douraduras orientais

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dos contos
de magia:
o Czar Saltan
por Flora Salles
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Em «O Czar Saltan», Pushkin empreendeu uma tarefa hercúlea, pois decidiu cadenciar e rimar a história tal como a ouvia de sua babá, Arina Rodionóvna. E deve ter conseguido, uma vez que esses versos embalam todas as crianças russas, assim como embalaram o poeta em sua infância. São parte intrínseca do país, do quarto imerso em silêncio, das douraduras do ícone sempre iluminado, do livro de imagens aberto sobre a mesa. Através de «O Czar Saltan», todos os russos tiveram, debruçada sobre seu leito, uma Arina Rodionovna sorridente, transbordante de palavras doces. O título, tal como apareceu na primeira publicação, 1831, é bastante extenso, conforme o costume da época:

Conto do Czar Saltan, de seu filho, nobre e poderoso guerreiro,
o Príncipe Guidon Saltanovitch, e da bela Princesa Cisne

O início é este:
Os versos são heptassílabos (de sete sílabas), ou em redondilha maior, que, como o nome indica, é “redondo”, de fácil assimilação popular. São em dísticos – isto é, as rimas são sempre duas a duas. Não por acaso, Pushkin assim o decidiu; é óbvio que isso facilita, em muito, a memorização.
Tentarei fazer aqui a transliteração dos dois primeiros dísticos. Creio que será fácil, mesmo para quem não fala russo, absorver a musicalidade desses versos.

Káby-iá bylá tsarítsa
Gavarít adná dievítsa
Tôna viês krishôni mir
Prigatóvila b iá pir

Outra característica do conto é o ritmo, a cadência. De propósito, escolhi o trecho do mar, para mostrar o movimento das ondas.

Viêter na more gulháiet
I karéblik nodganháiet (...)
Vieter viéssela shumít
Sudna viéssela bijít

(O vento passeia sobre o mar
e traz navegadores
o vento alegre assobia
a nau alegre desliza.)

Pushkin abusa sem dó da repetição. Sabe que, com ela, conquista o leitor-mirim, que é, em última instância, seu alvo supremo.
Resumindo bastante __ o conto é bem grande e pode ser lido na tradução para o inglês [clicando aqui] __ temos a seguinte continuação:
 N. Bogatcheva - Palekh, 1990
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Saltan, que passeava por perto e entreouve a conversa das três jovens, decide casar-se com a terceira, a que prometeu dar-lhe um filho guerreiro (bogatyr, que também quer dizer herói). As irmãs foram convidadas a morar no palácio. A princesa teve um bebê justamente quando o czar se achava em campanha de guerra. Era uma criança adorável e robusta. Com a ajuda de uma velha bruxa, de nome Babarikha (pronuncia-se babáriha, com “h” aspirado), as irmãs, enciumadas, interceptaram a correspondência da czarina e enviaram uma má notícia ao czar ausente: a rainha dera à luz um monstro.

Deu-te a mulher um mostrengo
Meio peixe, meio podengo
Sim, um bicho muito estranho
Meio rato, meio caranho.

Aborrecido, o czar escreve à mulher, ordenando-lhe que não exponha o filho para ninguém, nem saia do palácio. As irmãs interceptam o mensageiro e forjam outra carta, dando ordens para a rainha e o filho serem atirados ao mar dentro de um barril fechado. O bebê cresceu forte e bonito dentro do barril; todo o dia ele pedia ao mar que os deixasse a salvo numa praia. As ondas tiveram pena do belo moço, e atiraram o barril numa praia deserta. A rainha e o príncipe passam a viver nessa bela ilha.
 Alexey Rybakov - Kholuy, 2002
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Uma vez, ele foi pescar na praia e viu um abutre atacando um cisne. O príncipe mata o abutre com uma flechada certeira, e fica sabendo que o cisne é uma princesa, fadada ficar assim até o fim da vida, enquanto o abutre não passava de um malvado feiticeiro.
A Princesa Cisne transforma a ilha numa esplêndida cidade, da qual ele passa a ser o rei, com o nome de Guidon.
Um dia, um navio mercante aporta em Guidon. O cisne branco transforma-o numa vespa, a fim de que ele possa seguir o navio. Os mercadores, chegando ao reino do Czar Saltan, contam maravilhas sobre a misteriosa cidade de Guidon. O czar logo se interessa em visitá-la, mas as irmãs o dissuadem da idéia, contando que há um lugar mais mágico ainda – um reino distante, onde um esquilo encantado quebra nozes de ouro, cujas amêndoas são esmeraldas. Enfurecida, a vespa pica uma das irmãs e sai voando.
 A. Kotukhin - Palekh
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De volta à ilha, Guidon conta o que ouviu ao cisne, e este invoca o esquilo, que vem morar na ilha. O príncipe instala o animalzinho num palácio de cristal.
Pouco depois, outros mercadores em rota para o reino de Saltan passam pela ilha e ficam assombrados com a cidade e o encantador palácio de cristal do esquilo. Quando se despedem, o cisne novamente transforma o príncipe em pernilongo, para que este siga o navio mercante. Mais uma vez o czar se entusiasma com os relatos dos mercadores, e mais uma vez as irmãs o convencem de que não vale a pena ir visitar a tal ilha, pois há um fato mais fascinante ainda: trinta e três guerreiros que costumam sair do mar, conduzidos por um velho mago. O pernilongo pica a outra irmã e sai voando.
 Tatyana Mayevskaya - Palekh, 2002
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Chegando à ilha, Guidon relata o que ouviu ao cisne, e este lhe conta que os trinta e três guerreiros são seus irmãos. O cisne invoca a presença dos trinta e três guerreiros, que passam a tomar conta da ilha.
 Konstantin Strunin - Mstera, 1995
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Outros mercadores aportam na pequena ilha, e Guidon pede-lhes que relatem tudo ao Czar Saltan, e dessa vez vai acompanhá-los transformado em zangão. Pela terceira vez, Saltan quis ver os guerreiros do mar, mas as irmãs o dissuadiram, contando que conheciam algo muito mais maravilhoso:

