Peter O'Sagae
Pesquisador da Tradição Oral Mestrando em Letras - USP (1998)
Começo aqui citando von Franz, discípula dos ensinamentos variados
deixados por Carl Jung. Gosto em particular desse modelo de abordagem pois
ele opera como um sistema de analogias, através de imagens que podemos evocar
e combinar, em um jogo onde a memória se estende como um grande tabuleiro de
peças para montar --
o que significa um trabalho de pesquisa sempre em progresso. Longe de ser
uma tarefa enfadonha, é com satisfação e divertimento que consigo chegar
a algumas possibilidades de leitura de um conto, aceitando as regras de uma
sugestão intuitiva. Estou falando de "descobertas" pessoais em festa de
possibilidades, do que me chega e faz ir além.
Pois bem, há bastante tempo, conheço a história do menino que nasceu do pêssego.
Também não é a primeira vez que busco trabalhar com este conto. Porém, para essa
aventura-análise, ao remexer velhas anotações, várias dúvidas se insinuaram.
Desejei deixar de lado os estudos literários, um pouco que fosse, propondo-me
uma nova viagem entre os símbolos desta narrativa. Isto tudo me tomando, de
alguma maneira, já se sabia, tinha a ver com meu objetivo de leitura -- e
igualmente as várias reflexões que Marie-Louise von Franz nos exige. Em seu livro [2],
Puxando um fio da meada do próprio Festival dos Meninos: o Tango no Sekku
marca a passagem da primavera para o verão e é celebrado a 5 de maio, dia de
feriado nacional. As cerimônicas do Festival dos Meninos, originárias do remoto
Período Heian (794-1185), procuravam afastar os maus espíritos e o demônio da má
saúde. Durante a longa Idade Média, o festival se firmou, através das sociedades
samurais, com o propósito de orar pelo êxito dos meninos na vida. Logo mais tarde,
no Período Edo (1603-1868), o Tango no Sekku difundiu-se como uma
celebração que louva o crescimento saudável e feliz do menino.
Quando o dia 5 de maio se aproxima, as famílias que têm um menino içam enormes
carpas de serpentina em um poste e exibem dentro de casa uma armadura em
miniatura ou bonecos com trajes guerreiros.
As imensas carpas coloridas
simbolizam para os japoneses a força e a perseverança, pois são peixes que
nadam contra a correnteza rio acima. Por isso, foram escolhidas para representar
o Dia dos Meninos, que modernamente também é o Dia Internacional dos Direitos da
Criança. Esses enfeites são chamados de koi-nobori e podem ser de papel ou
pano, colocados nos mastros em frente a casa como os antigos estandartes dos clãs
samurais. As armaduras, naturalmente, evocam a valentia dos guerreiros e
também suas histórias. Representados sob a forma de bonecos, os heróis nacionais
se confundem com figuras lendárias e perfis míticos. É o caso de Chisho,
boneco do General Sábio que busca representar Toyotomi Hideyoshi (1537-1598),
célebre por conseguir pacificar o país após um século de lutas internas.
Hideyoshi é reconhecido por um elmo de forma característica.
Outro boneco sempre presente no Festival dos Meninos, é Kintaro (Menino
de Ouro), um lendário e forte garoto, vívido lutador e guerreiro.
Seu nome de nascimento seria Sakata no Kintoki e foi um dos quatro seguidores de
confiança do comandante Minamoto no Yorimitsu (948-1021). Embora tenha sido uma
personagem real e histórica (aparecendo na antologia de narrativas e crônicas
Konjaku, do século XI), Sakata é descrito em histórias mais recentes como
filho de Yamamba ou Yama-Oba, velha bruxa das regiões montanhosas. Nascido sobre
o Monte Ashigara, Kintaro é um prodígio de força hercúlea que conviveu e lutou
corpo-a-corpo com os ursos e outras bestas. Vemos sempre que a realidade se
confunde com o espírito da lenda. No Período Edo, entre-séculos XVII e XVIII, Kintaro aparece
como personagem de peças de kabuki e seus feitos são cantados em muitas
baladas (chamadas joruri), também sob o nome de Kaidomaru.
Nos contos que narram seu nascimento sobrenatural, dizem ainda que o Menino
de Ouro apresenta uma compleição vermelha e possui uma machadinha que muitos
acreditam ter sido a arma utilizada pelo deus-trovão, o kami das boas colheitas.
[3]
Além de Chisho, o General Sábio, e Kintaro, o Menino de Ouro, também existe um
boneco de Momotaro -- e dele encontro uma fotografia [ver imagem],
em um catálogo de Gogatsu Ningyo
-- ou seja, Bonecos para o Festival dos Meninos. A legenda diz:
"Momotaro é um jovem irrequieto que nasceu de um pêssego (momo). Ele é
o mais valente dos heróis dos contos infantis japoneses e famoso pelas suas
audaciosas aventuras em que vence os monstros empenhados
em trazer desgraças à humanidade." [5]
Segundo a tradição japonesa [6],
a história de Momotaro pode ser considerada e
classificada como tiisako monogatari, isto é, um conto do filho pequenino,
e também como uma hyochakutan: lendas dos seres encontrados na água
ou que se banham à beira-mar, à beira-rio. Taro é um nome bastante comum
entre o povo japonês, mas é principalmente um nome típico dado ao primogênito
ribeirinho. Vamos lembrar assim, do início do conto, do surgimento maravilhoso
de um enorme pêssego a descer na correnteza do rio e como sua velha mãe o retira
da rota para o mar, cantando -- e encantando, lançando um encantamento sobre o
fruto: A água de lá é salgada, a água de cá é doce!
Inicialmente, poderíamos pensar que a história de Momotaro diz respeito
simplesmente às tradicionais lutas entre o Bem e o Mal que exigem do herói
um papel decisivo em suas batalhas. Mas isto me pareceu uma conclusão revestida
por uma visão ocidentalizante e, em certo sentido, antecipada. Com certeza,
temos o Bem representado pelo Menino Guerreiro e seus Aliados, enquanto o Mal
surge na imagem dos temíveis Onis, seres que são ora monstros, ora demônios...
Para melhor adentrar nesta narrativa, e brincar com as analogias, escolho como
referência a expressão do Yin-Yang para explicar o jogo de necessária
complementariedade entre monstros/heróis, homens/demônios. Desdobraremos, assim,
as idéias-Yang relacionadas ao personagem da história de Momotaro e aos símbolos
do Festival dos Meninos. Veremos como muitos traços de força Yang acabam por
reforçar o lado numinoso da figura do herói -- através de elementos como o
pêssego, o arroz e a espada, e de seus três companheiros de marcha: um cão,
um macaco e um faisão. Quando tomados em separado, esses seis elementos podem
revelar a riqueza de um simbolismo particular das culturas orientais. No entanto,
devemos compreendê-los, na investigação do conto, tramando uma rede de relações
para o confronto/equilíbrio com forças-idéias-Yin (que veremos um pouco mais adiante).
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