contornos de uma Fragrância


QUANDO O ASSUNTO É CONTO de Fadas, Conto Maravilhoso ou Conto Popular, muitos caminhos se oferecem a nossos pés: caminhos sinuosos, labirínticos e até mesmo obscuros... É como se embrenhar numa floresta, com seus perigos e seduções, desafios e obstáculos -- e exatamente a imagem de uma floresta de perdição e encantos que pode ser flagrada como metáfora, para todos nós, seja como indivíduos que ouvem histórias e a elas se entregam sem preocupação, seja como professores e pesquisadores dessas narrativas (ou, ao menos, curiosos), ou ainda como a criança que um dia fomos e tentamos manter sempre sorrindo ou chorando. Como diz o poeta,

A criança que fui chora na estrada
Deixei-a, ali, quando vim ver quem sou.
Mas hoje vendo que o que sou é nada,
Quero buscar quem fui onde deixei.

Fernando Pessoa

Caminhos de volta, caminhos de encontro onde leitores e personagens se identificam. Ora, no conto, podemos ser Pequeno Polegar, João, Maria, Chapeuzinho Vermelho ou tantos outros heróis menos conhecidos, levando em nossos bolsos fragmentos de histórias e vivências que nos permitirão o retorno para a casa -- ou não. Em geral, para um pesquisador, quanto mais pistas ele vai encontrando à sua frente, mais densa e maior torna-se a floresta -- pois até mesmo o estudo não se salvaria da tentação que há na proposta do Lobo:

__ Vê, Chapeuzinho Vermelho, que lindas flores há por aqui. E como os passarinhos estão cantando! Caminhas muito séria, sem sequer olhar para os lados... sem prestar atenção na beleza das floresta.

Chapeuzinho Vermelho levantou os olhos e, quando viu os raios de sol dançando aqui e ali entre as árvores, e as lindas flores que cresciam em todos os lados, pensou: "E se eu levasse para vovó um belo ramalhete dessas flores tão bonitas? Ela iria gostar muito. É ainda bem cedo, eu poderei colher as flores sem levar muito tempo."

E, assim pensando, saiu da estrada e entrou no bosque para colher as flores. E, sempre que colhia uma, via mais adiante uma outra que achava mais bonita e, assim, foi se afundando cada vez mais na floresta.

Posso dizer que há quase dez anos, ousei estar em viagem pelas terras do "Era uma Vez", vasculhando caminhos e estradas que, embora nos conduzam sempre a algum lugar, são diferentes. Estradas são construídas para andarmos em segurança. Necessariamente, os caminhos devem ser descobertos...

Passos e passos adiante, estão os autores consagrados na pesquisa e na análise dos contos. Vão tracejando mapas com suas linhas teóricas, demarcando um rumo para a exploração do terreno... Por vezes, tais linhas se encontram em um ponto qualquer e eis um lugar interessante para sentar e descalçar a marcha. Mas é, nesse momento de distração do viajante, que o lobo surge (ou ressurge, vai depender do caso de cada um) e nos leva a colher flores em outras páginas de teoria, ouvindo pássaros em novos chilreios e, assim, vamos nos afundando cada vez mais na floresta dos contos. Apesar de tudo, é inegável dizer que o estudo-trabalho e o prazer se misturam em um único perfume!

Contornos de uma fragrância... Tratei de colocar aqui a abertura da palestra Das pequenas pedras, grãos, ervilhas, migalhas de pão: encontros no interior do conto popular realizada em outubro de 1999, na Universidade do Oeste de Santa Catarina - UNOESC, a convite das professoras Tânia Hetkowski e Zenilde Durli, coordenadoras do Centro de Educação. Na gaveta, ou melhor, em alguma alocação de bits, um projeto de livro permanece a espera... as poucas páginas que vêm a seguir são, antes de qualquer coisa, notas e lembretes utilizadas em aula, indicações de outros espaços da rede, fragmentos de conversa e aquela porção de xxx, traço e ponto que registro nos livros mapeando minhas leituras.

Vale ainda lembrar que os nomes tentam prender uma essência em seu contorno. Quero dizer, Contos de Fadas, Contos Populares de Magia, Contos Maravilhosos, Contos Tradicionais, Contos de Encantamento, Contos Orais -- tudo é a mesma matéria, ou não, nesse único e verdadeiro Ninho de Enigmas e Contradições, no dizer de Marc Soriano. É todo um conjunto de narrativas a traduzir o imaginário humano através de séculos e séculos, na costura da Palavra que expressa desejos e tensões, o semear de sonhos capazes de reordenar o mundo do não-vivido, da revelação das verdades humanas. Talvez, por isso, iremos encontrar diversas versões para um mesmo conto através do tempo: há também "algo" de essencial que nem sempre é dito e que, no entanto, continua imutável e se vê em suas imagens...

No conto popular como forma simples, o maravilhoso não é o mara-vilhoso, mas natural... As personagens e as aventuras do Conto não nos propiciam, pois, a impressão de serem verdadeiramente morais; mas é inegável que nos proporcionam certa satisfação. Por quê? Porque satisfazem, ao mesmo tempo, nosso pendor para o maravilhoso e o nosso amor ao natural e ao verdadeiro, mas, sobre-tudo, porque as coisas se passam nessas histórias como gostaría-mos que acontecessem no universo, como deveriam acontecer.





1999 © Peter O'Sagae
2001 © O Caracol do Ouvido
2002 © Dobras da Leitura
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