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Baba-Yaga e os segredos da Mãe Natureza
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ilustração do livro de Amy Friedman, Tell me a story:
Baba Yaga and the kind little girl (The Detroit News, 1995) -
on-line: www.thebells.net
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por
Peter O'Sagae
texto de 1997, revisto
Baba-Yaga é uma velha, muito velha, que vive em uma cabana sobre
pés-de-galinha. Ela se alimenta de ossos humanos moídos em seu pilão, mas há
quem diga que também come criancinhas com seus dentes de ferro. E voa dentro
de um almofariz de prata, muito veloz. Contam ainda que o rastro de cinzas
que deixa pelo céu, rapidamente a danada vai apagando com sua vassoura.
Importante figura no imaginário do povo russo,
Baba-Yaga está presente em muitos contos tradicionais, no caminho de Vassilissa, a bela,
ou do destemido Príncipe Ivan, como nas bilinas (narrativas em verso) de grandes poetas
românticos, entre eles, Gogol, Puchkin, Liermontov.
Igualmente na música clássica daquele país, alguns compositores
se dedicaram a fazer-lhe um “retrato sonoro”:
temos três poemas orquestrais com Dargomíshky, Balakirev e Liadov;
ela também aparece na suíte Quadros de uma Exposição, de Mussorgsky,
e no Álbum para Crianças,
de Tchaikovsky. Talvez, a primeira antologia de literatura russa de tradição oral,
que o público de língua portuguesa teve acesso, fora feita por Alfredo Apell,
nos idos da década de 1920. No Brasil,
a bruxa aparece na história de encantamentos
“A princesa-serpente”, na coletânea Contos populares russos organizada por
J. Vale Moutinho (Nova Crítica, 1978 e Princípio, 1990), mas coube à escritora
Tatiana Belinky o resgate mais bem divulgado como literatura para crianças:
a velha Yaga e a magia das skáskas (narrativas maravilhosas) estão
em Sete contos russos (Companhia das Letrinhas, 1995).
Mais recentemente, foram publicados, em três volumes, os Contos de
fadas russos, organizados por Aleksandr Afanas'ev, a partir de
1855, com o título Narodnye russkii skazki, base destes trabalhos
e outras formas adaptadas (Landy, 2002 e 2003).
Quase sempre, Baba-Yaga é a temível bruxa, a malvada, la maliarda.
Às vezes, ela parece ser apenas uma grande conselheira ou a guardiã de muitos segredos,
moradora da escuridão numa densa floresta. Sob esta faceta, Baba-Yaga seria assim
como a representação da Mãe-Natureza, igualando-se às antigas deusas, uma divindade
com poderes sobre a vida e a morte porque rico em mistérios é seu perfil. Contudo,
nossa maneira apressada de encarar as realidades imaginárias acomodou-se sobre
a lógica a dividir o mundo em partes e posições irreconciliáveis. Quando se pensa
em bruxas, evocam-se as fadas e uma eterna rivalidade, ou seja, a luta entre o Bem
e o Mal.
Ora, a designação “bruxa” dada às velhas sábias surgiu muito antes do cristianismo
lançar sua caça à elas, e referia-se a uma casta de sacerdotisas de um sistema religioso
antigo e diferente, com caracteres próprios ao paganismo: uma religião de culto
à Terra. Durante a baixa Idade Média (até meados de 1400), as bruxas eram tidas
em consideração pelos campônios, aldeões e demais homens das vilas. A bruxaria era,
para o Clero e a Coroa, uma simples superstição e, de modo algum, estava associada
aos poderes do Mal. Reconhecidamente, as velhas que prestavam serviços para toda a
comunidade na condição de parteiras, curandeiras, conselheiras, eram bruxas.
Acreditava-se (uma tradição que ainda hoje se mantém) que essas mulheres tinham
poder e influência sobre o corpo de outras pessoas e podiam curar doenças,
bem como havia a crença de que sua magia e outras formas de projeção podiam favorecer
a boa colheita. Com suas ervas milagreiras, a antecipação do futuro e outras simpatias,
as bruxas eram respeitadas. A Medicina era ainda uma ciência incipiente, atendendo
prioritariamente às camadas mais altas da sociedade medieval, como a nobreza e o clero;
mesmo assim, os resultados a que chegava eram menores e mais incertos que os milagres
operados pelas velhas sábias do povo.
No entanto, com a crise que a igreja medieval enfrentou
junto às classes populares, as bruxas acabariam por cair em desgraça.
Política e religião uniram forças e passaram a difundir novas imagens
e idéias a respeito do curandeirismo e outras superstições relacionadas às velhas.
Tornaram-se agentes do Mal, foram demonizadas dentro dos tribunais,
em oposição a um sistema que representava a visão do Bem.
Como portadoras de uma maldição divina, as bruxas se transformaram
ideologicamente em consortes do próprio Diabo —
ao mesmo tempo em que, na iconografia da época, o anjo soberbo ganhava novos
contornos, assemelhando-se ao traçado animalesco e profano do antigo deus Pã.
Fora criado igualmente o conceito de sabá,
a grande festa orgíaca em que a devassidão, a gula e a beberagem tomavam a cena,
gerando terror e histerismo entre o povo.
O velho conselho de uma bruxa não continha mais sabedoria,
tornou-se um maledicente sussurro como um vento sequioso,
frio e corruptor. E, entre os véus e alguma penumbra da fantasia,
surgiram voláteis fadas, numinosas entidades, obrigando as mulheres-bruxas
a esconderem-se em refúgios cada vez mais ermos. Os contos populares de magia
são pródigos nas imagens do sítio abandonado, da alta torre, do
castelo debaixo da montanha ou imerso no mar, como a casa perdida
no meio da floresta em que ninguém ousa penetrar.