Mais brilhante do que o sol
Mais formosa do que a lua
Em suas tranças um crescente
E na testa estrela fulgente
Quem a escuta ao falar
Ouve riachos a cantar

 V. Khodov - Palekh, 1978
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Enfim, uma princesa que tinha uma estrela na testa e uma lua crescente de ouro nos cabelos. O zangão, zangado, picou o nariz de Babarikha e saiu voando.
O príncipe procura o cisne branco. Diz que não descansará enquanto não conhecer essa maravilhosa princesa, a fim de fazer dela sua esposa. O cisne então revela que é ele a princesa, e transforma-se diante de seu salvador. Tem uma estrela na testa e longos cabelos dourados, enfeitados por uma lua crescente de ouro.
Apaixonado, Guidon casa-se com ela.
Por fim, o Czar Saltan não quer mais ouvir as irmãs e parte para visitar a ilha de seus sonhos. Assim que desembarca, reconhece a esposa e o filho, que lhe conta as perfídias das irmãs. O czar ordena que as duas sejam encerradas num barril e jogadas ao mar. Elas não têm a mesma sorte que teve a irmã mais nova; o barril afunda com elas.
A história não termina com “E viveram felizes para sempre”. Termina como os demais contos russos: com um grande e alegre festim.
Imagens que se repetem...
e iluminam leituras comparativas

