Os Viajantes da Ilha: análise e aventura no arquipélago de histórias tradicionais do Japão
Ciclo de palestras com Dora F. Baseio
e Peter O'Sagae,
no espaço cultural da Livraria Alemdalenda - 08 de julho/1998.

Momotaro:
símbolos e mitos do japão

Peter O'Sagae
Dobras da Leitura




O PÊSSEGO

O fruto, em sua forma arrendonda e cor, nos faz lembrar primeiramente o Sol e, como o astro, nos conduz a uma idéia de Centro. Antes de ser um herói, até mesmo antes de ser um menino, Momotaro se localiza neste centro (de vida, de luz e de alimento) como semente. Encontra-se, por assim dizer, em um estado de repouso e silêncio. E, então, ele é acordado, desperta para a vida: "A água de lá é salgada, a água de cá é doce!" Assim, embalado e seduzido pelo canto de mãe;

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a mulher, que estava a lavar roupas no rio recolhe Momotaro em seus braços, levando-o para casa.
Poderíamos traçar analogias entre o fruto redondo e o ventre materno. Mas a mulher da história já vai em avançada idade. Momotaro é o filho recolhido das águas, como Moisés e muitos heróis civilizadores... Na mitologia japonesa, o primeiro casal, Izanagi e Izanami (chamados também de criadores do mundo e avós do homem), abandonaram às águas o primeiro filho que tiveram: Hiruko, o nascido fraco demais, é o filho flutuante em uma pequena balsa ou cesto redondo. Nunca se soube o seu destino... Vindo à terra, Momotaro parece resgatar o direito ancestral à Vida do filho de Izanagi e Izanami. Aproximando mito e conto, opera-se a redenção do abandono primordial com a transferência das obrigações de pai e mãe para os velhinhos montanheses. Em outras palavras, poderíamos afirmar que o casal de velhos é uma duplicação do casal de deuses primevos. Será curioso lembrar que um casal de velhinhos sempre aparece no início de diversos contos japoneses e recebem, como presente divino, um filho para prover alegria e sustento ao lar -- por exemplo, no conto da princesa da lua, Kaguya Hime é encontrada dentro de um bambu. Enfim, poderíamos nos indagar: a balsa original teria se transformado em pêssego?
Antes mesmo de entrar nos aspectos simbólicos do fruto, enfocarei a árvore: o pessegueiro -- que guarda estreitas ligações com a simbologia da cerejeira e da ameixeira --, preconizando a chegada da Primavera pois sua estabilidade é promessa do Verão. Quero lembrar aqui a data do Festival dos Meninos: 5 de maio, quando no Japão começam os preparativos para receber a nova estação, juntamente com os festejos Tango no Sekku. Dizem ainda que o pessegueiro tem uma floração prematura, uma vez que seus frutos são colhidos bem antes do Outono (portanto, no Verão). Os pêssegos, assim, pertencem à estação do Sol radiante -- o que nos remete à sua redondeza e amarelidão, aos sabores dos raios solares proporcionando amadurecimento aos frutos, alimentos doados pela terra.
O pêssego em si: está intimamente relacionado com o mito de Izanagi que, graças ao fruto, conseguiu livrar-se dos espíritos infernais em seu encalço... A narrativa é muito longa e, aqui, tentarei esboçar um resumo apressado: ao nascer Kagu-tsuchi, kami (deus) do fogo e o último dos dez filhos divinos do par primordial, Izanami foi consumida em chamas, retorcendo-se entre vômitos, excrementos e urina [7],
NOTA [7]
Nessa passagem entre vômitos, excremento e urina, Izanami irá fazer surgir outros prodígios: outros filhos sem a participação masculina. Esse mesmo motivo (escatologia) será apresentado em outras versões sobre o surgimento do Japão, quando a grande deusa Amaterassu, bêbada, entre vômitos e excrescências, dá origem a todo o arquipélago. Amaterassu é a deusa do Sol, filha de Izanagi (sem o concurso de uma divindade feminina), nasceu do olho esquerdo de seu pai -- o olho sinistro porque
olho do futuro.
vindo então a morrer. Decidido a recuperar sua amada, Izanagi desce ao mundo inferior e lá a encontra (qualquer semelhança com o mito grego de Orfeu e Eurídice, não será mera coincidência). Mas nosso ancestral avô fica sabendo, pela confissão de sua própria esposa, que ela já havia comido da mesa do país dos mortos e, portanto, não mais poderia abandonar o recinto infausto sem a especial permissão do kami do inferno. Assim dizendo, Izanami desaparece no meio das trevas. O marido sai a sua procura, ateando fogo a um dente de pente para que pudesse encontrar um caminho.
Pois bem: Izanagi deparou-se com Izanami, entre vermes que a devoravam sem piedade -- esses vermes são exatamente as oito divindades do trovão que nasceram da decomposição do cadáver da deusa. Sentindo-se humilhada, por assim ter sido vista pelo marido (tabu da vergonha x imagem), Izanami lançou sobre ele uma investida nada amistosa. Agindo rapidamente, Izanagi jogou sua coroa ao chão e esta se transformou em um cacho de uvas que os maus espíritos pararam para apanhar. Depois, voltaram a correr atrás do deus que, então, joga ao chão os dentes que sobraram do pente, convertendo-os em brotos de bambu: os demônios param para apanhar. Na continuidade da perseguição, quando Izanagi alcançou a boca do inferno, apanhou três pêssegos maduros que arremessou contra a horda às suas costas, pondo os demônios em fuga. Agradecido (e isto é sempre importante quando se trata de uma narrativa mítica ou conto de magia), Izanagi parou e, tomando fôlego, falou aos pêssegos que lhe tinham salvo a vida: como haviam socorrido sua divindade, a partir de então, os frutos do pessegueiro ajudariam os humanos quando necessitassem de auxílio. Desta maneira, os pêssegos converteram-se em frutos divinos.
(Contam ainda que a furiosa Izanami, vendo suas ordens fracassarem, saiu ela própria para acabar com aquele que era, em vida, seu amado marido -- e ela já não era mais a esposa, mas a maior deusa do inferno... no entanto, Izanagi havia colocado uma pedra na entrada do inferno, de modo que ela não pudesse mais sair. Mesmo assim, Izanami dissipou palavras áridas afirmando que sua determinação faria dela uma inimiga invencível, assassinando mil homens por dia. Izanagi respondeu-lhe que faria nascer, na mesma proporção, outros 1.500 homens... Izanagi ainda empurrou a grande pedra, selando definitivamente a boca da casa dos mortos.)
Como fruto divino do antigo mito, ficamos sabendo que o pêssego tem um papel de proteção contra as más influências, possui um valor de exorcismo que se encontra muito nitidamente nas tradições da China ao Japão. É muito comum no Ano-Novo, pequenos objetos e algumas miniaturas feitas de madeira de pessegueiro serem colocadas sobre as portas a fim de eliminar as influências perversas.
Ora, o pessegueiro -- e o pêssego -- também são símbolos da IMORTALIDADE. Na Antiga China, a árvore de Siwang mu, a Real Mãe do Oeste, produz a cada três mil anos pêssegos que conferem a imortalidade e os seres Imortais alimentam-se de suas flores (ou da ameixeira). Também o pêssego traz 1.000 Primaveras, segundo a iconografia popular. Na figura de um dos três deuses da região de K'wan Kong, um ancião de cabeça proeminente, segurando no colo um menino, em sua mão esquerda um cajado e, na outra, um pêssego, preside a LONGEVIDADE, a promessa de Vida imperando sobre o Tempo.
Em algumas lendas de sociedades secretas do Oriente, retoma-se o simbolismo de um tema histórico, sobre a existência do Jardim dos Pessegueiros, sinônimo de um Jardim da Imortalidade, em variadas versões. Não deixa de ser uma promessa análoga ao Éden do renascimento espiritual. Portanto, a imagem do pessegueiro se firma como uma verdadeira ÁRVORE DA VIDA do Paraíso Perdido, o ponto de chegada na mística viagem de Iniciação.