Vassilissa, a Formosa, andou e andou, e só ao entardecer do dia seguinte
ela chegou à clareira onde ficava a cabana da Baba-Iagá. A cerca em volta
dessa isbá era toda feita de ossos humanos, encabeçados por crânios espetados
neles, com olhos humanos nas órbitas. E o trinco do portão era uma boca humana
cheia de dentes aguçados. E a casinha era construída sobre grandes pés de galinha.
(Belinky 1996: 25-6)
Longe do convívio humano,
Baba-Yaga tem o domínio pleno e solitário da floresta,
suas árvores e as sombras,
revelando-se como uma das manifestações do arquétipo feminino da Grande-Mãe,
com quem, em última instância, todos buscam um consolo ou ajuda.
O encontro de Vassilissa com ela guarda certas semelhanças
com uma versão primitiva pouco conhecida do conto de O Chapeuzinho Vermelho,
que remete não apenas a um rito de passagem,
mas à transmissão de poderes da mulher velha para a jovem (Kaplan, 1997).
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O cavaleiro rubro, em uma ilustração de Ivan Bilibin para Vassilissa, a muito bela
(São Petersburgo, 1902). Outras imagens do livro
disponíveis em
ContoSempre (ilustradores célebres). 
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É necessário um período de convivência naquela cabana e
abandonar os temores e a curiosidade infantis,
para que uma nova aprendizagem se estabeleça.
É ilustrativo o diálogo com Vassilissa, a respeito dos três
cavaleiros que a menina
vira passar (o branco, o rubro e o preto),
quando se dirigia à cabana sobre pés-de-galinha. A velha responde
que eles respectivamente são “meu dia, minha tarde, minha noite”.
Não poderia se expressar de outra maneira, não fosse a verdadeira
senhora da passagem do tempo.
“Podemos chamá-la de Grande Deusa da Natureza”, afirma Marie-Louise von Franz,
mas “obviamente, com todos esses esqueletos em volta de sua casa,
ela é também a Deusa da Morte, que é um aspecto da natureza” (1985: 208).
Baba-Yaga compreende igualmente os dois mistérios extremos da Vida,
o nascimento (criação) e a morte (destruição).
A Grande Mãe nem sempre é Boa Mãe. Na escala grandiosa,
o seu aspecto negativo, devorador e asfixiante, denomina-se a Mãe Terrível [...]
Nos mitos, aparece como a mãe devoradora que come os próprios filhos. Conhecemo-la
como a cruel Mãe Natureza, que procura repossuir toda a vida — toda a civilização —
com a finalidade de colocar tudo de novo dentro do ventre primevo. Como terremoto,
abre literalmente o ventre para sugar o homem e suas criações de volta a si mesma.
(Nichols 1995: 105)
Além de suas qualidades dóceis e férteis,
o arquétipo da Grande-Mãe simboliza a destruição necessária
para uma nova ordem. O sorriso malévolo de Baba-Yaga pode ser comparado
com inúmeras representações de um tipo de mãe-fera, como é o caso
da deusa Kali da tradição hindu.
Sedenta de sangue, Kali pode surgir inesperadamente diante de seu expectador com
a língua vermelha estirada para fora — antevendo o prazer da devoração.
Do bosque saiu a malvada Baba-Iaga. Viajava dentro de um almofariz e segurava
na mão o pilão e a vassoura.— Cheira-me aqui a carne humana! — suspeitou a
terrível bruxa. Vassilissa estava tão aterrorizada que se sentiu
desmaiar. Tudo em volta era sinistro e Baba-Iaga tinha um ar ameaçador. Mas resolveu
encher-se de coragem. Já que ali estava, pelos menos ia tentar a sorte e pedir
ajuda àquela horrível bruxa. Assim, aproximou-se da velha, inclinou-se e disse:
— Olá, avozinha! As minhas irmãs mandaram-me vir ter contigo, para te pedir lume.
(Beliayeva 1995: 81)
Quando nos depararmos com o temível,
ou mesmo com o nariz e as rugas de Baba-Yaga,
intimamente sabemos algo de sua força e sua ancestralidade mágica.
Tratá-la com respeito é o primeiro passo para conquistar respeito
em troca. Quando Vassilissa encara a feiticeira
com sinceridade, sem soberba ante o perigo,
assegura as chances para uma cumplicidade e convivência pacífica
com a velha. Não cair em sua ira devoradora significa ter acesso aos conhecimentos
dessa potestade arquetípica. Durante a estadia na isbá da bruxa,
há de recuperar essa memória, os segredos de quem sabe ouvir a música das
correntezas subterrâneas.
Ao mesmo tempo em que vai demonstrando sinais de afeição,
a menina reconhece na outra o saber, ainda que inconsciente, na verdade é seu.
Afinal, que imagem o espelho de seus olhos refletirá?
Enquanto Baba-Yaga jantava,
Wassilissa ficou ali perto, silenciosa. Baba-Yaga disse:
“Por que é que você está me olhando sem dizer nada? Você é muda?”
A menina respondeu: “Se pudesse, gostaria de lhe fazer
algumas perguntas.”“Pergunte”, disse Baba-Yaga, “mas lembre-se,
nem todas as perguntas são boas. Saber demais envelhece!”
(von Franz 1985: 206)
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