Cinderela em Todo Mundo
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A mais antiga versão de Cinderela, que se tem notícia, foi encontrada na China, entre
os diversos manuscritos datados do século VII -- portanto 1.000 anos antes da adaptação
de Charles Perrault, em seus "Contes de Ma mère
l'Oye" (1697), elitizando o imaginário dos contos populares de magia com seus
sapatinhos de cristal.
A história de Yeh-Shen, adaptada diretamente da tradição oral chinesa,
traz a mesma jovem que, superando a maldade e o descaso da madrasta e de suas irmãs
adotivas, torna-se a noiva do filho do imperador.
A magia do extremo Oriente também está neste livro: Pear Blossom (Flor de Pera) é
a identidade coreana para a incansável Cinderela que vive eternamente sob os maus tratos
de sua madrasta. No entanto, nesta variante do conto, a fada-madrinha tradicional é
substituída por outros auxiliares mágicos -- uma rã, um papagaio e um boi -- que permitem
à personagem encontrar a felicidade de uma forma diferente, mas o final feliz é o mesmo,
ou quase... Na Coréia, Flor de Pera-Cinderela é escolhida pelo magistrado (juiz) para ser
sua esposa.
Emoldurando a narrativa, antigos padrões coreanos são cuidadosamente
tecidos dentro de cada ilustração, fazendo o recontar uma viva experiência visual.
Nesta adaptação, somos apresentados à bela Rhodopis, uma jovem escrava grega perdida no
Egito do Século VI a.C. que recebe de um velho mestre um par de chinelos vermelho-rosa.
Neste cenário, misturando o enredo de Cinderela a fatos históricos sobre a vida
social entre escravos e os antigos faraós, Rhodopis é vítima de um falcão que, descendo
em vôo rasante, rouba-lhe um de seus preciosos chinelos.
Em tempo: Rhodopis passa dias
desconsolada até saber que o falcão entregou seu chinelinho vermelho ao grande Faraó que
dele se utiliza como a única pista para encontrar sua dona e futura noiva. Por fim,
Rhodopis é eleita a senhora do Egito, esposa e rainha.
Das tradições folclóricas dos índios Ojibwa, tribo dos EUA, Sootface (literalmente, Face
de Fuligem, ou Face-Cinza) é uma jovem que faz de tudo: cozinhar, costurar, emendar e
remendar, além de saber acencer o fogo com suas próprias mãos. Ela se ocupa de todo
trabalho de casa para seu pai e as duas irmãs mais velhas que nada fazem na vida...
Face-Cinza sonha com um futuro melhor ao lado de um marido especial. Um dia,
misteriosamente, um guerreiro todo-invisível anuncia sua busca por uma noiva: uma jovem
de coração delicado e honesto. E somente a Cinderella Ojibwa é capaz de ver o grande
caçador, reconhecendo o amado imerso na Natureza, sendo assim a donzela escolhida.
Outra Cinderela sob a aparência de nativa: um conto zuni adaptado da tradição oral para
a página impressa. Sem um nome particular, ela é apenas uma turkey girl,
a guardadora de perus que vive no pueblo de Matsaki, recebendo por seu trabalho
apenas milho e roupas velhas.
No meio de seu rebanho de penas, esconde-se o auxiliar
mágico: o Mais Velho Peru que lhe concede dom e graças para participar do Festival de
Dança do Pássaro Sagrado, em Hawikuh, vestindo-a com roupas novas, joiás e violetas do
deserto... Mas ela deve voltar antes que o Sol amanheça, caso contrário todas aves lhe
abandonarão!
Esta narrativa oferece um interessante contraponto para as versões mais
divulgadas do conto de Cinderela, pois aqui há uma falta no final: acontece que a menina
dos perus, envolvida com a dança e com os homens, mal vê o céu clarear. Lembra-se da
promessa e volta para casa -- mas o atraso é irremediável: os perus vão embora para
qualquer outro lugar que ela mesmo desconhece... A sorte lhe escapa. Mesclando-se ao
gênero da lenda, vemos que é em razão da desobediência da pequena guardadora,
que essas aves vivem afastadas do contato humano e nunca mais atenderão seus pedidos.