma vez, a eterna luta do Bem contra o Mal!
Os Onis representam forças elementares de influência Yin. Ligam-se aos temores, às trevas, às águas abissais, às profundezas do Ser... Na China antiga, o Oni era simplesmente o espírito humano desencarnado, um fantasma mau, enquanto que nesta antiga narrativa japonesa, eles aparecem como monstros demoníacos que afligem os homens, vitimando colheitas como praga -- e são descritos com um ou dois chifres bovinos no alto da cabeça, possuem mandíbulas afiadas na boca... Esses monstros-demônios podem ser vermelhos ou azuis, vestem-se com uma pequena tanga de pele de tigre. Quando não atormentam os homens, os Onis vivem reclusos em uma ilha distante na imensidão do mar azul.
Na batalha final, as trevas e o clarão de raios e trovões se enfrentam -- e, dessa cena, tanto quanto abusamos da analogia com as forças Yin-Yang, podemos formar uma imagem plástica ricamente tingida de azul sombrio e de amarelo solar. Um azul profundo, de funduras como o mar, o inferno, a distância, a ser invadido pela luminosidade intensa e violenta do amarelo -- cor aguda, estridente. Um choque contra a plácida quietude e a morbidez cerúlea do reino inferior... Na simbologia das cores: amplo e cegante, como um fluxo de metal em fusão, o amarelo é a mais quente, a mais expansiva, a mais ardente das cores, difícil de atenuar e que extravasa sempre dos limites em que qualquer artista deseja encerrá-la. Os raios do Sol, atravessando o azul celeste, manifestam o poder das divindades superiores. O amarelo é cor masculina, cor da eternidade porque o Ouro é o metal da eternidade. Cor da terra fértil, cor do Sol que nos olha do alto.
Momotaro ajoelhou-se respeitosamente à frente dos pais, curvando sua cabeça profundamente: Quero ir para Onigashima subjugar os demônios que assustam tanto as pessoas. Por favor, deixe-me ir!

[ampliar imagem]
No entanto, seria esperado que o bravo menino que nasceu do pêssego exterminasse, com um só golpe, os monstros que desejava enfrentar. Ao contrário, o que presenciamos nesta narrativa, após um enfrentamento sem vencedores, é o rendimento das forças do mal através da palavra. E um pacto (que à mente ocidental pode soar estranho) é estabelecido: os monstros não são derrotados, nem mortos, como na maioria das histórias tradicionais em que aparecem bruxas más, lobos, duendes malvados e dragões... Os Onis permanecem vivos, em troca dos bens e riquezas que haviam saqueados aos homens.
Neste acordo, reside a sabedoria do equilíbrio, entre o Bem e o Mal, entre as forças antagônicas do Yin-Yang --- mas complementares, necessárias uma a outra, como a luz precisa da escuridão para iluminar(-se). Momotaro mostra-se herói na mesma medida em que pode manter sua vigilância sobre os perigos que ameaçam seu povo. O Mal nunca tem hora para chegar; no entanto, a surpresa desagradável está sobre controle. Podemos dizer que a Voz do menino é a própria expressão do "Eu" glorioso, mortal e divino a um só tempo, com a consciência sobre os aspectos positivos e negativos -- e, é claro ;-) com força de mil homens pois ele havia se alimentado do melhor bolinho de arroz de todo o Japão!


voltar


Facilidade
os títulos sublinhados você encontra
na

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

:: BRINQUEDOS tradicionais japoneses. [catálogo da exposição] Centenário de Amizade Japão-Brasil. São Paulo: SESC, Japão: Museu do Brinquedo, 1995. :: CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Allain. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. trad. Vera da Costa e Silva et al. 9ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1995. :: COELHO, Nelly Novaes. Literatura Infantil: teoria, análise, didática. 5ª ed. rev. São Paulo: Ática, 1991. :: CUENTOS y leyendas japoneses. Madrid: Narcea, s.d. :: FOLK Tales of old Japan. il. Mitsuo Shirane. Tokyo: The Japan Times, 1975. :: HIRATSUKA, Lúcia. Mukashi... ima: contos e lendas do Japão. [encarte com textos e ilustrações da autora] Narração: Bia Grimaldi e Cristina Sano. Trilha sonora: Mário Lima Brasil. São Paulo: Casa de Bambu, 1997. :: HIRATSUKA, Lúcia; GÓES, Lúcia Pimentel. Momotaro, o menino que nasceu do pêssego. il. Lúcia Hiratsuka. São Paulo: Estação Liberdade, 1995. :: JAPAN: an illustred encyclopedia. Tokyo: Kodansha, 1993. :: KAWAI, Mitsuko. Lendas do Japão 2. São Paulo: Editora do Escritor, 1991. :: LOS MUÑECOS del Japón: formas de oración, encarnaciones de amor. [catálogo da exposição] org. Tetsuro Kitamura. Fotografias: Seki Yutaka. Japón: Fundação Japón, 1990. :: MARAVILHAS do conto popular. introd. notas e trad. Nair Lacerda. 2ª ed. São Paulo: Cultrix, 1960. pp. 199-200. :: VON FRANZ, Marie-Louise. A sombra e o mal nos contos de fada. trad. Maria Christina P. Kujawski. São Paulo: Paulisnas, 1985. p. 78. :: YAMAGUCHI, Gabriela. "Período Edo: a ponte era o passado e o presente" In: Made in Japan, Brasil: Jornal Tudo Bem; Japão: Patrimônio Tokyo, ano 1 (6): 46-51, 1998.