Peter O'Sagae
Dobras da Leitura
O CÃO Interessante observar como se dá a aproximação do cachorro ao menino-guerreiro, dizendo: "Eu sei quem você é, aonde vai e o que leva consigo, Momotaro." E assim vai lhe pedindo um dos bolinhos de arroz.
Obviamente, o cão é dado a ser o companheiro do homem em sua estrada da vida
-- esta é a primeira lembrança que não podemos descartar. Mas é, a partir da
pequena frase de sua chegada que podemos imaginar o ser divino escondido sob
sua aparência canina. Ele nos revela uma onisciência sobre os acontecimentos,
o que pode estar relacionado com suas habilidades de farejador (o faro como 6º
sentido). Sua aguçada capacidade para indicar os caminhos será muito valiosa,
pois o cachorro nesta história irá desempenhar um função de psicopompo, isto é,
de condutor do herói até Onigashima (a ilha dos demônios), o mundo inferior.
Tal atributo nos é dado em todos os sistemas mitológicos: do Egito à Grécia,
conhecemos a facilidade dos cães atravessar as portas do Inferno ou do mundo
dos mortos, sob a roupagem do deus-chacal Anúbis ou do tricéfalo Cérbero.
O cachorro (e igualmente o gato) sabe espreitar o Invisível. E, aqui, não
pretendo me enveredar por toda a riqueza simbólica desse animal, de natureza
ambígua, ora lunar, ora solar. Na aventura de Momotaro, ele se apresenta com
um caráter luminoso, de energia Yang. Como lembram Chevalier e Gheerbrant [8],
Ora, vejamos: o cão como animal solar, nos faz resgatar a velocidade do raio;
seu latido nos remete ao som grave do trovão. De certo modo, o cachorro é um
animal de simbologia atmosférica, ligando-o diretamente aos eventos celestiais:
ele também age duplamente como a luz, que fende nuvens com o claro do relâmpago,
que aquece como raio solar. Logo, o cachorro age como a luz de um conhecimento
inato (em muitas civilizações, ao cão se atribui a dádiva do fogo, sendo um
animal comprovadamente civilizatório, como a figura humana de Prometeu entre gregos).
Momotaro mais o Cão: a razão do herói passa a operar enriquecida por uma
percepção extra-sensorial. Em termos junguianos, isso corresponderia ao uso da
função-pensamento junto da intuição.
O MACACO Diferentemente da simbologia ocidental que faz do macaco um arremedo da espécie humana, escroque de Deus e, até mesmo símile do Diabo, na cultura oriental, o símio goza de um estatuto diferenciado. O macaco representa a imagem do sábio disfarçado, sob a máscara burlesca do animal. Tanto é que a figura do macaco associa-se a idéia de "iniciado" e guarda consigo todo o conhecimento da ancestralidade. Assim, será sua Sabedoria que o segundo companheiro de viagem emprestará ao herói.
Vemos também que o macaco é mais outra expressão Yang, pois difunde um
Conhecimento Pleno, tanto prático quanto espiritual. Podemos aproximá-lo da
imagem que construímos a respeito dos Velhos Sábios da Montanha, o Ermitão ou
Eremita, conforme aparece no ciclo do Tarô. Ora, descendo aos homens, o asceta
traz luz para dissipar as trevas da mente e do coração. Ora, subindo seu caminho,
vai como quem busca mais lúmen para sua contemplação meditativa. (Meditar, medir
suas próprias ações.) E o que é importante: o Sábio da Montanha não é sujeito
fora da vida prática: em suas indas e vindas, ele atua, coopera, influencia e
aprende -- como o Macaco a saltar um de galho a outro. No conto, temos uma soma:
é a juventude de Momotaro em companhia da Experiência.
O FAISÃO O faisão, como todos os pássaros, é uma manifestação da divindade, fazendo a necessária ponte entre o mundo terreno e o céu acima. Na cultura oriental, o faisão é muitas vezes confundido com o grou e sua simbologia, em razão de seu canto, tradicionalmente acreditam os homens, anunciar presságios.
O faisão de nossa história parece ser a mesma ave que Amaterassu, a deusa do Sol,
utilizou para comunicar-se com seus descendentes em missão sobre a terra.
Ame-wakahiko estava encarregado de organizar o mundo -- no entanto, torna-se um
deus prepotente ao se entregar aos prazeres de sua própria criação. Desta maneira,
acaba por romper/corromper) os vínculos com a esfera superior. Então, sob a forma
de um arco-íris, Amaterassu enviou o faisão colorido para recobrar a memória de
Ame-wakahiko quanto seus propósitos e intenções... Assim, o faisão coopera na
própria organização do mundo ao partir dos braços da deusa suprema e representa
não apenas o elo, não só desempenha o papel de um simples mensageiro, mas carrega
consigo toda luz que emana conhecimento profundo. O faisão é um animal
de energia Yang.
"OUÇAM!", gritou Momotaro,
No enfrentamento de forças, Momotaro é inteiramente Yang,
sendo nascido do pêssego, alimentado pelo arroz, acompanhado pelo trio cão-macaco-faisão.
Em suas mãos, a espada -- que iremos ver como símbolo de energia luminosa que, como o raio,
corta, conduz eletricidade, brilha na luta contra trevas.
|
| Ler 5. A Espada, o Crisântemo, o Espelho... |