A primeira coisa a notar como recorrência mágica é o número três. Em contos de fadas, esse número é realmente o primeiro, seguido de perto pelo sete. Propp vai mais longe e afirma que os números serão sempre ímpares... Seja como for, em «O Czar Saltan» temos, já no início, a presença de três moças; três são as vilãs (incluindo Babarikha, a mãe da czarina); o príncipe deverá obter três prêmios (o esquilo, os guerreiros do mar e a princesa-cisne); os mercadores fazem três viagens e o príncipe se transforma em três insetos. Bem a propósito, vem uma intervenção de Monteiro Lobato aqui:
__ Também acho bastante boba essa história __ disse Narizinho __ além de que há muita repetição de coisas de outras. Os tais três irmãos, o tal do mais novo sair pelo mundo, a eterna velha o tal reino das Três Pombas, os tais três aleives __ tudo três, três, três. Isso até cansa (...)
__ O negócio dos três __ disse Emília __ é coisa que só serve para maçar as crianças. O contador faz isso para espichar a história.
São inúmeros os exemplos de contos com o número três, e não há necessidade de enumerá-los aqui. Mas é bom lembrar que em roteiros de filmes o número três também é considerado o ideal. Isto é, quando se quer repetir uma cena, o número geralmente adotado é o três. Talvez seja porque mais do que isso cansa; e menos não causa tanto efeito.
Em Ruslan e Ludmila, um conto popular russo compilado pelo próprio Pushkin, há belos cavaleiros que saem das águas, bem como um cisne que se transforma em princesa. O cisne, decerto por ser um animal de porte elegante e suave (na água... em terra, ele perde esses atributos e passa a ser desengonçado), tem papel importante nos contos infantis, à lembrança do Patinho Feio. Mas há ainda a história do Lago dos Cisnes, em que Odette é transformada em cisne; e não nos esqueçamos do conto Os Cisnes Selvagens, de Andersen.
As irmãs malvadas estão presentes em muitos contos, como A Bela e a Fera e Cinderela. Nesta, vemos a presença também da madrasta [o conto original traz a mãe da princesa-cisne como principal verdugo da heroína. Pushkin, naturalmente, ainda não conhecia o termo “politicamente incorreto”, mas intuía-o], outro elemento presente em muitos contos, inclusive para adultos. Dickens lança mão desse recurso em vários romances, incluindo David Copperfield e Oliver Twist. Nesses dois livros, a madrasta é, na verdade, padrasto, mas a idéia é a mesma.
O cisne, neste conto, faz as vezes do gênio da lâmpada; é ele que satisfaz todos os desejos do Príncipe Guidon. De quebra, transforma-se na princesa de seus sonhos e casa-se com ele... Um gênio mais eficiente que o da lâmpada! No conto As três laranjas, que é uma adaptação (muito simplificada) de A Moura Torta, tem uma pomba branca que se transforma em princesa. Existe uma semelhança entre essa e a nossa princesa; além disso, a pomba branca e o cisne branco logo nos passam a idéia de pureza.
Conhecemos inúmeras histórias de mulheres que se casaram com bichos, noivos animais __ ou melhor, com príncipes "encantados", transformados. A Bela e a Fera é o exemplo clássico que nos deu a tradição ocidental; e há mesmo alguma intertextualidade entre o conto do Czar Saltan e essa história (que dizem ter origem russa, não francesa), uma vez que as irmãs de Bela são malvadas. Por sua vez, não nos esqueçamos que a versão de A Bela e a Fera, seja de Mme. Villeneuve ou de Leprince de Beaumont, deve ter sido inspirada em Eros e Psiquê, de Apuleio. Psiquê casa-se e vai morar com uma serpente que afinal não é serpente nenhuma, mas o próprio Eros. A lenda sergipana Porque o mar tanto chora conta uma história inversa: a cobra Labismina mora no mar e se transforma em princesa, depois de ter ajudado a mãe por três (!) vezes.
Transformar-se em inseto é um desejo antigo do ser humano e para fazer exatamente o que faz Guidon: saber o que está acontecendo, sem que os outros o percebam. Existe mesmo a frase “fly on the wall” (mosca na parede) para designar as câmaras bisbilhoteiras que registram o que se passa na sala ao lado, por exemplo. A transformação, ou metamorfose de coisas e pessoas, é outra constante nos contos __ e não só infantis. Kafka fez um homem acordar transformado em um inseto enorme e asqueroso, que não sabemos identificar com precisão. Loke, figura da mitologia nórdica, transforma-se em mosca para atrapalhar o trabalho dos anões; e também se transforma numa pulga para incomodar o sono de uma moça. Obviamente, há muitas outras transformações __ carruagem em abóbora, sapo em príncipe. E cisne em princesa.
O fundo do mar é outro baú de tesouros, em termos de imaginação. Desde tempos imemoriais, ele fascina o homem que busca conhecê-lo da mesma maneira como tenta explorar o cosmo. Pois nosso conto não fica atrás. O cisne mora no mar e tem trinta e três irmãos guerreiros que nele também habitam. A Bíblia conta a história de Jonas, que viveu na barriga de um peixe; Gepeto foi engolido por uma baleia; e A Moça das Pérolas (um conto português) viveu na barriga de uma baleia. (Falando de água, lembrei-me de que o soldadinho de chumbo cai na enxurrada, levado num barquinho de papel. Polegarina sai pela enxurrada tendo uma folha por barco. E Pequetito ou Issum Boshi, herói japonês, vai navegar numa cuia de arroz.)
A velha Babarikha tem seu nome adaptado de Baba Iagá, uma bruxa muito conhecida das crianças russas. Trata-se de uma velha que mora sempre numa cabana de madeira, cujos pés são de galinha. Quando passa um viandante pela cabana, esta se ergue nos pés e acompanha, pela janela, os passos do intruso. Como se a janela fosse os olhos da bruxa. Baba Iagá é horrenda e tem dentes de ferro que podem ser muito atraentes, dependendo do ângulo de quem olha... Ela costuma andar pela floresta __ seu hábitat __ montada não numa vassoura, mas numa grande tina, impulsionada por uma mão-de-pilão. Armada de um galho na outra mão, ela vai apagando o rastro que deixa. O galho __ naturalmente! __ é de bétula (berióshka), a árvore nacional russa.
Cabe aqui um parêntese que julgo interessante: os russos não conhecem fadas, tal como as concebemos no ocidente. Na verdade, Baba Iagá pode fazer as vezes de fada boa, dependendo de seu humor e disposição. Há moças bonitas, dotadas de poderes, como no conto que estamos examinando; todavia, muitas vezes essas moças não são boazinhas. Em Flor de Pedra, por exemplo, uma linda moça aprisiona um rapaz em sua montanha, o qual acaba morrendo.
Aliás, não será demais dizer que, nas inúmeras adaptações que vi e li de «O Czar Saltan», apenas o episódio da princesa que se transforma em cisne é focalizado. Na ópera de Rimsky Korsakov, a história termina com o casamento de Guidon. Pois bem, este não é um conto contemporâneo; sua origem se perde nas estepes e taigas geladas da Rússia. Pushkin ouviu a história vezes incontáveis, segundo ele mesmo relata, e resolveu adaptá-la segundo os costumes de sua época. Meu propósito foi trazer o conto ao conhecimento de pelo menos algumas pessoas, e passar-lhes um pouco da magia do conto russo.

Dobras da Leitura
Ano VI - N.º 26 - set. 2005
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