Os Viajantes da Ilha: análise e aventura no arquipélago de histórias tradicionais do Japão
Ciclo de palestras com Dora F. Baseio
e Peter O'Sagae,
no espaço cultural da Livraria Alemdalenda - 08 de julho/1998.

Momotaro e
o Festival dos Meninos

Peter O'Sagae
Pesquisador da Tradição Oral
Mestrando em Letras - USP (1998)



Na verdade, tudo o que fazemos com os contos de fada é reinterpretar as tradições religiosas e folclóricas, para que tais tradições possam novamente ser integradas na atitude consciente.

Marie-Louise von Franz

Começo aqui citando von Franz, discípula dos ensinamentos variados deixados por Carl Jung. Gosto em particular desse modelo de abordagem pois ele opera como um sistema de analogias, através de imagens que podemos evocar e combinar, em um jogo onde a memória se estende como um grande tabuleiro de peças para montar -- o que significa um trabalho de pesquisa sempre em progresso. Longe de ser uma tarefa enfadonha, é com satisfação e divertimento que consigo chegar a algumas possibilidades de leitura de um conto, aceitando as regras de uma sugestão intuitiva. Estou falando de "descobertas" pessoais em festa de possibilidades, do que me chega e faz ir além.
Pois bem, há bastante tempo, conheço a história do menino que nasceu do pêssego. Também não é a primeira vez que busco trabalhar com este conto. Porém, para essa aventura-análise, ao remexer velhas anotações, várias dúvidas se insinuaram. Desejei deixar de lado os estudos literários, um pouco que fosse, propondo-me uma nova viagem entre os símbolos desta narrativa. Isto tudo me tomando, de alguma maneira, já se sabia, tinha a ver com meu objetivo de leitura -- e igualmente as várias reflexões que Marie-Louise von Franz nos exige. Em seu livro [2],
NOTA [2]
VON FRANZ, Marie-Louise. A sombra e o mal nos contos de fada. trad. Maria Christina P. Kujawski. São Paulo: Paulisnas, 1985.
pp. 78 e 157.
re-encontro: ... antes de terminar uma análise ou interpretação, sempre me pergunto: para quem esta história deve ser contada? Quem precisa dela? Parei nessas interrogações: de fato, quem precisa conhecer Momotaro? Esta era a pergunta que eu realmente deveria me perguntar... E logo à mente, através de uma livre evocação, vejo o painel colorido do Festival dos Meninos, com suas carpas, suas armaduras em miniatura, os mil e um guerreiros do Japão... Momotaro seria uma história para os meninos japoneses? São eles quem mais precisam conhecê-la?... Prossegui na leitura de von Franz: E geralmente ela é perfeita para a nação onde teve origem e é por isso que lá as pessoas a contam com tanto prazer. Encontrado um elo para a questão, outra pergunta: Por quê? Ou ainda: que tipo de herói é este menino, nascido maravilhosamente de um pêssego? Qual a experiência mítica que ele nos faz reviver?
Puxando um fio da meada do próprio Festival dos Meninos: o Tango no Sekku marca a passagem da primavera para o verão e é celebrado a 5 de maio, dia de feriado nacional. As cerimônicas do Festival dos Meninos, originárias do remoto Período Heian (794-1185), procuravam afastar os maus espíritos e o demônio da má saúde. Durante a longa Idade Média, o festival se firmou, através das sociedades samurais, com o propósito de orar pelo êxito dos meninos na vida. Logo mais tarde, no Período Edo (1603-1868), o Tango no Sekku difundiu-se como uma celebração que louva o crescimento saudável e feliz do menino.
Quando o dia 5 de maio se aproxima, as famílias que têm um menino içam enormes carpas de serpentina em um poste e exibem dentro de casa uma armadura em miniatura ou bonecos com trajes guerreiros.
As imensas carpas coloridas simbolizam para os japoneses a força e a perseverança, pois são peixes que nadam contra a correnteza rio acima. Por isso, foram escolhidas para representar o Dia dos Meninos, que modernamente também é o Dia Internacional dos Direitos da Criança. Esses enfeites são chamados de koi-nobori e podem ser de papel ou pano, colocados nos mastros em frente a casa como os antigos estandartes dos clãs samurais. As armaduras, naturalmente, evocam a valentia dos guerreiros e também suas histórias. Representados sob a forma de bonecos, os heróis nacionais se confundem com figuras lendárias e perfis míticos. É o caso de Chisho, boneco do General Sábio que busca representar Toyotomi Hideyoshi (1537-1598), célebre por conseguir pacificar o país após um século de lutas internas. Hideyoshi é reconhecido por um elmo de forma característica.
Outro boneco sempre presente no Festival dos Meninos, é Kintaro (Menino de Ouro), um lendário e forte garoto, vívido lutador e guerreiro. Seu nome de nascimento seria Sakata no Kintoki e foi um dos quatro seguidores de confiança do comandante Minamoto no Yorimitsu (948-1021). Embora tenha sido uma personagem real e histórica (aparecendo na antologia de narrativas e crônicas Konjaku, do século XI), Sakata é descrito em histórias mais recentes como filho de Yamamba ou Yama-Oba, velha bruxa das regiões montanhosas. Nascido sobre o Monte Ashigara, Kintaro é um prodígio de força hercúlea que conviveu e lutou corpo-a-corpo com os ursos e outras bestas. Vemos sempre que a realidade se confunde com o espírito da lenda. No Período Edo, entre-séculos XVII e XVIII, Kintaro aparece como personagem de peças de kabuki e seus feitos são cantados em muitas baladas (chamadas joruri), também sob o nome de Kaidomaru.
Nos contos que narram seu nascimento sobrenatural, dizem ainda que o Menino de Ouro apresenta uma compleição vermelha e possui uma machadinha que muitos acreditam ter sido a arma utilizada pelo deus-trovão, o kami das boas colheitas. [3]
NOTA [3]
JAPAN: an illustred encyclopedia. Tokyo: Kodansha, 1993.