O ARROZ

Notadamente, o arroz é um cereal de expressão Yang, nascendo dos charcos rumo a luz do Sol -- os alimentos Yin nascem sob a terra, em geral. Este alimento nutriz da nação japonesa também é uma dádiva divina: o sustento garantido miticamente aos homens pelos deuses. No conto, ficamos sabendo como Momotaro cresceu com maravilhosa velocidade: a cada tigela de arroz, o menino se tornava cada vez maior. Dessa forma, conferimos o primeiro atributo desse alimento como um elemento da coesão social, não apenas como organização do trabalho, mas garantia do sustento, da sobrevivência e permanência de um povo -- o arroz reveste-se, portanto, de toda simbologia comum ao trigo e ao milho para as culturas européias e ameríndias. E, na história do menino nascido do pêssego, o arroz aparece uma segunda vez, sob a forma de bolinhos kibidango (millet dumplings ou rice-dumpling, um certo bolinho de farinha de arroz ou apenas de arroz amassado até formar uma pasta). E é através desse bolinho que Momotaro conquista a adesão dos três guerreiros-animais: temos aqui o símbolo da comunhão e da união entre iguais, formação de uma comunidade: pequenos grãos que conformam a força, a massa e a aliança.
(Assim, podemos passar para nossa discussão sobre esses três aliados. E gostaria de lembrar que, no universo das narrativas populares, toda vez que

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um animal se apresentada na estrada do herói, exigindo-lhe dons ou dispensando conselhos, o viandante deve seguir suas vontades, atendendo seus pedidos ou ouvindo suas mensagens. Sempre!)


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