Os Viajantes da Ilha: análise e aventura no arquipélago de histórias tradicionais do Japão
Ciclo de palestras com Dora F. Baseio
e Peter O'Sagae,
no espaço cultural da Livraria Alemdalenda - 08 de julho/1998.

os companheiros da
viagem de Momotaro

Peter O'Sagae
Dobras da Leitura




O CÃO

Interessante observar como se dá a aproximação do cachorro ao menino-guerreiro, dizendo: "Eu sei quem você é, aonde vai e o que leva consigo, Momotaro." E assim vai lhe pedindo um dos bolinhos de arroz.
Obviamente, o cão é dado a ser o companheiro do homem em sua estrada da vida -- esta é a primeira lembrança que não podemos descartar. Mas é, a partir da pequena frase de sua chegada que podemos imaginar o ser divino escondido sob sua aparência canina. Ele nos revela uma onisciência sobre os acontecimentos, o que pode estar relacionado com suas habilidades de farejador (o faro como 6º sentido). Sua aguçada capacidade para indicar os caminhos será muito valiosa, pois o cachorro nesta história irá desempenhar um função de psicopompo, isto é, de condutor do herói até Onigashima (a ilha dos demônios), o mundo inferior. Tal atributo nos é dado em todos os sistemas mitológicos: do Egito à Grécia, conhecemos a facilidade dos cães atravessar as portas do Inferno ou do mundo dos mortos, sob a roupagem do deus-chacal Anúbis ou do tricéfalo Cérbero.
O cachorro (e igualmente o gato) sabe espreitar o Invisível. E, aqui, não pretendo me enveredar por toda a riqueza simbólica desse animal, de natureza ambígua, ora lunar, ora solar. Na aventura de Momotaro, ele se apresenta com um caráter luminoso, de energia Yang. Como lembram Chevalier e Gheerbrant [8],
NOTA [8]
CHEVALIER, Jean, GHEERBRANT, Allain. Dicionário de símbolos. 9.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1995.
o cão de caça é dotado de "baraka", isto é, uma energia capaz de proteger contra o mal (o que muito nosso herói precisa para adentrar a ilha-inferno dos Onis).
Ora, vejamos: o cão como animal solar, nos faz resgatar a velocidade do raio; seu latido nos remete ao som grave do trovão. De certo modo, o cachorro é um animal de simbologia atmosférica, ligando-o diretamente aos eventos celestiais: ele também age duplamente como a luz, que fende nuvens com o claro do relâmpago, que aquece como raio solar. Logo, o cachorro age como a luz de um conhecimento inato (em muitas civilizações, ao cão se atribui a dádiva do fogo, sendo um animal comprovadamente civilizatório, como a figura humana de Prometeu entre gregos).
Momotaro mais o Cão: a razão do herói passa a operar enriquecida por uma percepção extra-sensorial. Em termos junguianos, isso corresponderia ao uso da função-pensamento junto da intuição.


O MACACO

Diferentemente da simbologia ocidental que faz do macaco um arremedo da espécie humana, escroque de Deus e, até mesmo símile do Diabo, na cultura oriental, o símio goza de um estatuto diferenciado. O macaco representa a imagem do sábio disfarçado, sob a máscara burlesca do animal. Tanto é que a figura do macaco associa-se a idéia de "iniciado" e guarda consigo todo o conhecimento da ancestralidade. Assim, será sua Sabedoria que o segundo companheiro de viagem emprestará ao herói.
Vemos também que o macaco é mais outra expressão Yang, pois difunde um Conhecimento Pleno, tanto prático quanto espiritual. Podemos aproximá-lo da imagem que construímos a respeito dos Velhos Sábios da Montanha, o Ermitão ou Eremita, conforme aparece no ciclo do Tarô. Ora, descendo aos homens, o asceta traz luz para dissipar as trevas da mente e do coração. Ora, subindo seu caminho, vai como quem busca mais lúmen para sua contemplação meditativa. (Meditar, medir suas próprias ações.) E o que é importante: o Sábio da Montanha não é sujeito fora da vida prática: em suas indas e vindas, ele atua, coopera, influencia e aprende -- como o Macaco a saltar um de galho a outro. No conto, temos uma soma: é a juventude de Momotaro em companhia da Experiência.


O FAISÃO

O faisão, como todos os pássaros, é uma manifestação da divindade, fazendo a necessária ponte entre o mundo terreno e o céu acima. Na cultura oriental, o faisão é muitas vezes confundido com o grou e sua simbologia, em razão de seu canto, tradicionalmente acreditam os homens, anunciar presságios.
O faisão de nossa história parece ser a mesma ave que Amaterassu, a deusa do Sol, utilizou para comunicar-se com seus descendentes em missão sobre a terra. Ame-wakahiko estava encarregado de organizar o mundo -- no entanto, torna-se um deus prepotente ao se entregar aos prazeres de sua própria criação. Desta maneira, acaba por romper/corromper) os vínculos com a esfera superior. Então, sob a forma de um arco-íris, Amaterassu enviou o faisão colorido para recobrar a memória de Ame-wakahiko quanto seus propósitos e intenções... Assim, o faisão coopera na própria organização do mundo ao partir dos braços da deusa suprema e representa não apenas o elo, não só desempenha o papel de um simples mensageiro, mas carrega consigo toda luz que emana conhecimento profundo. O faisão é um animal de energia Yang.
"OUÇAM!", gritou Momotaro,
"Eu sou o menino que nasceu do pêssego
e venho para punir a todos os demônios que
têm sacrificado o povo de minha terra,
meus amigos e compatriotas!"
No enfrentamento de forças, Momotaro é inteiramente Yang, sendo nascido do pêssego, alimentado pelo arroz, acompanhado pelo trio cão-macaco-faisão. Em suas mãos, a espada -- que iremos ver como símbolo de energia luminosa que, como o raio, corta, conduz eletricidade, brilha na luta contra trevas.


Ler 5. A Espada, o Crisântemo, o Espelho... voltar