NOTA [4]
BRINQUEDOS tradicionais japoneses. [catálogo da exposição] Centenário de Amizade Japão-Brasil. São Paulo: SESC, Japão: Museu do Brinquedo, 1995.

NOTA [5]
LOS MUÑECOS del
Japón: formas de oración, encarnaciones de amor.
[catálogo da exposição] org. Tetsuro Kitamura. Japón: Fundação Japón, 1990.

NOTA [6]
MARAVILHAS do conto popular. introd. notas e trad. Nair Lacerda. 2.ed. São Paulo: Cultrix, 1960. pp. 199-200.
Muitos bonecos Kintaro mostram-no robusto e vermelho, com linhas brancas assinalando sua musculatura desenvolvida, subjulgando um urso. Os pais depositam nesse boneco as suas esperanças de um futuro alegre e saudável para seus filhos. Acredita-se que a cor vermelha possui o poder de afastar a varíola e outras epidemias. [4]
Além de Chisho, o General Sábio, e Kintaro, o Menino de Ouro, também existe um boneco de Momotaro -- e dele encontro uma fotografia [ver imagem], em um catálogo de Gogatsu Ningyo -- ou seja, Bonecos para o Festival dos Meninos. A legenda diz: "Momotaro é um jovem irrequieto que nasceu de um pêssego (momo). Ele é o mais valente dos heróis dos contos infantis japoneses e famoso pelas suas audaciosas aventuras em que vence os monstros empenhados em trazer desgraças à humanidade." [5]
Segundo a tradição japonesa [6], a história de Momotaro pode ser considerada e classificada como tiisako monogatari, isto é, um conto do filho pequenino, e também como uma hyochakutan: lendas dos seres encontrados na água ou que se banham à beira-mar, à beira-rio. Taro é um nome bastante comum entre o povo japonês, mas é principalmente um nome típico dado ao primogênito ribeirinho. Vamos lembrar assim, do início do conto, do surgimento maravilhoso de um enorme pêssego a descer na correnteza do rio e como sua velha mãe o retira da rota para o mar, cantando -- e encantando, lançando um encantamento sobre o fruto: A água de lá é salgada, a água de cá é doce!
Inicialmente, poderíamos pensar que a história de Momotaro diz respeito simplesmente às tradicionais lutas entre o Bem e o Mal que exigem do herói um papel decisivo em suas batalhas. Mas isto me pareceu uma conclusão revestida por uma visão ocidentalizante e, em certo sentido, antecipada. Com certeza, temos o Bem representado pelo Menino Guerreiro e seus Aliados, enquanto o Mal surge na imagem dos temíveis Onis, seres que são ora monstros, ora demônios...
Para melhor adentrar nesta narrativa, e brincar com as analogias, escolho como referência a expressão do Yin-Yang para explicar o jogo de necessária complementariedade entre monstros/heróis, homens/demônios. Desdobraremos, assim, as idéias-Yang relacionadas ao personagem da história de Momotaro e aos símbolos do Festival dos Meninos. Veremos como muitos traços de força Yang acabam por reforçar o lado numinoso da figura do herói -- através de elementos como o pêssego, o arroz e a espada, e de seus três companheiros de marcha: um cão, um macaco e um faisão. Quando tomados em separado, esses seis elementos podem revelar a riqueza de um simbolismo particular das culturas orientais. No entanto, devemos compreendê-los, na investigação do conto, tramando uma rede de relações para o confronto/equilíbrio com forças-idéias-Yin (que veremos um pouco mais adiante).


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