Os Viajantes da Ilha: análise e aventura no arquipélago de histórias tradicionais do Japão
Ciclo de palestras com Dora F. Baseio
e Peter O'Sagae,
no espaço cultural da Livraria Alemdalenda - 08 de julho/1998.

Momotaro,
o menino que
nasceu do pêssego

Peter O'Sagae
Pesquisador da Tradição Oral
Mestrando em Letras/USP (1998)



O conto do menino que nasceu do pêssego, na forma literária tal como hoje é conhecido, data do século XVII correspondendo ao Período Edo (1603-1868), em que o Japão viveu grande efervescência cultural:
que durou tanto tempo graças ao governo centralizador que se formou depois de o país sair de 150 anos de batalhas entre clãs inimigos que se rivalizavam em campo aberto. O início do Período Edo começou oficialmente em 1603, quando o shogun Ieyasu Tokugawa chegou ao poder. A partir daí, seguiram-se mais de 200 anos sem guerras internas no Japão. Desde que Ieyasu assumiu seu domínio, a cidade de Kyoto perdeu seu título de capital do país para Edo -- futura Tokyo. [1]
NOTA [1]
YAMAGUCHI, Gabriela. Período Edo: a ponte entre o passado e o presente.
In: Made in Japan, Brasil: Jornal Tudo Bem; Japão: Patrimônio Tokyo, ano 1 (6): 46-51, 1998.
O antigo Japão fechou suas portas para as nações estrangeiras, ficando livre de qualquer influência que pudesse vir do Ocidente. Chineses, alemães e holandeses continuaram tendo a entrada permitida, mas restrita ao porto de Nagasaki. Essa medida do shogun (vetar o contato com qualquer outra nação) tinha um propósito político. No entanto, a aversão cultural que existia, desde o século XVI, apenas ganhou novas proporções quando Tokugawa soube o quanto era forte, na Europa, o poder da Igreja Católica. Temendo uma possível invasão do cristianismo -- que poderia minar a influência do shogunato, o povo japonês se viu obrigado a viver isolado.
Ponto alto do "isolamento" foi o esplendor histórico-cultural na sociedade japonesa do Período Edo, impulsionando o desenvolvimento de todos os setores, da religião ao comércio e às artes tradicionais... a arquitetura ganha requinte nos detalhes, muitas construções imitando o estilo de castelos; os exercícios marciais passam ao estatuto de arte, principalmente o kendô, a luta de espadas, e o sumô, praticado então como esporte... Escolas são criadas por todo o país, treina-se a arte da caligrafia, a cerimônia do chá se difunde... Muitas das paisagens mentais que temos do Japão dizem respeito a esse período "mágico"; também vale lembrar que, nesse contexto, ocorre a mitificação dos três símbolos da sociedade nipônica: o samurai, o ninja e a gueixa.
  • Os samurais formavam a classe política da época, dominavam governos locais e respondiam ao poder absoluto do shogun. Agiam como administradores e juízes da cidade. Eram severos no julgamento, muitas vezes, exigindo a cabeça de criminosos, condenados à decapitação e à exibição em praça pública.

  • Os ninjas eram aqueles que dominavam vários tipos de artes marciais. Cobriam seus rostos e esgueiravam-se à noite, agindo com descrição. Serviam aos samurais e até mesmo ao shogun, para resolver brigas internas pelo poder, sendo pago por esses trabalhos. Eram um tipo de mercenários.

  • As gueixas eram educadas ao longo da vida para agradar aos homens que pertenciam a grupos privilegiados na sociedade, como os samurais e os comerciantes mais ricos. Não eram garotas de programas. Belas e cultas, essas mulheres se especializavam na arte de entreter, sabiam tocar shamisen com maestria e declamar poesia (haiku).
Ao lado do espírito de frugalidade das gueixas e de toda a população, que dedicava seu tempo livre às mais variadas formas de arte, havia paralelamente um rígido código de honra prescrito por Tokugawa. Os ideais da nova ordem eram lealdade, honestidade e disciplina, inspirados pelo confucionismo e que deveriam ser seguidos com exatidão pelos samurais a fim de assegurar o poder político do shogun e, igualmente, fazendo com que os homens passassem de uma classe guerreira à outra mais instruída. Tais preceitos acabaram se tornando a base moral de toda a sociedade japonesa, determinando a educação verticalizada "de cima para baixo" e a obediência em sentido contrário... O hábito de respeito e/ou submissão atravessa séculos e, ainda hoje, as relações parentais, homem-mulher, chefe-subordinado se valem desse modelo de conduta. Um exemplo é o fato da mulher andar a três passos de seu marido para jamais pisar na sombra do homem.
Curiosidades à parte, lembramos também que, no Período Edo, a maior parte da população já era letrada e, ao que diz respeito a uma literatura mais informal, as pessoas se dedicavam a escrever poemas que eram trocados como cartas, entre as mais diferentes classes sociais... Também é fácil imaginar que, nesse clima de prosperidade, sem guerras, sem a escassez de alimentos -- egressos do campo avolumando as cidades -- muitas histórias antigas passassem a ser contadas, ora por uma atividade frugal de entretenimento, ora como verdadeira troca de vivências particulares: o conhecimento popular sendo resgatado, as histórias como sinônimo de bagagem cultural.
Mencionei inicialmente que os relatos escritos da história de Momotaro, como de muitas outras que hoje conhecemos, datam dessa época. Não quero dizer, absolutamente, que este conto tenha sido "criado" em meados do século XVII. Ao contrário, as narrativas populares vêm de uma tradição ancestral, muitas são mais antigas que a glória social do Japão. Contos, lendas e fábulas apenas ganham forma literária: transcreve-se para o papel a memória mítica recontada pelo povo e, como sabemos, quem conta, aumenta -- mas também subtrai, subverte, troca acontecimentos, reinventa outros novos. Essas histórias se atualizam, de geração para geração, pois, dentro da tessitura oral, não possuem um enredo fixo -- mas extremamente móvel, sujeito a adaptações de toda natureza.
Assim, as versões registradas a partir do Período Edo, em muitos casos, apresentam elementos de seu contexto histórico, de um modo preciso ou difuso. Podemos citar, Hatikazuki Hime (a princesa que leva um vaso na cabeça, escondendo seu rosto), onde aparece uma competição cultural: tocar okoto, recitar e dançar para que a jovem se mostre digna de esposar um príncipe. Ou seja, além de sua beleza, ela precisa ser culta e saber entreter. Em meio às aventuras de Issum Boshi (o herói de uma polegada de altura que muito deseja tornar-se samurai), o pequeno campônio parte rumo a capital do país. Chega a uma grande ponte, onde circulam centenas de pessoas -- uma referência à Nihonbashi, a grande ponte do Japão, soerguida em Edo (capital do país naquela época), passagem obrigatória dos populares, ponto de encontro dos comerciantes da região. Este é o lugar primeiro de todas as notícias e dos comentários sobre as medidas baixadas pelo governo. Diga-se, de passagem, que a população de Edo, já no século XVII, chegava a 1,3 milhão de pessoas, superando Paris e Londres da época.
Em relação ao Ocidente, aliás, devemos ter em mente que o Renascimento Japonês coincide com a Renascença Européia em diversos pontos. Entre os séculos XVI e XVIII, avançando para tempos mais modernos, temos: fim de um período de guerras entre clãs e feudos, excesso de mão-de-obra agrícola e consecutiva urbanização em progresso, estabilização do comércio e das moedas, preocupação com as fronteiras políticas (e também culturais). Na semeadura literária, contamos com as recolhas e as adaptações de La Fontaine e de Perrault (séc. XVII). Pode-se dizer que há, no mundo todo, a vivência de um mesmo astral de grandes mudanças e o homem, em sua individualidade, modificando hábitos e visões.
Na história do menino que nasceu do pêssego, também encontraremos influências do Período Edo, principalmente na postura e na descrição de algumas personagens. Mas isso, em nada, altera o significado profundo da narrativa, que nos permite roçar a amplitude de sua essência mítica, fazendo com que Momotaro seja um herói necessário aos tempos atuais. Mukashi... Ima: Era uma vez... Agora!, como nos faz pensar a escritora Lúcia Hiratsuka que, nos últimos anos, vem se dedicando à pesquisa e à adaptação de narrativas tradicionais do Japão, autora de uma coleção de nove livros (primeiramente pela Estação Liberdade, republicados pela Callis e pela Global), um vídeo (Santa Clara Produções, 1996) e um CD com cinco histórias (MCD/Casa de Bambu, 1997). É a partir deste rico material da autora que tanto Dora Baseio, quanto eu, iniciamos uma jornada de estudos: primeiro em separado, depois juntos, como os Viajantes da Ilha em uma aventura que é analisar e resgatar o sentido mítico desse arquipélago de histórias.


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